Por José Pires

O Fiesta Hatch verde escuro, alugado dias antes em Macapá, tem alguns buracos no assoalho que levam parte da poeira da BR 156 pra dentro do automóvel. Ela se acomoda no estofamento, no painel, no teto, na pele e nos olhos dos ocupantes. É uma espécie de suvenir ofertado pela natureza aos que trafegam pela região. O município de Oiapoque está localizado na parte mais setentrional do estado do Amapá, e é um dos extremos do país. Partindo da capital amapaense, são mais de 500 quilômetros de distância, boa parte deles em estradas de terra. Atoleiros que desafiam caminhonetes 4 x 4 em dias de chuva e poeira que cega em tempos de seca.

O pó cobre da cabeça aos pés. Um calção azul um palmo acima do joelho, uma sandália de duas tiras e um colar indígena. É isso que o corpo suporta em temperaturas médias de 35 °. A dupla que sai do carro parece dois mineiros que voltaram à superfície depois de um dia de trabalho. A aparência, misto de sujeira e cansaço, é resultado de uma longa investigação jornalística realizada por Mauri König, então jornalista da Gazeta do Povo e de seu companheiro de trabalho, o fotojornalista Albari Rosa.

“Colocar a mão no vespeiro” é especialidade de Mauri. Pra chegar às vespas, que picam quando são incomodadas, é preciso percorrer um longo caminho. Mais de 60 mil quilômetros, em alguns casos, como quando ele e Albari viajaram pelo país por mais de uma vez fazendo uma série de reportagens investigativas que denunciaram a exploração sexual de crianças e adolescentes nos rincões do Brasil, tendo como parada final o município de Oiapoque, um extremo de longitude, desigualdades e injustiças localizado no fim de uma BR empoeirada.

Muitos anos antes de investigar o extremo norte do Brasil, quando estava no quartel e ganhou baixa da 15 ª Companhia de Engenharia de Combate em Palmas, no interior do Paraná, depois de ter problemas com um “tenentezinho”, o soldado König sequer imaginava que seria um dos jornalistas mais respeitados e premiados do mundo. Essa possibilidade também não passava por sua cabeça quando trabalhava no Banco Itaú de Foz do Iguaçu em 1987. Nem mesmo quando iniciou a faculdade de letras em 1988 na Facisa, hoje Unioeste.

A possibilidade de se tornar repórter viria anos depois. Em 1990 o dono do Jornal Combate convidou um amigo de Mauri para escrever no periódico. O colega recusou e indicou König, que na época ajudava a editar o jornal do centro acadêmico. “Me lembro que o editor era o Vinícius Ferreira e ele me pediu para que escrevesse alguma coisa. Escrevi então um artigo, a caneta, em uma folha de caderno, sobre a poluição visual durante as eleições. Não tinha a mínima ideia de como se escrevia uma matéria jornalística. Mas o editor gostou e fui contratado”, lembra. O jornal era semanário e Mauri fazia de tudo um pouco, era o único repórter do impresso. Meses depois o veículo mudou de nome e se tornou o Jornal de Foz. Nesse período König aprendeu a fazer jornalismo na marra. Lia muitas matérias para melhorar a escrita e entender como jornalistas mais experientes montavam uma reportagem. Nove anos depois começou a cursar jornalismo na UDC (União Dinâmica de Cataratas). Participou da primeira turma.

Mauri Konig e Albari Rosa percorreram o Brasil de ponta a ponta denunciando a prostituição infantojuvenil/Foto acervo pessoal Mauri

A semente

Em 1991 o jornalista Montezuma Cruz se transferiu para a sucursal da Folha de Londrina em Foz do Iguaçu. Lá, ele e Mauri, que já era correspondente do jornal de Londrina, se conheceram em fértil garimpo jornalístico nas conhecidas Três Fronteiras. Estreitaram laços com os colegas do lado estrangeiro. Isso era essencial para os projetos que implicavam coragem e alguma “falta de juízo”. A dupla produzia feito máquina. Chegaram a escrever, em um único dia, dez matérias.

Além de amigo Montezuma fez o papel de mestre, alcunha que modestamente rejeita. “O Mauri é um exagerado, aprendi muito com ele também”, diz por telefone, lá de Rondônia onde trabalha na secretaria de comunicação do governo do estado. “O Monte foi meu grande mestre no jornalismo. Muito do que sei hoje aprendi com ele”, garante Mauri.

