Home » ambiental » A miséria das classes médias: uma reflexão a partir das desigualdades sociais brasileiras e da luta contra o fascismo

A miséria das classes médias: uma reflexão a partir das desigualdades sociais brasileiras e da luta contra o fascismo

Coluna Pão e Pedras: Amenidades e Poesia

Fotos: MST

Há muito tempo tenho pensado no papel da classe média diante da grave crise em que vivemos. Há uma contradição nesta classe, que luta para se distanciar dos mais pobres e que não consegue, nunca, se colocar plenamente como sujeitos de direito. Recentemente, em uma conversa com amigos, alguns deles me relataram como a população brasileira não assiste mais televisão, mas que se informa pela internet e assiste séries em plataforma de streaming. Já ouvi essa mesma argumentação em diversas rodas de conversa com pessoas que se consideram progressistas como uma possível explicação para a ascensão fascista que aparece diante de nós. São os mesmos que reclamam do isolamento, não aguentam mais assistir lives  – que vão desde Caetano Veloso aos debates acadêmicos mais complexos promovidos pelas universidades. A classe média é, sobretudo, uma classe autocentrada e, por isso, não consegue ver com clareza a realidade que se põe diante de si.

Vivemos em um país de desigualdades abissais, intensificadas em tempos de pandemia. Segundo o relatório A Distância que nos une: um retrato das desigualdades brasileiras, produzido pela Oxfam em 2017, se você possui uma renda superior a RS 4509,72, você já está entre os 10% mais ricos do país. Ao pensar mudanças sociais a partir de si, a classe média ignora 70% das famílias brasileiras que vivem com rendimentos inferiores a R$ 961,32 e que, por viver contando centavos para a sobrevivência, não pode custear internet estável ou serviços de streaming para se informar. Não à toa, o meio mais popular de difusão de informações segundo o IBOPE é, ainda hoje, o rádio, que consegue chegar dos carros no trânsito às pessoas em situação de rua e nas favelas mais distantes do Brasil atingindo 83% dos brasileiros. Agora ligue seu aparelho de rádio e dê um giro nas estações. Quantos programas policiais de exaltação à violência e programas religiosos você encontra? Entendeu a dimensão do problema que estamos lidando? Daí que para entender de maneira mais profunda a questão, vamos observar dois fatos recentes, e problematizar as posições da classe média em relação a estes mesmos fatos.

10 toneladas de alimentos já foram doadas pelo MST durante a pandemia

Desde o começo da pandemia, devido ao quadro de intensificação da fome e da miséria vivido por milhões de famílias brasileiras que viram seu padrão de vida cair repentinamente, o Movimento dos trabalhadores rurais Sem Terra (MST) preparou e distribuiu mais de 10 toneladas de alimentos orgânicos e agroecológicos para a população em situação de rua e nas favelas das cidades brasileiras. Em Curitiba, por exemplo, às quartas-feiras são entregues mil marmitas na região central (também para os entregadores de aplicativos) e cestas básicas em regiões do CIC, como as ocupações Tiradentes e Nova Primavera. São, no geral, camponeses pobres e voluntários provenientes das classes mais baixas aqueles que mais se engajam nestas ações de solidariedade.

No entanto, esta semana, sob um consentimento mudo do governador Romeu Zema (Novo), a Polícia Militar de Minas Gerais jogou na Rua 450 famílias que viviam há 15 anos no acampamento Quilombo Grande, no município de Campo do meio-MG e, sob intensa violência, derrubou a escola da comunidade, queimou plantações, agrediu e feriu homens, mulheres, crianças e idosos, em uma ação orquestrada de violência estatal que durou mais de 50 horas. Há relatos, por parte dos acampados, de crianças desaparecidas. Qual o sentido de expropriar famílias de uma terra, com usucapião mais que provado, de onde saíram grande parte das doações de alimentos que o MST realizou neste período de quarentena em benefício de um estelionatário, com dívidas com a união que superam 400 milhões de reais? Se está na dúvida, busque no Jusbrasil pelos 58 processos judiciais de Jovane de Souza Moreira[1], que foi mandante da reintegração de posse.

Agora, analisemos o papel da classe média diante disso. Observamos nas cidades brasileiras um isolamento estratégico dos mais pobres, uma geopolítica territorial de alienação do pobre em relação ao urbano. Ao inserir-se na divisão do trabalho capitalista, o trabalhador urbano aliena-se de sua própria condição de trabalhador, o que é visível no recente discurso do “empreendedor individual” tão difundido no projeto neoliberal para a América Latina, e que se expressa diretamente em uma maior aceitação da terceirização do trabalho, na perda de direitos trabalhistas, no trabalho via aplicativo, no poder de consumo e na crescente violência no campo e na cidade envolvendo a cada dia mais grupos militares organizados pelo Estado.

