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Se estivesse conosco em mais este dia dos professores, o que nos diria Paulo Freire sobre a virtualização do ensino?

Coluna Encantamentos Poéticos 

* Imagem Principal: Acampamento realizado pelos professores e professoras do Estado do Paraná em 2018, em resistência ao desmonte de direitos previdenciários da categoria. Foto – Camila Grassi. 

A primavera deste ano foi marcada pela celebração, no dia 19 de setembro, do papel social desempenhado pelas educadoras e pelos educadores populares no Brasil e no mundo. A data, que rememora a dimensão intrinsecamente política da formação humana e seu potencial para a garantia da soberania dos povos, tem uma dimensão singular no tempo presente: a defesa da universidade e da escola pública, tomadas como uma areia na engrenagem da globalização neoliberal do século XXI, como nos escreve Boaventura de Sousa Santos.

O poder do agir no mundo a partir da tomada de com-ciência confere à educação popular a possibilidade de produzir, a partir da formação humana, diferentes tipos de poder que se manifestam a partir da capacidade de pensar, agir, criar e de humanizar-se, de modo com que os indivíduos não vivam apenas como indivíduos, mas que possam construir trajetórias comprometidas com a sociedade da qual fazem parte. O poder que emana por meio da educação comprometida com o povo, mostra-se historicamente como ferramenta produtora de diferentes tipos de poder, como os poderes político, cultural, econômico, de cura física, mental e emocional, entre outras materializações na forma de viver com dignidade, condizentes com o poder popular.

Quando nos entendemos, nas palavras de Paulo Freire, como “seres inacabados”, tornamo-nos educadoras, educadores e cientistas capazes de comprometer-nos com o resgate e a produção de saberes e conhecimentos, com vistas à melhoria do bem viver. O legado vivo do conhecimento, conectado com a leitura da realidade, mobiliza os sujeitos, conecta limitações individuais com sua dimensão cultural e coletiva, favorecendo a conexão dos pares que caminham juntos e que nem sempre compreendem-se enquanto comuns. A educação popular, seja ela desenvolvida em espaços formais ou informais, abre espaço para a construção daquilo que pode vir a ser o mundo para nós no presente e no futuro e para aqueles que virão depois de nós. O legado que se deixa com o caminhar, é o que torna eterna a existência do ser humano. É o que confere ao ser humano, segundo Paulo Freire, a sua capacidade de transcendência. Somos, portanto, herdeiros dos que passaram e seremos a herança dos que vierem depois de nós. Daí a grande síntese clássica construída por Paulo Freire acerca da necessidade de uma educação voltada à emancipação humana: quando a educação não é libertadora, o desejo do oprimido será inevitavelmente tornar-se como o opressor.

Neste sentido, uma educação de fato popular, exige que nós educadoras/es não nos assemelhemos aos tiranos. A referência da tirania é deformador de toda a humanidade. É por meio da tirania, que se produzem subjetividades que se identificam com ela, através do exercício do poder autoritário. Quando se exerce a tirania, seja como educador, como gestor escolar ou como responsável de uma criança, retira-se dela a coragem necessária para que ela possa vir a colocar a própria essência no mundo. O medo da repressão não apenas embota a alma, o corpo e os sentidos, mas também tende a produzir novos tiranos, intolerantes à inerente diversidade humana, com personalidades estruturadas a partir do ímpeto colonizador de si e do outro, movidos pelo desejo de padronizar a vida. Podem tornar-se pessoas exigentes consigo e com os outros de modo ansiar por capacidades sobre-humanas, condizentes a uma perfeição destruidora da vida e de tudo aquilo que há de mais humano no ato de viver.

É pela potência criativa, criadora e humanizadora da educação popular, que, sob lógica da globalização neoliberal, toda a educação e a ciência comprometida com o interesse público e popular é tomada, pelas personalidades tirânicas como um risco a ser combatido. Eis que na liberdade acerca da soberania dos projetos pedagógicos locais existe o problema da diversidade, que, ao atender as necessidades e desejos dos atores localizados nas comunidades escolares, aparece, sob a lógica da padronização, como uma característica a ser eliminada de modo a retirar dela seu provedor de vida. O ato de ser um educador ou educadora popular não se limita portanto, a simples atuação na docência, mas na adoção de práticas e na seleção de conhecimentos capazes de empoderar os indivíduos, seja através do acesso a ciência que amplia a compreensão do mundo em que se vive, seja pelo encorajamento de banir tudo aquilo que não fortalece a vida, haja vista que emancipar, significa, tornar livre de opressão. Neste sentido, atuar na educação popular é atuar na construção real de uma educação que produz sujeitos capazes de realizar a “prática de liberdade”, como nos diria Paulo Freire.

CMEI localizado no município de Matinhos, litoral do Paraná. Foto: Camila Grassi.