Os dois tinham por hábito apresentar, um para o outro, cada colega paraguaio ou argentino que conheciam durante incursões em países vizinhos. Foi assim que conheceram César Palácios, Cláudio Salvador, Juan Salinas, Hector Guerin, Fermín Lara e outros mais.

A rotina era estafante. Pipocavam pautas de toda a sorte nas fronteiras. Mas ainda faltava algo para Mauri, uma inquietante procura que teve fim com um convite do amigo César Palácios. Foi ao lado do paraguaio que Mauri investigou, durante duas semanas, uma denúncia sobre a atuação da máfia chinesa no comércio em Ciudad del Este. A informação era de que os criminosos vendiam proteção aos comerciantes, proteção contra eles mesmos. Durante a produção da reportagem os dois foram ao consulado entrevistar o cônsul que tinha sido ameaçado de morte. Tentaram traduzir textos de jornais em mandarim para procurar ameaças veladas aos lojistas. Fizeram um levantamento de quantos orientais haviam sido mortos na cidade nos últimos anos. Fotografaram escondidos sob o tronco de árvores, conversaram em off com diversas fontes. Era uma experiência nova, jornalismo investigativo que fazia adrenalina correr por cada veia do corpo. “Essa reportagem me mostrou uma outra possibilidade de fazer jornalismo. Tive mais tempo pra fazê-la e, consequentemente, consegui produzir algo com mais qualidade. Foi marcante, uma semente germinava em mim”, lembra König.

Antes dessa experiência tudo era muito burocrático. Mauri tinha que ficar a maior parte do tempo na redação, raramente saia, resolvia quase tudo por telefone. Era uma rotina massacrante. O jovem repórter, inquieto e que começava a desenvolver predileção por reportagens de cunho social percebeu, por meio dessa matéria, que podia fazer algo diferente. E fez.

Tríplice pobreza

Mauri descreveu a “tríplice pobreza” em favelas nas cidades fronteiriças nos estados do Paraná (Brasil), Misiones (Argentina) e Alto Paraná (Paraguai), quando já era correspondente do jornal O Estado de São Paulo. Intercalava o trabalho entre a Folha de Londrina e o Estadão, como conta Montezuma. “Almoçávamos na sucursal quase todo dia, e até o começo da tarde ele cumpria com mais de 50% das pautas que criávamos, ou aquelas solicitadas pelas chefias em Londrina e São Paulo. Editores da Folha, por exemplo, contavam-nos que só fechavam o jornal quando tivessem em mãos a consolidação das últimas matérias do dia, procedentes de Foz. Não há carteira profissional que anote tão sublime reconhecimento daquela peleja. Em média, escrevíamos quatro a seis matérias por dia, algumas notas para o informe político, textos para um quinzenário de turismo e compras”.

Os espinhos

Quando produziu uma reportagem sobre adolescentes que estavam presos em meio a adultos no Paraguai, Mauri percebeu que o jornalismo podia mudar algumas realidades, melhorar a vida de um personagem, de um grupo ou comunidade. Depois da matéria publicada houveram algumas mudanças no presídio, as portas da prisão, antes fechadas para a mídia, foram inclusive abertas aos veículos de comunicação. Uma transformação pequena, mas significativa. Era, para o jovem jornalista, a sensação de contribuir com uma sociedade mais justa, de fazer parte da diminuição de uma mazela. Havia se achado, esse era o caminho. Um idealismo que, anos mais tarde, o levaria a ser conhecido em boa parte do mundo.

No entanto, nem só de flores vive o jornalismo investigativo. Na verdade, na maior parte das vezes, são os espinhos que ditam a rotina. Foi isso que Mauri König descobriu ao cruzar mais uma vez a fronteira do Paraguai para apurar uma denúncia. Já como jornalista do jornal O Estado do Paraná recebeu uma pauta do colega César Palácios. “Um dia o Palácios me disse que tinha recebido uma informação de que adolescentes brasileiros estavam servindo o exército do Paraguai”. Durante a investigação Mauri foi ao país vizinho cinco vezes. Em quatro delas na companhia do fotógrafo Nilton Rolin em diversas cidades da fronteira. “Passamos em delegacias, ouvimos policiais e outras fontes”. Mas a informação de uma investigação jornalística em andamento se espalha com facilidade. “Eu era meio ingênuo na época, admito. O Rolin ficou revelando as fotos no jornal e eu peguei minha maquininha fotográfica e fui pra outro canto da fronteira onde havia descoberto que tinham mais brasileiros”, conta.

