Coluna Pão e Pedras: Amenidades e Poesia

Há cerca de um ano, a primavera sacudiu o Brasil, questionando o sistema escolar a ser implantado a partir das PEC’s que visavam implantar o novo Ensino Médio e congelar as verbas de saúde, educação, segurança e outros serviços públicos por 20 anos. De lá pra cá, os problemas com educação não foram resolvidos, e sim agravados a nível federal, estadual e municipal, chegando a situação como a da prefeitura de São Paulo, que põe em pauta servir “ração humana” como merenda nas escolas da rede municipal. Pouco se debateu sobre o significado daquele momento e mesmo a esquerda tradicional, que não soube lidar com um movimento que não podia controlar, criou mais confusão sobre as mobilizações secundaristas que ajudou a compreendê-lo. Foram mais de 800 escolas ocupadas, somente no Estado do Paraná. O silêncio ensurdecedor em torno de uma mobilização social tão grande é, no mínimo, curioso, mas revelador sobre os tempos em que vivemos. Farei aqui uma análise à partir do cotidiano da ocupação do Colégio Estadual Rodolpho Zaninelli em Curitiba para tentar refletir sobre quanto as escolas ocupadas nos revelaram problemas sociais bem mais profundos do que conseguimos observar com uma análise mais geral.

Se subirmos no ônibus Vila Verde, na capital do Paraná, à partir do Terminal da Cidade Industrial de Curitiba (CIC), vemos um grande número de pessoas que se locomovem em uma lotação simples, bastante diferente do modelo vendido como de última geração pela prefeitura. Quem espera encontrar nesta linha o transporte modelo que o município vendeu para o mundo pode se surpreender negativamente. São ônibus antigos, lotados, barulhentos, sem escapamento, irregulares em horários e que quebram com uma frequência relativamente alta. Nesta linha não há contrafluxo, visto que quando chega ao terminal, o ônibus traz um grande volume de pessoas que saem da Vila Verde rumo aos seus locais de trabalho em outras regiões da cidade, e na volta leva um grande número de operários das várias fábricas que existem na região, tais como a Bosch e a Racco. Seguimos pela Rua Des. Cid Campelo, entrando pela Rua Vicente Micheloto onde, ao passar pelo viaduto há um ponto de ônibus bastante movimentado, pois é onde os moradores do bairro conseguem pegar o coletivo sem que este faça todo o trajeto pela região até seu ponto final, economizando mais ou menos 15 minutos. A Avenida – onde circulam muitos carros em duas pistas em cada sentido, dado ser uma das principais ligações com o município vizinho de Araucária – possui paradas nos dois lados da pista e, apesar disso, não há ponte ou semáforo que auxiliem os pedestres na realização desta travessia. São muitas as pessoas que se arriscam nesta desigual disputa de tempo e de espaço com os carros em alta velocidade e as crianças e idosos são os que mais apresentam dificuldade em cruzar de um lado para o outro.

Entramos na Vila Verde pela rua Antônia Molina Bela e a primeira coisa que nos chama atenção é a névoa cinza e com mau cheiro que envolve o bairro todas as manhãs. As ruas, asfaltadas em sua maioria, apresentam construções simples e por vezes inconclusas. São casas construídas pelos próprios trabalhadores que ali vivem desde que este terreno fora ocupado, no ano de 1991, quando à partir da atual Rua Emílio Romani passaram a construir as casas e as estruturas básicas do bairro na forma de mutirões. Trata-se de um bairro estigmatizado por uma imagem, veiculada cotidianamente nas redes de TV e jornais, ligada à pobreza, ao tráfico de drogas e à violência urbana. No entanto, ao desvendar as entranhas da Vila Verde, percebemos as pessoas reais que vivem e trabalham todos os dias e sustentam suas famílias a duras penas. Observamos que grande parte dos habitantes aqui ou são migrantes, ou são descendentes diretos destes que vieram de áreas rurais das mais variadas no Brasil, em especial do interior do Estado do Paraná.

Existem poucas estruturas de cultura e lazer para que os jovens possam desfrutar, entre elas está o Bosque da Vila Verde, um campo de futebol, localizado na Rua Ney Pacheco, e o teatro Peça por Peça, mantido pela Fundação Bosch. No restante, faltam opções para além das igrejas (Comunidade Santa Clara, Deus é Amor, Assembleia de Deus e Universal do Reino de Deus) e bares, que pipocam em cada rua por aqui. O bairro conta também com uma creche municipal; duas escolas municipais (E.M. João Cabral de Melo Neto e E.M. América da Costa Sabóia); e o Colégio Estadual Rodolpho Zaninelli.

