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Vilão bom é vilão morto?

No próximo ano teremos a continuação de Man of Steel, Batman v Superman dawn of justice (o nome da continuação ainda não foi divulgado), onde os heróis provavelmente terão de lidar com os problemas gerados no primeiro filme. Batman e Superman no mesmo filme, isso é algo que de fato empolga.  O filme é uma megaprodução bem executada em matéria de cenário, figurino, atores, e a proposta desse espaço aqui desde sua concepção não é ficar falando mal de filmes, HQs, seriados e jogos, existem canais especializados nisso.

O ponto que quero levantar aqui é sobre a morte do vilão pelas mãos do herói e o quanto isso pode pesar nesse cenário. Fazendo uma conta grosseira aqui… blogs contestam o fato do Superman não matar, apontando umas, sei lá,  quatro vezes que algum roteirista forçou o homem de aço a ser o executor de seu oponente. Temos uns 800 gibis do Super desde sua criação (pra mais), dobrem isso com suas participações em outras histórias, Liga da Justiça, Legião, etc.

Se basear nas quatro vezes que algum roteirista matou um vilão para amparar a quebrada de pescoço do General Zod talvez seja algo raso de se fazer, já que existe uma gama dos fãs em buscar sempre a proximidade do “cânone” do personagem, mas parece que só se tiverem de acordo com esse cânone.  Por exemplo: se o Wolverine parar de tomar cerveja e à partir de agora só bebesse suco de uva causaria uma comoção geral sobre a identidade do personagem. mas e sobre o Superman não matar? A cerveja está muito mais ligada ao Wolverine nas graças dos fãs do que os princípios de bom moço do Superman aparentemente.

Tenho outro exemplo aqui, numa dessas viagens por terras paralelas, (dessas em que tudo pode acontecer) vislumbrou-se em X-Treme X-Men uma cena, apenas uma em uma página, Wolverine beijando Hércules. Era uma terra paralela, era em apenas uma ocasião e editorialmente nunca mais se falou disso, não alterou o cânone de ninguém, mas na boca dos fãs isso causou um imenso furor.

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                              Wolverine e Hércules

A sexualidade do Wolverine ao que parece é tão sagrada que torna-se perigoso projetar mundos possíveis em que ele tem outras inclinações. Isso em grande parte é em decorrência de um espelhamento: “se eu fosse o Wolverine eu matava mesmo, bebia mesmo e pegava a mulherada”… daí se ver beijando um homenzarrão como o Hércules causa um desconforto em toda a fantasia do fã em muitos casos. E talvez tenha sido isso com o novo Superman, “se eu fosse o Superman eu matava mais de mil!”

A outra defesa é que estamos em “novos tempos” e o personagem só acompanhou o fluxo das mudanças sociais e ideológicas. O que me parece algo ruim, já que pode ser um indicativo de que o mundo está mais propenso a matar seguindo essa evolução. Jor-el gastou saliva ao prometer alguém que inspire algo aos terráqueos, e o Jonathan Kent morreu por nada. Se eu tivesse os poderes do Super buscaria a solução mais fácil, no caso, quebrar o pescoço do Zod, mas o personagem não é só poderes, ser esse “certinho” que irrita grande parte das pessoas é parte do personagem.

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Bruce Wayne salvando uma garotinha durante a batalha dos kriptonianos em Metrópolis como indica o trailer.

Outra defesa é “ele não podia fazer nada na hora”, mil coisas poderiam ser feitas, mas o roteirista pensou no que ele próprio faria na hora, e não o que o Superman faria. Estava até mesmo nas mãos do roteirista culminar a cena até aquele ponto, forçar o herói a não ter escolhas.

Matando o vilão ele angariou simpatizantes de “até que enfim ele deu fim definitivo no vilão, eu faria o mesmo”, e nos levando ao “bandido bom é bandido morto”.

A nova proposta agradou muitas pessoas, algumas pela atmosfera densa sob a proposta de ser um filme adulto (e as pessoas, como eu disse em alguma postagem antiga, não querem parecer criança, então compram a ideia de quando algo é vendido como adulto, portanto acho um pouco desnecessário os envolvidos baterem tanto nessa tecla, o filme tem uma produção boa, sem precisar desse discurso). Eu gostei da escolha do Cavil para o papel,  também da construção do personagem e a criação através de sua família de sua constituição moral (e talvez seja por isso que eu me atentei ao ponto da morte do vilão, pois desconsiderou a parte que gostei do filme).