Era perto do meio dia de 19 de dezembro de 2000. Mauri havia feito algumas fotos que comprovavam que realmente adolescentes do Brasil estavam trabalhando no Exército Paraguaio em uma área rural a cerca de 80 km da fronteira. Voltou pro carro e pegou a estrada, um trecho de terra cercada por plantações de soja, um mar verde, no meio do nada. Alguns quilômetros à frente havia uma caminhonete vermelha estacionada. Ao lado dela um homem com a farda da Polícia Nacional do Paraguai fez sinal para que parasse. “Eu já tinha sido parado em muitas blitz no Paraguai, por isso sabia de cor o procedimento. Parei o carro e fui pegar os documentos no porta luvas”. Quando levantou a cabeça recebeu um soco. Golpe rápido e certeiro. Os óculos caíram. Em questão de segundos apareceram dois sujeitos com trajes civis, que estavam escondidos atrás da caminhonete. “Não tinha visto os dois, até pensei que o policial estivesse sozinho, fato incomum, obviamente”, lembra. Mais socos. Já fora do carro caiu de costas para o chão. Chutes, mais socos. De repente, se incorporam à sessão de tortura um pedaço de madeira e uma corrente. Mauri vira de bruços. As pedras da estrada rasgam a carne do peito. Chutes nas costelas, pauladas que buscavam atingir a cabeça que tentava ser protegida por meio das mãos entrelaçadas.

– ¿Qué pasa? ¿Qué pasa?, perguntava em meio ao desespero.

Os algozes riam e gritavam algumas frases em Guarani.

Quase 15 minutos. König já não acreditava que sairia vivo. Como golpe de misericórdia, o oficial fardado colocou o joelho no meio de suas costas e passou a corrente pelo pescoço. O aperto parecia o fim. O estrangulamento diminuía o fluxo de sangue para o cérebro e pensamentos racionais quase não eram possíveis. Um, no entanto, fez toda a diferença. “Resolvi me fingir de morto, não me mexi mais. Aí os caras bateram mais um pouco e eu não reagia, não gemia”. Os algozes pararam. Um breve momento de silêncio e König ouviu o motor da caminhonete ficando cada vez mais distante. Ficou deitado, imóvel por alguns minutos, ouvindo somente o vento cantar nas folhas de soja. Apesar da surra, hoje percebe que não morreu porque os três paraguaios não tinham essa intenção. “Eles não queriam me matar, queriam apenas me dar um susto. Se quisessem me matar teriam me dado um tiro na cabeça e me jogado no Rio Paraná, eu seria só mais um cadáver lá no fundo”, conclui.

Quando achou que as coisas estavam mais seguras se levantou. Estava com o pé destroncado e tinha muitas escoriações pelo corpo. Seu carro estava aberto, as coisas reviradas e a chave ainda no contato. Entrou no gol e saiu. Dirigiu em estado de choque. Olhava constantemente no retrovisor. Chorava. Pensou em parar o carro e arrancar os adesivos com a logomarca do jornal, mas eles podiam não sair com facilidade e parar podia representar mais uma tocaia. “Quando pensei nisso já estava dirigindo pela estradinha antes de chegar à rodovia. Mas ia ser muito trabalhoso pra tirar, eu não sabia se ia conseguir. Assim continuei dirigindo, num cagaço daqueles”.  Quando chegou na rodovia se sentiu um pouco mais tranquilo. Mas não muito, porque pra chegar em Ciudad del Este ainda tinha que passar por um posto policial. Quando passou novamente pela polícia e não foi parado se tranquilizou. Repleto de ferimentos preferiu não ir ao hospital, naquele momento só conseguia confiar nos colegas jornalistas. Foi direto a sucursal do jornal Diário de Notícias, onde trabalhava Palácios. Lá também estava Juan Carlos Salinas, diretor da redação. “Quando os caras me viram naquele estado chamaram a imprensa Paraguaia inteira.  Eu fui ali pedir ajuda pra eles, era o único lugar seguro que eu conhecia. Aí veio o chefe da Polícia Nacional do Paraguai e fui levado para o Consulado Brasileiro”. Depois de ser orientado pelo cônsul, Mauri foi levado ao Instituto Médico Legal (IML).

– 97, 98, 99… mais de cem. É isso que vou colocar na súmula no exame. Mais de cem ferimentos.

O médico legista desistiu de contar quando chegou perto de uma centena de escoriações no corpo do repórter brasileiro.