Os jovens, geralmente, começam a trabalhar desde cedo. Antes de entrarem no Ensino Médio muitos já trabalham, desde programas de estágio como o Jovem Aprendiz até trabalhos informais, como caixas de mercados e lojas locais ou vendedores de frutas e doces em semáforos. O número de pessoas negras no bairro é evidentemente expressivo, se contar que Curitiba se vende com a imagem de uma cidade europeia.

O “Rodolpho”, como é chamado pelos moradores, é o local onde grande parte da população desta região estuda ou estudou. É comum que pais e filhos tenham assistido aulas com os mesmos professores. Nas listas de chamada muitos sobrenomes se repetem de uma sala para outra. São primos, tios, irmãos, enfim, grande parte do núcleo familiar das pessoas que aqui vivem que passam um bom pedaço de sua vida. É a típica escola de bairro. Atende um número de alunos de 1604 com faixa etária entre 10 e 40 anos com 1 diretor, 2 diretores auxiliares, 1 secretária, 7 pedagogas 83 professores e 24 funcionários oferecendo cursos do Ensino Fundamental II, Médio e Técnico de Administração e Mecânica. Apresenta também apoio financeiro escasso para adequar as instalações e materiais às necessidades de educadores e educandos além da alta rotatividade de professores.

Ao entrar na escola, pode-se surpreender  com a quantidade de cadeados e portões que existem delimitando os diferentes espaços. Para evitar com que os educandos “fujam” das salas de aula, portões são trancados por correntes e cadeados, onde há uma agente escolar responsável por

abrir e fechar para que os professores possam trocar de turma, e também para que um ou outro que precise ir ao banheiro. O espaço físico também não é dos mais agradáveis. As paredes são pintadas em tons de azul que, no entanto, nos pontos onde estão descascadas se expõe uma miscelânea de outras cores que estas mesmas salas de aula já possuíram. À exceção das paredes e portas que foram desenhadas por um projeto promovido disciplina de Artes, falta bastante cor por aqui. Faltam também alguns vidros nas janelas de parte das salas de aula, o que no inverno curitibano torna a experiência de assistir/ministrar aulas bastante desagradável.

O lanche não é tão diversificado nutricionalmente, tendo em vista que boa parte dos educandos precisa se alimentar na escola. É frequente que tenha apenas bolacha de água e sal e chá mate como merenda para suportar cinco horas de aula. Para muitos dos que estudam e trabalham, uma boa comida na hora do lanche faz toda a diferença, ainda mais para aqueles jovens que ficam sozinhos em casa com os irmãos, sem a presença dos responsáveis – que precisam trabalhar o dia todo – e não possuem acompanhamento para que realizem suas refeições de maneira adequada. É uma escola com o estigma da “escola que deu errado”.

A partir notícia da ocupação da Escola Estadual Arnaldo Jansen[1] – no município de São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba – os estudantes realizaram algumas reuniões e assembleias que culminaram na ocupação do Rodolpho Zaninelli. Os alunos que permaneceram ocupados na escola foram aqueles que são tidos pela maioria dos professores como indisciplinados, os chamados “alunos problema”. No entanto, o que se observou era uma escola organizada, mais limpa do que de costume, onde os jovens fizeram reparos em espaços degradados por conta própria e buscavam atividades para preencher a programação diária da ocupação.

Ocorreram saraus, oficinas (Hip Hop, educação popular, filmagem e edição de vídeos, etc.) shows de bandas, campeonatos de futebol e vôlei, assembleias, reuniões, formações políticas com professores de outras escolas e universidades, enfim, o colégio se tornou realmente atrativo para aqueles jovens. Mas para além disso, era possível ver a comunidade se reapropriando da escola, onde pais e responsáveis e até moradores que já terminaram seus estudos se faziam presentes com grande frequência nas atividades. As meninas, no geral, eram as protagonistas no processo político e organizativo que ocorria por aqui, colocando os meninos para dividirem as tarefas de limpeza e manutenção do espaço.

Mas um vento frio perturbou a doce harmonia da cesta. A propaganda midiática e do governo do Estado do Paraná passaram a estimular com que os pais se organizassem, muitas vezes de maneira violenta, para desocupar as escolas[2]. Movimentos como o MBL (Movimento Brasil Livre) passaram a produzir conteúdo que visava degradar a imagem dos estudantes ocupados em escolas, gerando um clima de apreensão e medo. As ameaças, denúncias e processos que começaram a chegar aos professores que apoiavam este processo tratou de desarticular grande parte do apoio que estes estudantes tinham. A comunidade parou de frequentar as ocupações, uma vez que se difundiam boatos de que estas eram utilizadas para o consumo de drogas e a realização de orgias entre os estudantes. As doações de comida e estrutura que vinham por parte dos apoiadores diminuiu gradualmente, até o momento em que passou a faltar, inclusive, comida na ocupação. No momento em que ficaram isolados foi justamente onde os jovens do Colégio Estadual Rodolpho Zaninelli se mostraram mais fortes, pois tiveram de enfrentar, além de toda a estrutura repressora do Estado e de grupos de direita, os próprios pais e professores que, no início do processo, os apoiavam, mas que agora estavam contra o que faziam.

