Home » colunistas » Astronauta de Mármore do Nenhum de Nós é uma canção de resiliência

Astronauta de Mármore do Nenhum de Nós é uma canção de resiliência

Compor música trata-se de um trabalho artesanal e de muito cuidado envolvendo emoções, intuição, procrastinação, papéis rabiscados e rasgados, para um resultado nem sempre satisfatório, que por vezes vai para a gaveta dos incompletos e inconsistentes ou para o limbo das gravações no celular. A música Astronauta de Mármore que alavancou a carreira da banda Nenhum de Nós, depois do hit Camila Camila, pode ser um exemplo disso. No entanto, ao escutar por algumas vezes a letra o tema recorrente, a solidão e o uso de narcóticos, chama a atenção.

A canção composta em 1989, uma versão à brasileira de Starman de David Bowie, faz várias referências à obra irretocável de Bowie e, também, ao uso de substâncias psicoativas. A solidão e o consumo de narcóticos como fuga estão presentes na canção, não de forma explicita e clara, pois, usar a droga nos anos 80 era ser descolado, fazer parte da elite, pois não tem o cheiro incomodo da maconha e a sensação letárgica de amortecimento e, consequentemente, euforia, atraía os usuários.

Mas, seguida também de paranoias, crises de ansiedade, dores estomacais, alucinações, ataques de raiva, isolamento social e familiar, em resumo, só coisa boa. As experimentações foram muitas na década de 80 e era, ou, é comum aos artistas comporem sobre o efeito ou falarem por meio de analogias sobre suas experiências metafísicas. Mas, vamos ao que interessa.

Os primeiros versos de Astronauta de Mármore “A lua inteira agora é uma manto negro/O fim das vozes no meu rádio/São quatro ciclos/No escuro deserto céu”. O autor se refere ao entardecer e do movimento da noite adentrando a madrugada com “o fim das vozes do meu rádio” quando às estações não tem mais programador e as músicas tocam continuamente sem interrupções. “São quatro ciclos, no escuro deserto do céu” referenciando-se as quatro fases da lua e ao céu escuro, num infinito sem estrelas remetendo a solidão.

No verso seguinte “Quero um machado/Pra quebrar o Gelo/Quero acordar/Do sonho agora mesmo/Quero uma chance pra viver sem dor”. Claramente o gélido constrói a solidão no sentimento violento de culpa, pesadelo, em que a realidade apresenta-se como um sonho ruim e o pedido de por uma nova chance para viver sem dor, o dia seguinte e a ressaca moral que nunca se esquece de bater a porta pelas perdas materiais, familiares, sentimentais ou físicas.

O refrão “Sempre estar lá/E ver ele voltar/Não era mais o mesmo/Mas estava em seu lugar/Sempre estar lá/E ver ele voltar/O tolo teme a noite/Como a noite/Vai temer o fogo/Vou chorar sem medo/Vou lembrar do tempo/De onde eu via o mundo azul”. O autor acometido dos males do uso idealiza o amanhecer como um grito de liberdade ou até mesmo nostalgia do passado contra as vozes silenciosas e vultos que vem com a noite, novamente, referenciando a solidão e o lado escuro do ser humano. É o começo de uma tentativa de resiliência. “Vou chorar sem medo/Vou lembrar do tempo/ De onde via o mundo azul”, o afastamento do dia, da luz, em que recolher-se no escuro da noite traria conforto, no entanto, lhe trouxe dor e saudade do tempo repleto de cores no presente ausente de felicidade.

As duas estrofes seguintes deixam claro o nome da música por alusão ao universo e ao céu como uma grande pedra escura de mármore, granito usado comumente para o consumo do narcótico derivado da folha de coca. No entanto, a dicotomia entre os lados opostos, o escuro e o claro, coexistem no ser como uma briga contínua, a ambivalência, por ora, aceita o vício, por outra o justifica como legítimo. “A trajetória/Escapa o risco nu/As nuvens queimam o céu/Nariz azul/Desculpe estranho/Eu voltei mais puro do céu/A lua o lado escuro/É sempre igual/No espaço a solidão/É tão normal/Desculpe estranho/Eu voltei mais puro do céu”.

Contudo, voltar mais puro do céu passa a ideia do divino, elevar-se a outro patamar em que o “Desculpe estranho eu voltei mais puro do céu” é não reconhecer a vida que deixou para trás, divagando sobre a letra, é como se alguém oferecesse novamente o narcótico, porém, a sua alma não habita mais aquele mundo.

Liberdade é poder viver sem dor e contemplar o mundo azul consciente das escolhas com pouco ou nenhum arrependimento. As canções falam das experiências próprias, sofrimentos, das agruras, servem para ajudar e refletir sobre as dores, uma vida insossa não vale de nada, porém uma vida de arrependimentos não vale ser vivida.

Às vezes o vício vem como uma onda de divertimento, com a perda de um ente querido, de amigos que ficaram pelo caminho e mudar vem pelo abandono de coisas preciosas como alguém que você ama, família, amigos e como nosso celular fica vazio de mensagens, o divertimento efêmero vira um buraco de pessoas estranhas, carniceiras, às vezes… por vezes, vejo como famílias são separadas por tais problemas. Mas, desculpe estranho eu voltei mais puro do céu e quero uma chance pra viver sem dor, sempre estar lá e ver ele voltar.

About Mario Luiz Costa Junior

Jornalista e Músico, integrante colaborador do Parágrafo 2. Cronista urbano e repórter de cultura e sociedade, tem como referência os textos literários e jornalísticos de Gabriel Garcia Márquez e Nelson Rodrigues, da lírica de Cartola e da confluência de outras artes, como o cinema, no retrato do cotidiano no enfoque da notícia. Acredita que viver é um ato resiliente no caminho de pedra para a luz.