Chegou em casa, em Foz do Iguaçu, só meia noite. Na época era casado e já tinha um filho. Trabalhava com a esposa no Estado do Paraná e foi ela que fez a matéria sobre a agressão sofrida por ele. Ninguém dormiu naquela noite, talvez nem nas seguintes. A esposa trocava de canal toda vez que a agressão repercutia na TV para poupar o filho de ver o pai no estado em que se encontrava logo depois da tortura. O restante da família, porém, demorou algum tempo para saber do episódio. “Minha mãe e minha irmã, que naquela época já não moravam mais em Foz, demoraram um pouco pra ficar sabendo o que tinha acontecido. A minha irmã que vivia em Cascavel ficou sabendo primeiro e contou pra minha mãe. As duas ficaram muito penalizadas. Minha mãe é uma pessoa muito humilde, ela sempre se preocupou, mas nunca interferiu na minha vida profissional”, conta. Quem interferia eram algumas ex mulheres que diziam, “para com isso, pra que isso?”.

Depois ficou sabendo que no capô do gol os criminosos haviam deixado um recado escrito em Guarani que dizia:

– Nunca mais volte ao Paraguai.

Mauri voltou dezenas de vezes.

Foram muitos os perigos enfrentados ao longo de quase 30 anos como jornalista /Foto arquivo pessoal de Mauri

Fugitivo

Em novembro de 2002 König começou a trabalhar como correspondente da Gazeta do Povo em Foz do Iguaçu. No primeiro semestre do ano seguinte teve um carro furtado. Na ocasião, na companhia da namorada, estava na casa de uns amigos, no bairro Cohapar 2, assistindo ao filme “Os outros”, suspense estrelado por Nicole Kidman. Já era madrugada quando se despediu e, ao sair pra rua, percebeu que seu Gol havia desaparecido. Ainda de madrugada foi para a delegacia fazer um boletim de ocorrência. No dia seguinte voltou pra perguntar se a Polícia havia descoberto algo.  Dias depois recebe uma ligação do superintendente da Policia Civil.

– Olha Mauri, achamos seu carro, só que ele está no Paraguai e os caras estão cobrando R$ 4 mil pra devolver.

O Gol valia R$ 10 mil, se muito. “Aí eu percebi que tinha alguma treta nessa história. Havia uma suspeita de que a polícia estava trabalhando em parceria com os criminosos no roubo de carros. Inclusive um delegado, calça curta na época, chamado Maurílio Alves, tinha sido preso nesse esquema. Quando esse cara me ligou já desconfiei. Aí liguei para o Arnaldo Alves da Cruz, que era o diretor de redação da Gazeta, e expliquei toda a situação. Disse pra ele que se eu pagasse o resgate teria meu carro de volta, mas teria mais do que isso, teria o ciclo completo de uma matéria, o furto, a negociação, o pagamento e a devolução do carro. A Gazeta do Povo não tinha até então a característica de produzir grandes reportagens, se você pegar a história, as grandes reportagens da Gazeta fui eu que fiz, não é demérito aos demais colegas, mas reportagens de maior fôlego, a cultura da grande reportagem foi trazida à Gazeta por mim”, destaca.

Mauri e a Gazeta fizeram um acordo: O jornal emprestaria o dinheiro para o resgate e Mauri teria a chance de desvendar um esquema criminoso por meio de uma grande reportagem. “O Arnaldo me ligou e disse que o jornal podia me emprestar o dinheiro. Aí telefonei para o superintendente e marquei um horário com ele na delegacia. Mas antes conversei com a Dina Ouro, que era chefe de reportagem da TV Cataratas e perguntei se ela podia me emprestar uma micro câmera. Na época esse equipamento era do tamanho de um notebook, não era como hoje quando as câmeras são escondidas até em canetas. Ela me emprestou. Fui até a delegacia, coloquei a minha mochila em cima da mesa dele enquanto a gente conversava. Na sua frente abri a mochila e peguei alguns papéis de forma que ele visse que nela havia apenas documentos. Aí marcamos o acerto pra eu pegar o carro e fazermos todo o flagrante”. No entanto, nem tudo deu certo durante a produção. A micro câmera tinha uma bateria que não durava muito tempo e, consequentemente, precisava ser desligada sempre que possível. “Eu precisava economizar a bateria da câmera, por isso tinha que ficar colocando a mão dentro da bolsa e desligando ela. Quando paramos para abastecer em um posto, ainda no Paraguai, indo resgatar meu carro, fui ao banheiro para desligar a câmera e o policial que me acompanhava entrou de repente e quase me deu um flagrante. Acho que ele desconfiou de alguma coisa porque eu estava com a mão dentro da bolsa e voltou e avisou seu chefe. Aí o superintendente foi pro telefone, demorou alguns minutos e voltou dizendo que os caras tinham desmarcado a entrega do carro. Quando a gente foi pro Paraguai eu já tinha entregue os R$ 4 mil de resgate, tinha passado para o superintendente e ele entregou a um moto boy que ia dar o dinheiro para os caras. Então mudaram o local da entrega, disseram que deixariam o carro em tal lugar, com a chave em cima do pneu e dito e feito, fomos e o carro estava lá. Vim dirigindo com um policial do lado e veio também, nos escoltando, um carro da polícia descaracterizado. Enquanto isso uma fotografa do jornal estava na ponte, localizada estrategicamente. Pronto, o flagrante estava feito e a reportagem seria publicada”, conta König.