Seria a moral do Superman algo tão surreal que é uma das características a serem limadas dessa nova safra de filmes que se inclinam ao realismo? Não estou colocando aqui o novo Superman como um sanguinário maluco, não, ele até sofreu pelo que fez, mas mesmo assim achei um tanto estranho.

Em contraponto, na animação Superman vs Elite a trama se dá justamente sobre esse dilema. Um grupo novo de justiceiros, a Elite, surge em Metrópolis para contestar os métodos do Superman. Esses novos jovens poderosos utilizam-se de quaisquer meios para acabar com os vilões que assolam a cidade, e quando um desses bandidos é executado pela Elite a população aplaude. A questão de vida e morte é banalizada e nosso herói azulão assiste tudo isso impotente diante da aprovação popular.

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A Elite, uma alusão aos truculentos membros do Authority, um simbolismo da resistência do herói antiquado aos novos tempos.

Outro exemplo é o arco de histórias que também rendeu uma animação, Grandes Astros Superman, na qual próximo do fim da HQ Lex Luthor adquire os poderes do homem de aço. Para solucionar isso ele usa de sua esperteza (acreditem, não é só o Batman que é o esperto) e utiliza-se de um princípio da física para dar fim aos planos do vilão. Sem a morte do Luthor, devo acrescentar. Apesar de ter sido o Grant Morrison o autor disso, ele mesmo cometeu deslizes sob este mesmo aspecto ao fazer o bom moço Ciclope executar um mutante moribundo como comentei na postagem anterior. Morrison admite suas gafes da sua estadia nos New X-Men e depois disso pareceu buscar aquilo que sabe lidar bem, a valorização dos clássicos e o aproveitamento da Era de Ouro e Prata.

Meu medo é que o super-herói que deveria ser a inspiração tenha que levar uns sermões do homem-morcego sobre poderes e responsabilidades. As comparações com Jesus Cristo que rolavam subliminarmente durante o filme tornam-se soltas com o desfecho escolhido, considero particularmente erguer uma ilha de kriptonita muito mais sacrifício.

Sempre lembrando que estamos falando de um personagem fictício, “o que ele faria” é algo muito ligado ao roteirista, mas como vejo uma luta lascada em cima dos cânones eu começo a pensar que isso é algo seletivo. (seletivo como a aceitação do personagem Bane inglês nos filmes do Nolan). O personagem Constantine também foi alvo da luta de cânone quando surrupiou por umas cinco páginas os poderes do Shazam proferindo a palavra mágica e se tornando um “fantasiado” (ou uma versão capenga). Ainda que estivesse na temática, o universo mágico da DC, o evento foi repudiado por muitos. Esse fuzuê se deu quando a cena fora anunciada na internet (ah, a internet), mas quando a publicação chegou ao Brasil ninguém comentou nada, nesse caso, como eu já disse, é mais pelo fuzuê do que por cânone, o povo nem anda lendo gibi, lê previews (estou me tornando repetitivo).
Dentro disso, claro que podemos questionar as mortes de soldados inimigos em Vingadores durante a invasão do Aero Porta-aviões, mas tenhamos em mente a funcionalidade e a composição da equipe amparada por um órgão militarizado como a SHIELD. Howard Stark não nos prometeu um messias.

Por fim, pergunto: a quais leis o Superman responderia pela morte do General Zod, sendo ele o último filho de Krypton?
Uma vez que possui aparência igual a de terráqueos ele terá de responder por seu crime pelas leis terráqueas?
Nesse caso a aparência o torna um humano incluso no sistema de leis norte-americanas? A partir daí entraríamos em discussão do que é ser humano e isso pode até render uma futura postagem aqui.  =)
Meu ingresso eles terão nessa sequência, mas arriscaram bastante com fãs antigos do personagem que podem não se inclinar a ver o desenrolar dessa trama.

Agradeço ao meu amigo Paulo José Costa por ter me ajudado (ainda que indiretamente) a reunir argumentos para levantar essas questões aqui.
Talvez sejamos antiquados diante desse novo cenário.

About Idovino Cassol Jr.

É estudante de filosofia, Designer gráfico e desenhista.