Lembremos que para o Brasil, segundo a PNAD do terceiro trimestre de 2019 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 20,84% do orçamento familiar médio é gasto com transporte; 18,99% com alimentação; e 15,16% com habitação.

A classe média, que se insere nos estamentos superiores de consumo mediante o acesso ao crédito, desenvolve uma sensação de inclusão nos níveis político e econômico recheada pela confusão entre direito e privilégio presentes nesta fração da classe trabalhadora. A sensação de pertencimento a estes estamentos é comprometida a cada agravamento da crise capitalista, e com isso vem a sensação de insegurança em relação à realização da vida cotidiana (pagar aluguel, contas, consumo de bens, etc.). Lembremos que para o Brasil, segundo a PNAD do terceiro trimestre de 2019 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 20,84% do orçamento familiar médio é gasto com transporte; 18,99% com alimentação; e 15,16% com habitação. O primeiro impulso desta classe em momentos de intensificação da crise capitalista é o da defesa de seus interesses individuais e de seu conforto material. Os mais pobres são vistos como a causa dos problemas sociais que se agravam com a crise, já que são vistos como concorrentes pela decrescente riqueza social, enquanto acionistas, especuladores e banqueiros são poupados sobre seu papel no estado crítico.

                Reforçando e potencializando novas e velhas centralidades, no campo e na cidade, estamos, simultaneamente, reforçando a periferia que surge em relação a estes mesmos centros. Centro e periferia são causa e consequência de si mesmos. Em uma sociedade onde o tempo da vida cotidiana é regido pelo tempo de reprodução do capital, a única forma possível de realizar os movimentos de capital fictício cada vez mais intensos e lucrativos – vide o recente crescimento dos lucros no setor financeiro e rentista – é a violência. Só ela é capaz de dar a imediaticidade necessária à realização desta economia das crises, invocando um estado de exceção permanente. Nas palavras de Henri Lefebvre “guerra e paz mal distinguíveis de um lado, e, de outro, violência perpétua, reprimida e generalizada, contida e utilizada.” (Lefebvre, 2009 p. 147)[2]. A violência nas favelas, nos campos, nas ruas, a repressão policial, a censura, o ataque aos direitos, a miséria em todas as suas faces são as expressões espaciais da economia neoliberal no cotidiano. Vivemos um período de catástrofes.

                O que vemos na classe média dita progressista é a inação, a incapacidade de agir pelo outro com verdadeira solidariedade por estar confortavelmente anestesiada com suas questões individuais durante a quarentena, como a perda do padrão de consumo e as reviravoltas políticas irradiadas desde Brasília. Mas o que têm feito efetivamente para provocar uma mudança deste quadro? Muito pouco, quase nada. Enquanto classe média, assistimos os direitos sociais sendo corroídos, à espera de algo ou alguém que apareça para nos salvar deste grande pandemônio e reclamando que “a esquerda” ou “os movimentos” não estão fazendo nada. Os camponeses do Quilombo grande, que resistiram no limite de suas forças mostram que a resistência dos mais pobres é cotidiana, a custo de sangue, já que estes não podem escolher estar alheios à realidade, que entra a pontapés em suas casas, atirando e matando e virando pequenas notas de rodapé nos veículos grande mídia. Bolsonaro não é o principal problema de nosso país, é a pobreza.

É necessária, na classe média, uma consciência que os mais pobres já têm, de olhar na dor do outro a dor de si, de colocar-se em movimento junto à realidade na tentativa de compreender e transformá-la, de saber a importância do momento presente e do tempo lento[3]. A potência desta descoberta é que ela tende a colocar no mesmo ambiente de luta as classes médias e os mais pobres, trazendo um salto de consciência política quando “o consumidor assume o papel de cidadão”[4], ou seja, a inserção no nível político e econômico não se dá mais por meio do consumo, mas por meio da luta por transformação social. “Não importa que este movimento de tomada de consciência não seja geral, nem igual para todas as pessoas. O importante é que se instale”[5].

[1] https://www.jusbrasil.com.br/processos/nome/29071286/jovane-de-souza-moreira

[2] LEFEBVRE, Henri. Da Teoria das Crises à Teoria das Catastrofes. GEOUSP – Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 25, pp. 138 – 152, 2009. p. 147.

[3] SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço. Edusp. São Paulo. 2012

[4] SANTOS, Milton. Por uma outra Globalização: do pensamento único à consciência universal. Record. São Paulo. 2001. P. 139.

[5] Op. Cit. P. 139.

About Kauê Avanzi

Kauê Avanzi é doutorando em Geografia pela FFLCH-USP, educador no Ensino Básico, poeta e músico. Gosta de escrever, se divertir e confraternizar.