O médico legista desistiu de contar quando chegou perto de uma centena de escoriações no corpo do repórter brasileiro.

Quando Mauri chegou na sucursal, no telefone da redação começaram a chegar uma série de ligações. A fotógrafa atendeu a primeira e disse a Mauri que era o Gerson, superintendente da polícia no outro lado da linha. König pediu pra dizer que não estava e que o cana deixasse recado. “Então ele disse pra eu ir imediatamente na delegacia dar baixa no B.O., não fui”. Alguns minutos depois ligaram de novo e de novo, e depois de novo. Ao todo foram oito ligações em um dia só. A fotógrafa nem atendia mais. “Ela tava num cagaço, tanto que a foto que saiu na capa no domingo seguinte saiu sem o crédito dela, por conta do pânico que a coitada ficou”. Isso aconteceu em uma quinta feira e Mauri dormiu aquela noite na sucursal, tentando se ajeitar em uma poltrona de couro. No outro dia pegou o primeiro voo e veio pra Curitiba ajudar a editar o restante do material sobre o flagrante que ainda seria publicado. “Fiquei aqui duas semanas e voltei pra Foz. Quando cheguei, o Antonio Cirilo, que era o diretor da TV Cataratas me chamou e disse: Mauri, você tem que sair o quanto antes de Foz do Iguaçu porque um delegado veio aqui falar que os policiais querem te pegar pra fazer o serviço completo”. Ficar seria colocar a vida risco, sofrer outra emboscada, desta vez, talvez a derradeira. Mauri foi então transferido para Curitiba, vinha fugido, deixando pra trás família e amigos.

Albari e a rua como escritório

Desde que chegou à Curitiba, como repórter “fugitivo”, Mauri inaugurou uma “nova era” na Gazeta do Povo. Um tempo de grandes reportagens, de investigações, de denúncia, ou seja, jornalismo investigativo, novidade até então no maior jornal do Paraná. Ele e Albari Rosa começaram a trabalhar juntos em 2004, mas já se conheciam de Foz do Iguaçu. O que faziam no impresso era muito inovador. Viajavam o país na tentativa de mostrar a injustiça social que devora os esquecidos. “Iniciamos um novo tempo com a matéria Devorados pela miséria, com a qual ganhamos o Prêmio Esso de Jornalismo e eu ainda ganhei o Wladimir Herzog. Dali pra frente foi uma transformação na Gazeta”, lembra Albari.

20/09/2005 – Série de reportagens “Infância no limite” – Município de Oiapoque, estado do Amapá- Foto de Albari Rosa – Gazeta do Povo.

Os dois haviam conquistado o direito de fazer jornalismo investigativo de verdade. No entanto, essa permissão, só veio depois de muita insistência. “Conseguíamos realizar o que realizávamos não porque a Gazeta mandava. A gente é que convencia o jornal a nos deixar fazer isso”. Não demorou para que a dupla ganhasse fama. “Sempre que a gente saia pra fazer trabalho juntos os colegas diziam: Esses caras estão aprontando alguma”. Os dois foram companheiros de trabalho por quase 15 anos.

Desde famílias que serviam de alimentos a bichos de pé, até meninas ofertadas para o sexo como complemento de renda, os dois viajaram o país de ponta a ponta e, obviamente, passaram por poucas e boas. “Passamos por muitos perigos juntos. Mas, tínhamos uma regra, a de nunca deixar o outro sozinho. E se a coisa ficasse feia tínhamos um trato: Se o cara engrossasse a gente saia de fininho, se ele diminuísse o tom, a gente engrossava”, lembra Albari.