Diversas reuniões foram organizadas por professores da escola junto à comunidade no intuito de forçar a desocupação do Rodolpho. Em outras escolas, como no Guido Arzuo, Pedro Macedo e no Lisymaco Ferreira da Costa[3], houve, de fato, enfrentamento físico entre grupos ligados ao MBL e os estudantes ocupados. O clima era de tensão.

Até que no dia 09 de Novembro de 2016, cumprindo a um mandato de reintegração de posse da parte do Governo do Estado do Paraná, a Polícia Militar desocupa o colégio, o último em todo o Estado. Alguns dos estudantes se assustaram neste momento, pois parte dos policiais escalados para executar a reintegração eram os mesmos que cometeram violências e intimidações com os estudantes em vários momentos do dia-a-dia das ruas. A #OcupaRodolpho terminou, é hoje ausente, na medida em que a escola voltou ao seu funcionamento normal, com salas, carteiras enfileiradas e grades. Mas está presente nos rebatimentos na vida escolar e na consciência de todos os que participaram – ou não – deste processo. A vida seguiu, mas desde então, a consciência já não é a mesma de antes.

E o que esta breve descrição desta experiência tem a nos revelar? Que na verdade, os jovens, com sua mobilização – em especial em escolas de periferia, como o Rodolpho Zaninelli – revelaram que o colégio é apenas um reflexo de problemas que são estruturais em toda a nossa forma social. As ocupações explicitaram, perante a todos, questões que extravasam o ambiente de Ensino. Questionou-se na prática a desigualdade social e de gênero, os problemas urbanos, a questão da educação, o próprio Estado e a adultocracia que se impõe em nossa sociedade. As ocupações revelaram que crianças e adolescentes têm opinião própria, criam coisas novas e podem sim contribuir para pautar os problemas sociais.

[1]     “Alunos que ocupavam escolas estaduais deixaram na tarde desta sexta-feira (4) dois colégios em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, após o cumprimento de mandado de reintegração de posse por oficial de justiça. A primeira desocupação foi no Colégio Estadual São Cristóvão. Em seguida, os estudantes saíram do Colégio Estadual Arnaldo Jansen, o primeiro a ser tomado por secundaristas no Paraná. A unidade estava ocupada há 31 dias.” Em Gazeta do Povo no dia 04/11/2016 com o título “Justiça cumpre reintegração de posse na primeira escola ocupada no Paraná”. ver: http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/justica-cumpre-reintegracao-de-posse-na-primeira-escola-ocupada-no-parana-9c8ukozo5o97su2388srqhz0w Acesso em 25/06/2017.

[2]     O Governador chegou a afirmar, segundo o Paraná Portal, em 10/10/2016, o seguinte: “Não vão nos intimidar. Sindicatos ligados à CUT, ligados ao PT que querem a baderna no país, usando de forma criminosa as nossas crianças nas escolas que estão nas ruas protestando não sabem nem o quê. Numa perfeita doutrinação ideológica nas escolas do Paraná e do Brasil. Aqui talvez com mais intensidade, pela agressividade dos sindicatos daqui”, discursou.

Beto Richa ainda cobrou dos pais que conversem com os estudantes. “Eu peço aos pais e mães: cuidem dos seus filhos nas escolas. Conversem com seus filhos; ‘meu filho, por que está manifestando? Quem pediu para você fazer isso? Em nome do quê? De que causa?’. É uma doutrinação. Estão formando cidadãos amanhã que vão defender grupos extremistas, grupos de esquerda”, apelou.” Disponível em http://paranaportal.uol.com.br/cidades/governo-pede-reintegracao-e-richa-ataca-ocupacoes-em-escolas/ acessado em 19/07/2017.

[3]     O trecho da notícia do Parana Portal de 27/10/2016  dá conta de expor como tal processo ocorria nas escolas: “O Colégio Lysimaco Ferreira da Costa, no bairro Água Verde, chegou a ser invadido por integrantes do MBL e foi necessária a intervenção da Polícia Militar para evitar conflito com os estudantes que ocupam a escola. A assessoria de imprensa da PM afirmou que não havia mandado judicial para ser cumprido nesta noite e que os policiais estão no local acompanhando as manifestações. A PM retirou de dentro da escola todas as pessoas estranhas à ocupação.” Disponível em: http://paranaportal.uol.com.br/curitiba/pm-impede-desocupacao-de-escolas-em-curitiba/ acessado em 19/07/2017

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