Eis a complexidade de tornar-se uma educadora ou um educador popular: entender-se como ser inacabado e comprometido com a superação das históricas opressões naturalizadas de geração em geração

São tantos os rostos, nem sempre lembrados mas que marcam a história das lutas pela soberania política, cultural, alimentar, científica, medicinal e tecnológica dos povos. Os mártires não são poucos, mas muito de seus legados mantém-se vivos pelo processo educativo realizado pela educação popular de geração em geração.

 As/os educadoras/es populares são muitos e habitam muitos lugares, de diversos territórios. Estruturam suas práticas a partir de saberes diversos, possuem a capacidade de construir pontes onde antes havia apenas abismos entre o conhecimento científico, tradicional e a vida.  Seus rostos têm muitas coloridades, estão nas escolas autônomas de Rojava situadas no oriente médio, produzindo no cotidiano novos saberes e técnicas para uma educação democrática baseada no confederalismo democrático; numa vida pautada na ecologia social e; na emancipação das mulheres. Elas e eles estão nas escolas fundadas pelo Estado Plurinacional na Bolívia, ensinando os  povos originários com seu idiomas tradicionais, apossados da escola em sua dimensão pública, uma vez que compreendem que ela, enquanto catalisadora da formação humana dos povos de dado território, pode auxiliar no provimento de diferentes formas de poder, que contribuem para a construção de um povo forte, organizado e autônomo.  

São eles e elas aqueles que, a partir da conexão das comunidades locais, resgatam tecnologias já esquecidas na produção de alimentos, de cuidado dos animais e das pessoas, e assim produzem novos inventos voltados à promoção de uma vida melhor para tudo aquilo que tem vida. São aqueles e aquelas que atuam nas comunidades indígenas, sendo muitas vezes, parte delas, e compreendendo a necessidade de romper com a cultura antropocêntrica, entendem que nela consiste parte da cultura que destrói a natureza em sua diversidade.

São educadores e educadoras populares aqueles que encorajam seus pares já adoecidos pela precariedade do trabalho docente do século XXI, a continuar lutando por uma vida digna, livre e com potência de liberdade para se ensinar e se aprender. São aqueles e aquelas que produzem poemas como se construíssem flechas afiadas em forma de palavras, destinando-as a tocar o coração de seus companheiros com o desejo que mantenham-se vivos, mesmo num tempo em que a dor do presente produza o maior índice de suicídio docente da história da educação do Estado do Paraná.

São eles e elas que estão nas escolas itinerantes do MST e, sobre barracos de lona, alfabetizam crianças, jovens e adultos. São eles e elas, que com o legado de Paulo Freire e José Marti, formam novos educadores e educadoras, que abrem as novas gerações senti-pensantes e que produzem uma nova história e uma cultura de soberania para os povos do campo. São eles e elas, que mantêm-se vivos nos olhos sorridentes das crianças que participaram nesta semana do reforço escolar realizado pelo MOB-PR e que ali aprenderam a ler brincando e encantando-se pela beleza da arte e da vida, ganhando mais vida. Eles são muitos, estão nos rostos jovens e maduros que caminham nas comunidades mais remotas e por meio de uma boa prosa, aprendem com o povo, porque são eles mesmos, o povo.

É pelo poder da reafirmação do legado das educadoras e dos educadores populares, que os movimentos sociais da América Latina convencionaram celebrá-lo, tendo como marco de referência, o nascimento de Paulo Freire, que neste ano marcaria 99 primaveras de sua existência no dia 19 de setembro. O patrono da educação brasileira sendo também o pedagogo mais lido do mundo, foi tomado por organizações de extrema direita no momento histórico mais recente, como um “perigoso doutrinador”, haja vista que o papel do diálogo como base central de seu legado teórico e prático é uma real ameaça a tirania.

A desconstrução da dimensão intelectual e dialógica inerente ao ofício docente tem servido como óleo na engrenagem do projeto neoliberal de educação defendido por entidades privadas, boa parte delas, organizadas sob entidades do terceiro setor filantrocapitalista. A disputa sobre a concepção da docência enquanto acessória, ou como chamam os institutos privados, de “tutoria” educacional, tensiona por tornar o professor da escola pública como um mero assistente da máquina. Defendem ainda, que as plataformas virtuais produzidas com software de inteligência virtual, “otimizam” a atividade formativa, haja vista que por serem padronizadas, podem produzir, assim como nos modelos industriais, um produto também padronizado. Toma-se então o ser humano enquanto coisa/produto. Retira-lhe assim, sua compreensão enquanto humanidade.

Tal projeto de docência,  ganhou força a partir do ensino remoto, realizado em caráter de provisoriedade devido ao contexto de pandemia de COVID-19.  É neste contexto que a venda de produtos educacionais enquanto uma das tipificações da privatização educacional, vem ganhando força, necessitado contudo de coleta de dados para que possa aperfeiçoar-se, e assim, poder ganhar o grande mercado da educação pública brasileira. 

