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Sob ataque desde a véspera do Natal, indígenas de Guaíra pedem socorro

Com informações da Comissão Guarani Yvyrupa

Na noite da última quarta-feira (10), indígenas Avá-Guarani, do município de Guaíra, no Oeste do Paraná, foram atacados por homens armados. O crime ocorreu no início da noite quando eles se preparavam para realizar um ritual religioso. O ataque é o terceiro sofrido pelos indígenas que vivem no território Yvyju Avary, próxima ao Tekoha Y’Hovy e dentro dos limites da Terra Indígena (TI) Tekoha Guasu Guavira, eles já tinham sofrido agressões nos dias 23 e 24 de dezembro.

Este último ataque, segundo indígenas ouvidos pela reportagem, foi realizado por atiradores que esperavam os Guaranis escondidos em uma floresta da região. Quando os indígenas acenderam uma fogueira e deram início ao ritual religioso começaram a ouvir tiros. Três pessoas e um cachorro ficaram feridos.

Segundo os indígenas, a Polícia Federal e a Fundação Nacional do Índio (Funai) foram acionadas, mas chegaram ao local uma hora depois.

No dia 23 de dezembro aconteceu o primeiro ataque. Dezenas de homens armados invadiram a área ocupada pelos indígenas praticando hostilidades e soltando foguetes e rojões, desde a tarde até depois de anoitecer. Um drone não identificado sobrevoou a aldeia, e em Guaíra foram difundidas informações inverídicas sobre a área e incitando o ódio da população contra os indígenas, acusando-os de “invasores”.

A chegada da Polícia Federal dispersou o grupo, porém os agressores saíram do local prometendo retornar no dia seguinte pela manhã, o que veio de fato a ocorrer no domingo (24), véspera de Natal. Ao menos sete cápsulas de munição de arma de fogo foram identificadas pela Polícia Federal nas imediações da aldeia após o ataque. Na ocasião, ainda, os agentes alertaram a comunidade para não beberem água proveniente da caixa d’água, pois “provavelmente teria sido contaminada”, concretizando ameaças feitas pelo grupo que participou do ataque à comunidade.

Vídeos mostram indígenas feridos depois do ataque do dia 10/01

A Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), que é uma organização indígena que congrega coletivos do povo Guarani nas regiões Sul e Sudeste do Brasil na luta pela terra, revela que na aldeia Yvyju Avary a investida foi feita por um grupo de não indígenas, que avançou de forma violenta sobre a área na véspera de Natal. Durante o ataque, os indígenas conseguiram fugir e se esconder na mata, porém os barracos, pertences, e até mesmo os animais de estimação da comunidade foram cercados pelos invasores, que atearam fogo nos bens da comunidade e mataram os animais (depois de tortura-los), enquanto soltavam rojões e atiravam na direção dos indígenas. A comunidade denunciou o ocorrido em carta divulgada naquele mesmo dia (leia na íntegra, abaixo).

Conforme a Comissão, essa violência seria uma retaliação de produtores rurais e moradores da região frente às movimentações das comunidades avá guarani dentro dos limites da Terra Indígena. Os agressores acusam os indígenas de invadirem terras, mas segundo a Comissão as áreas ocupadas fazem parte da Terra Indígena.

Em vídeos publicados em redes sociais é possível ver momentos tensos dos ataques registrados pelos próprios indígenas, enquanto fugiam e se escondiam na mata. Em um deles pode-se ouvir disparos e gritos com ofensas e palavras de expulsão, quando um homem diz “Qualquer coisa, atira, pessoal”. Em outro, se veem os escombros e alimentos destruídos pelo fogo no acampamento incendiado ainda ardendo em brasa, ao som constante de estampidos de rojão e/ou tiros ao fundo.

Em nota, a CGY manifestou indignação e repúdio pelos ataques, e exigiu justiça às comunidades. O documento, divulgado hoje (25), destaca o clima hostil em que vivem os indígenas na região (acesse aqui para ler na íntegra a nota da CGY “Ataques a comunidades Ava Guarani na véspera de Natal, no oeste do Paraná”):

“É importante destacar o ódio com que o povo Avá-Guarani é tratado nas cidades de Guaíra e Terra Roxa, onde, mesmo estando em seu território, são acusados de ‘invasores’, com amparo em narrativas que procuram criminalizar as comunidades indígenas em luta pela terra, bem como em uma suposta garantia de impunidade da qual produtores e proprietários rurais se valem para usar da violência contra aqueles que tradicionalmente vivem nesse territorio” – diz trecho da nota da CGY.

A seguir, leia na íntegra a carta da comunidade da aldeia Yvyju Avary com a denúncia do ataque:

“Hoje no dia 24 de Dezembro de 2023 na área de retomada fomos surpreendidos por fazendeiros que eles vieram com armas de fogo e arma branca queimaram nossos barracos, alimentos, nossos pertences materiais e agrediram a nós e fez vários tiroteios em nossa direção trouxeram bombas caseiras e pegaram nossos animais cachorros e torturaram os animais antes de matar e depois enterraram-os com tratores e roubaram nossos dinheiros, celulares e queimaram nossos documentos e também queimaram nossas motos no valor de 8.000 reais cada um eles estavam com intenção nos matar pois todos estavam armados com arma de fogo. E o tiroteio durou quatro horas. Corremos muito perigo junto com crianças, adolescentes, adultos e idosos.”

Escalada de violência

A região oeste do Paraná é marcada pela violência extrema do conflito fundiário entre indígenas e produtores rurais, onde as comunidades resistem enfrentando ataques, assassinatos, sequestros e tortura já há décadas, além de preconceito e racismo cotidiano por parte da população não indígena e dos órgãos e serviços públicos.

Recentemente, os ânimos se acirraram na região após o julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) que afirmou a inconstitucionalidade da tese do marco temporal como parâmetro para a demarcação de Terras Indígenas.

A Comissão Guarani destaca que há tempos uma onda de violência e ataques contra lideranças da TI Tekoha Guasu Guavira foi provocada, principalmente durante os anos do governo Bolsonaro, depois de a Funai editar a Portaria Funai/Pres n° 418, em 2020, pretendendo declarar a nulidade do processo administrativo de identificação e delimitação da Terra Indígena, cujos estudos técnicos haviam sido aprovados pelo órgão. O documento foi revogado por ato da presidenta da Funai, Joenia Wapichana, restabelecendo a validade do Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação (RCID) aprovado pela Funai e publicado no Diário Oficial da União desde 2018. Entretanto, atualmente a Funai está impedida de seguir com o processo por força de uma decisão judicial dada em uma ação movida pelo município de Guaíra.

Aos apoiadores, as comunidades reforçam o pedido de apoio com doações para aquisição de alimentos e reposição dos pertences que foram destruídos.

Diante dos prejuízos causados com a destruição de pertences e alimentos, foi lançada uma campanha para arrecadar doações para aquisição de alimentos e reposição de pertences destruídos. “Ajude as famílias ava guarani da região oeste do Paraná“. Contribuições de qualquer valor são recebidas via PIX (082.373.199-58).

About José Pires

É Jornalista e editor do Parágrafo 2. Cobre temas ligados à luta indígena; meio ambiente; luta por moradia; realidade de imigrantes; educação; política e cultura. É assessor de imprensa do Sindicato dos Professores de Ensino Superior de Curitiba e Região Metropolitana - SINPES e como freelancer produz conteúdo para outros veículos de jornalismo independente.

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