Por Mário Costa

A polêmica ou “produto” do momento é a cantora Pabllo Vittar. Com músicas como K.O, Corpo Sensual, Na sua cara e Paraíso, com participações de Anitta e Lucas Lucco, Pablo toca incessantemente nas rádios populares e na televisão aberta. Esteve em programas televisivos como o da Eliana, na Hora do Faro e no Domingão do Faustão. Ganhou a premiação Os Melhores do ano 2017 na categoria música do ano para “K.O”.

Mesmo diante de tanto sucesso, se você não consegue escutar nenhuma canção desta artista até o final, siga os conselhos do maluco beleza Raul “é só mudar a estação, é só girar o botão”.

Pabllo Vittar pinça uma coisinha ou outra dos estilos musicais, indo até o chão com sua bota de vinil acima do joelho, nas cores berrantes e na atitude diva de Beyoncé e Rihanna. Faz as pessoas passarem mal e dá bem na sua cara, causa o furor dos críticos haters de plantão que desferem comentários além da razão humana e afiadas farpas contra a cantora a cada nova notícia ou post. É um incomodo para a sociedade e os arrotos das redes, hostilizado pelo timbre da sua voz, afinação e, o pior de tudo, principalmente, porque representa uma questão de gênero, que não é mais possível empurrar para debaixo do tapete. O problema da Drag Queen mais comentada das redes sociais seja por admiração ou ojeriza é que vende, e vende muito.

Como produto é uma mistura rala de androgenia e do Glam Rock (Glitter Rock) dos anos 80 de Boy George, New Order, Scissor Sisters e dos 90 de Marilyn Manson o estranhamento, o bizarro ou incomum. Traz elementos do forró, axé e, inclusive, de David Bowie na fase de Ziggy Stardust a qual o músico não definia sexo para a sua persona inspirada no cantor Vince Taylor. Bowie travestido de um alienígena bissexual abordava temas como política, drogas e orientação sexual. Pabllo, talvez, um tanto longe ser a construção complexa da persona de Bowie, no ínfimo da sua essência não está nada longe do que já vimos pelo mundo da música.

O exemplo, da cantora Drag Queen austríaca Conchita Wurst ganhadora do Festival Eurovisão 2014 com reprovação de parte do público alegando que se ela ganhasse o festival seria “um celeiro de sadomia”, uma página no Facebook contra a premiação recebeu 31.000 curtidas antes do anúncio da vencedora, mas ela ganhou com música Rise Like a Phoenix.

Não tem nada a ver com música ou jeito de cantar é outra coisa, entende?  Walking in the ruble/Walking over glass/Neighbors say we’re trouble, ou seja, “Caminhando sobre pedras/Caminhando sobre o vidro/Os vizinhos dizem que somos um problema”, (Conchita Wurst – Rise Like a Phoenix).

O fato de  Pabllo Vittar ter talento ou não para tal formação acadêmica de músico afinado dentro dos padrões pouco importa, as pessoas querem apenas dançar muitas vezes, viver sem regras por algum momento ou serem representados, mesmo que de uma forma cruel, cheio de sentimentos e ideologia, no final seja apenas um produto. Esta discussão ao redor da cantora gera cartaz e, pelo sim e pelo não, uma bela promoção. Vittar irá tocar a exaustão no carnaval nos blocos, nas ruas, nos meios de comunicação e depois como toda e qualquer onda perderá força e caiará no esquecimento.

Numa festa nostálgica como casamento, aniversário, reuniões de turma de pessoas que conhecemos de forma rasa e acompanhamos distantes pelas redes sociais, as músicas de Pabllo dentre outros hits descartáveis do verão serão lembradas com saudade. Desse tempo estranho, insosso e a flor da pele, divididos por uma ideologia mesquinha em que Jair Bolsonaro pode ser presidente do Brasil e que a culpa pro nosso descaso e ignorância política de décadas subsequentes seja a traição e o roubo do nosso coração por Lula e o PT. Mas, se cantará na Boquinha da Garrafa, todos os pagodes existentes, Vai Malandra, Que tiro foi esse?  e K.O “O seu amor me pegou/Cê bateu forte com o seu amor/Nocauteou” (Pabllo Vittar – K.O).

O mercado aponta para os ciclos de consumo do Axé, Pagode, Forró, Techno Brega, Sertanejo e se molda ao momento, suga e exaure o estilo até fartar o público do fast food musical, gorduroso, sem proteínas e artificial, mas uma delícia pra quem não tem interesse em roer uma carne de segunda. “Eu não espero o carnaval pra ser vadia/Eu sou todo dia” (Rico Dalasam e Pablo Vittar – Todo Dia). A música como qualquer outra arte também é um produto de consumo. Pode ser moldado numa caixinha e produzido em escala industrial e colocado à venda e quanto mais bizarro, estranho, polêmico, incômodo, simples e grudento, melhor.

Entretanto, Pabllo Vittar e JoJo Todynho, MC Livinho, Anitta, Lucas Lucco representam também o termo cunhado por Zygmunt Bauman a “Modernidade Líquida” na efemeridade das relações de canções sem profundidade, simplista, um refrão duas estrofes repetidas, batida tamborzão, letras sexualizadas, duplo sentido, sobre amor, balada e cotidiano, contra a família tradicional conservadora patriarcal e fim. Uma repetição confortável pra quem não deseja aprofundar em questões harmônicas e estéticas, um banho de bacia no mar.

Esta discussão ao redor da cantora gera cartaz e, pelo sim e pelo não, uma bela promoção. Vittar irá tocar a exaustão no carnaval nos blocos, nas ruas, nos meios de comunicação e depois como toda e qualquer onda perderá força e caiará no esquecimento.

A música não regrediu dos anos 80 para cá ou bem antes disto quem quiser escutar Vittar escuta, aproveita e procura Rico Dalasam, Johnny Hooker, Liniker e os Caramelows, as Bahias e a Cozinha Mineira são novos artistas nesta praia masculino/feminino, Drag Queen, fazendo um som transgressor representando a sua tribo, cantando o seu mundo e se aceitando no gênero, musical e sexual, que bem entendem, livres. Ou, melhor, nas palavras de Clarice Linspector “E se me achar esquisita respeite também, até eu fui obrigada a me respeitar”.

Mas, ainda há uma safra de expoentes artistas como Emicida, Céu, Castello Branco, Tim Bernandes, Rubel, Cicero, Tulipa Ruiz, Criolo, Nação Zumbi, Franscisco El hombre, Tuyo, e os clássicos que você pode ouvir no Deezer, Spotify, Youtube e ainda comprar os discos como Chico Buarque, Cartola, Tom Jobim e ainda pode ser anarquista em toda a loucura e sanidade igual ao Raul Seixas “mude a estação, gire o botão”.

Gosto musical é uma questão cultural, de gênero, social na construção da identidade na educação formal e acadêmica, nos círculos que se participa e transita, do poder financeiro e econômico ou na falta dele, no requinte estético, no bizarro, agressivo e gritante. Reflete diretamente a sociedade na qual esta inserida as questões sociais, a ignorância e a barbárie de um povo, a fé ou a descrença, a efemeridade do carnaval ou a eternidade do amor, e, principalmente no caso, de Pabllo Vittar, o preconceito. As relações mudam a música muda e você está esperando o quê? O homem olhando para o espaço e os alienígenas bem do nosso lado.

 

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