Neste modelo, a palavra tecida através do diálogo e a pergunta como movedor dos processos de problematização da realidade são então secundarizados. A educação bancária de concepção tecnicista tão criticada por Paulo Freire, ganha agora uma nova roupagem. Ela é informacional, pauta-se pelo máximo controle possível do que se ensina, pretende, especialmente para as juventudes que passam pelo ensino médio, torná-la, pelo menos em parte, uma educação sem presença, sem diálogo, sem conexão do conhecimento com a vida e por fim, sem professor.

Mas o que nos diria Paulo Freire sobre a dita “nova educação” defendida pelas entidades privadas financiadas pelo capital financeiro, que investem na privatização educacional como um investimento de capital de risco? O que nos diria Paulo Freire sobre uma educação sem docência? Sem diálogo? Sem presença e sem conexão real entre os sujeitos que participam da educação? O que diria Paulo Freire se vivesse conosco nesse tempo e pudesse olhar nos olhos de nossos companheiros educadores adoecidos pela cruel realidade que se apresenta? Qual o conselho que ele nos daria? Possivelmente nos diria para que lutássemos juntos e juntas, e fizéssemos em união, de forma organizada, nossas denúncias e anúncios.  

Neste cenário, tanto a pedagogia libertadora (de origem freiriana) como a pedagogia libertária (de origem anarquista) e outras matrizes pedagógicas de base popular, precisam e merecem ser retomadas enquanto legado histórico de compromisso com a educação popular. É para elas que precisamos olhar no presente e é delas que precisamos selecionar os elementos de nossa prática educacional, tanto em suas dimensões técnico-pedagógicas quanto científico-filosóficas. Sua retomada diz respeito ao uso de ferramentas teórico-práticas do fazer pedagógico que conferem à educação como uma forma de intervenção no mundo.

Obra “A produtividade da escola improdutiva” de Gaudêncio Frigotto. Foto: Camila Grassi.

A disputa educacional do presente é portanto uma disputa de base cultural, que reverberará em termos políticos, econômicos, sociais e ecológicos irreversíveis caso não a enfrentemos com uma proposta de educação de fato popular, científica e comprometida com a garantia de direitos dos seres humanos e da natureza.

A coisificação da formação humana, da docência, da discência e do ensino, são contudo, apenas um dos desdobramentos do feitiço capitalista que coisifica todas as dimensões da vida, tornando-as mercadorias. Ela delineia o contexto de ruína do capitalismo presente no século XXI, sob o qual a adoção da padronização como forma de controle, tem no avanço da tecnologia, seu mais importante aliado. A busca pela construção de métodos de ensino unitários para orientar o fazer pedagógico, esconde em si, o princípio de colonização da vida.  

Para fechar a reflexão aqui tecida, rememoro um dos fragmentos preciosos da obra Pedagogia do Oprimido (2014), em que Paulo Freire, ao opor-se à lógica de objetificação do humano, aponta para a necessidade de luta pela liberdade individual e coletiva, a qual, também perpassa pela liberdade de ensinar e de aprender, inerente aos seres humanos e necessária para a construção de uma vida digna e melhor. Eis a dimensão primeira da luta pela educação popular:

É que esta luta não se justifica apenas em que passem a ter liberdade para comer, mas “liberdade para criar e construir, para admirar e aventurar-se”. Tal liberdade requer que o indivíduo seja ativo e responsável, não um escravo nem uma peça bem-alimentada da máquina. Não basta que os homens não sejam escravos; se as condições sociais fomentam a existência de autômatos, o resultado não é o amor à vida, mas o amor à morte. Os oprimidos que se “formam” no amor à morte, que caracteriza o clima da opressão, devem encontrar, na sua luta, o caminho do amor à vida, que não está apenas no comer mais, se bem que o implique também e dele não possa prescindir.

É como homens que os oprimidos têm que lutar e não como “coisas”. É precisamente reduzidos a quase “coisas”, na relação de opressão que estão, que se encontram destruídos. Para reconstruir-se é importante que ultrapassem o estado de quase “coisas”. (FREIRE, 2014, p. 76).

 Que possamos lutar enquanto humanos, não assemelhando-se, portanto, aos tiranos que desejam produzir seu projeto educacional e de sociedade sobre a prática do autoritarismo. A saída é pois democratizar, horizontalizar, carregar de modo vívido as memórias mais antigas que desejam apagar de nossa história enquanto classe educadora. Temos história, temos ferramentas e se tivermos uns aos outros, teremos poder. É este o poder que os tiranos temem, o poder que temos de intervir no mundo de modo consciente. De produzir novas racionalidades co-produtoras de vida e de saúde individual e coletiva, de unidos, garantir os direitos que perseveram a vida. De, pelo acesso à ciência conectada com a vida, desenvolver nossas mentes, nossos corpos, nosso coração e nossas relações, fazendo no presente cotidiano, aquilo que de desejamos! 

 

About Camila Grassi

Camila Grassi Mendes de Faria é cientista, pedagoga e educadora popular. Encontra na poética um veículo particular de fruição das experiências senti-pensadas que advém do cotidiano e dos acúmulos de seu ofício profissional.