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A vacina que chegou e a foto ostentação que não tirei

        

Foto Divulgação – Crédito AFP

Na hora da vacina tomado pela adrenalina e pelas sensações, emoções e sentimentos diversos que permeavam a Praça Ouvidor Pardinho esqueci de puxar o celular para tirar aquela foto ostentação, desculpe.  Me perdi observando o clima do ambiente, ou, mesmo, por não desejar quebrar este, rodeado por lágrimas, sorrisos, abraços fortes, alegria e êxtase. Por fim, foram dois anos de incertezas para todos neste planeta e em especial nós brasileiros neste pesadelo de governo, trem desenfreado descendo a ladeira, algumas mil pessoas que não deveriam ser esquecidas jamais e outras que ainda encaram este sofrimento nos hospitais sejam pacientes de Covid19 ou os bravos trabalhadores da saúde. Mas, calma, neste texto vamos falar de coisas boas ou pelo menos vou tentar.

Tomar a vacina foi simples acordei às 07h00, mentira às 03h00 da manhã, dormi sem remédios e ainda de madrugada perdi o sono. Aproveitei para remoer alguns sentimentos, ter certeza de decisões e encontrar no baú da minha cabeça enevoada algumas memórias sobre agulhas e eu. O medo de agulhas começou quando estava com as vacinas atrasadas o pessoal do postinho passou na minha casa e disse “Dona Antônia o seu filho Mário Jr. precisa comparecer ao posto de saúde se possível, hoje”. Nem falaram o porquê, óbvio teria fugido, dado migué, saído de fininho para jogar bola ou qualquer outra desculpa. Era cedo e lá fomos mamãe, eu, minha destemida coragem e meu traseiro. Foram três vacinas ao todo e uma Tríplice Viral que dá seis picadas amigáveis na bunda, a enfermeira ao invés de dizer serão seis fez questão de dizer que após cada picada que a vacina não pegou até o final do suplício. Resultado, não consegui andar e minha mãe teve que me carregar até em casa.

“Minha mãe, Dona Antônia, evangélica, com o tempo desenvolveu técnicas para dar-me coragem como o copo d’água abençoado ao lado da TV pelo pastor.  Não sei, mas por algum motivo funcionava. Confesso que as formas dela me encorajar, dar conforto, acolhimento, sempre foram inusitadas, no entanto, nunca falharam, saudades minha velha que me dava a mão nestes momentos de sofrimento.”

Rolando na cama enquanto o sono não vem, perdido em pensamentos, recordo outro episódio de quando era criança morávamos na Simão Bolívar, próximo ao Couto Pereira, fui tirar sangue no Hospital das Clínicas não lembro o motivo e quando a enfermeira apontou puxei o braço e a agulha quase quebrou fez um salseiro de sangue na cadeira, na segunda ela solicitou que outra profissional e minha mãe me segurasse, Paulinho meu irmão deu risada. Minha cunhada, esposa do risonho, estes dias contou-me disse que o Pedro foi tirar sangue e meu irmão recordou do ocorrido comigo disse que ele olhou com cara de mau para a moça que ficou com medo, detalhe Pedro tem apenas 7 anos.         

Voltando ao momento derradeiro levantei, finalmente, às 07h00, banheiro, desodorante, roupa, pus apenas uma camiseta por baixo da blusa para ficar fácil na hora, fiz uma batida de abacate e logo fui, acredito que se desse para postergar o teria feito. Documentos carteira de identidade, carteira de vacinação, comprovante de residência, putz! tive que deletar o Tinder para colocar o Saúde Já. Foi por um bom motivo. 07h32, peguei o Cabral/Pinheirinho na Praça do Café do Estudante, próximo ao Teatro Guaíra, até me esperou neste calvário e caminho sem volta que gentil.

Na praça Ouvidor Pardinho havia uma pequena fila que logo começou a andar, mas rápido do que previa e a cada passo sentia um desconforto estomacal, vou ter que ir ao banheiro, postergar mais alguns segundos, mas infelizmente os vermes do meu estômago se acalmaram dando-me sossego neste momento derradeiro, veio uma tiazinha com uma prancheta “preencha seus dados, documentos em mãos” firmeza, entrei no barracão branco, após a espera de 01h20 mais ou menos, com as mãos suadas, tinha cadeiras para sentar e as pessoas eram chamadas pelo nome, resolvi sentar porque sentar demora mais. Foi bonito de ver as pessoas sendo vacinadas uma garota após a vacina chorou, outra mulher abraçou o seu bebê fortemente, outras saiam sorrindo, nunca vi tanta humanidade num espaço tão pequeno.

 Me chamaram “Mário Luiz….” fui no guichê errado “não é aqui moço”, outra pessoa me chama “pode sentar ali deixa suas coisas na cadeira”, durou segundos e lá estava eu imunizado com a primeira dose da vacina, glória. Deu vontade de sair dali e ir para a zona e voltar só no outro dia, porém lembrando que era apenas a primeira dose, deve-se manter os cuidados, distanciamento, enfim, vim para o trabalho. Vida que segue até dia 15/10.

É faltou a foto, mas nem tanto.    

About Mario Luiz Costa Junior

Jornalista e Músico, integrante colaborador do Parágrafo 2. Cronista urbano e repórter de cultura e sociedade, tem como referência os textos literários e jornalísticos de Gabriel Garcia Márquez e Nelson Rodrigues, da lírica de Cartola e da confluência de outras artes, como o cinema, no retrato do cotidiano no enfoque da notícia. Acredita que viver é um ato resiliente no caminho de pedra para a luz.

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