A receita foi válida por muitas vezes. Como, por exemplo, na ocasião em que o fotógrafo foi pego pelo colarinho no norte do país enquanto fotografava um bordel na beira da estrada. Na saída, depois de um breve entrevero em que o pescoço enfim se viu livre das mãos do leão de chácara, o carro dos jornalistas estava cercado por sujeitos mal encarados. “Aí eu enchi o peito, cheguei no cara que estava encostado na porta do motorista e disse: Seguinte meu camarada, dá licença que esse carro é meu e precisamos sair. O cara deu licença”. Na mesma noite Albari, em tom de deboche, pagou uma cerveja em outra boate para um sujeito que os estava seguindo desde o começo da noite. “Toma aí meu camarada, sei que está cansado, afinal tá nos seguindo a noite toda né”, conta o hoje ainda fotojornalista da Gazeta do Povo.

A estrada foi transformando ambos. As experiências com cada miserável, a vida dura levada por aqueles que são esquecidos pelo estado ensina muito. Tocado cada vez mais pelos personagens que retratava Mauri König se tornou obstinado em mostrar o Brasil dos esquecidos. “O Mauri sempre foi muito focado, organizado e antenado em assuntos não inéditos mas tratados pelos jornais em geral de uma maneira muito superficial. Ele se aprofundava nesses temas, fazia muita pesquisa e levantava muitos dados. Era metódico e confesso, que algumas vezes, até chato”, destaca o amigo Albari.

“Infância no limite” foi uma série de reportagens sobre prostituição de crianças e adolescentes que rendeu à dupla o Prêmio Tim Lopes de jornalismo. Uma incursão de dois meses. Sessenta dias trabalhando ininterruptamente. Com baixo orçamento, sem luxo nem glamour. Amassando barro, engolindo poeira, suportando altas temperaturas, sujeitos a doenças como a maleita, arriscando muitas vezes a própria vida. Um trabalho transformador que exigiu não somente muita coragem, mas grande sensibilidade. “O Mauri tem uma coisa única, um dom de conseguir dar sentido para as informações em cada local e tema que ela aborda”.

A série de reportagens confirmou – se é que alguém duvidava – a simetria que existia entre Mauri König e Albari Rosa. “Costumo dizer que a fotografia tem uma função social muito maior do que ilustrar a página de um jornal ou ir para uma galeria, por exemplo. A fotografia, ao lado do texto bem feito, nesse casamento que o jornalismo proporciona, é a maneira mais fácil e mais direta de se fazer com que a informação chegue nas pessoas. Eu e o Mauri sempre tivemos essa sintonia. Nestes 30 anos de profissão, praticamente 15 deles passei trabalhando ao lado do Mauri. Depois do meu encontro com ele fico a vontade para dizer que sou um fotojornalista, porque até então eu apenas fazia de conta”.

Uma dose de coragem

Coragem é um atributo presente em toda a carreira de Mauri e necessária, em muitas ocasiões. Em 2012, na companhia de outros jornalistas da Gazeta do Povo, produziu uma série de reportagens chamada “Polícia fora da lei”. A investigação sobre a Polícia Civil do Paraná mostrava, entre outros crimes, que policiais do estado usavam as viaturas e o combustível pago pelo contribuinte para ir à praia com a família e para outros usos pessoais. Depois da publicação o blog do jornal recebeu uma série de comentários anônimos, quando da publicação das reportagens, nos quais Mauri era considerado “inimigo número 1 da Polícia Civil”. Ao periódico foram destinados também telefonemas e até uma carta com ameaças de morte ao jornalista.

O Ministério Público e a polícia do Paraná apuraram o caso. A Associação Brasileira de Jornalismo (Abraji) emitiu nota cobrando “apuração célere das ameaças contra Mauri König, que eram ameaças também à liberdade de expressão e à democracia.” Sindicatos de jornalistas e profissionais repercutiram exaustivamente o caso.

Mauri, na companhia da família, precisou deixar o país. Foi um período negro de sua carreira motivado, mais uma vez, pelo inconformismo com as injustiças sociais. “Pensei nos pais e nas mães que estavam chorando pelos seus filhos mortos, esperando a investigação para saber quem eram os culpados pela morte daqueles que tanto amavam e alguns policiais estavam lá, usando a estrutura pública para fins pessoais. Eu não podia ficar calado”, enfatiza.

Nestes 30 anos de profissão, praticamente 15 deles passei trabalhando ao lado do Mauri. Depois do meu encontro com ele fico a vontade para dizer que sou um fotojornalista, porque até então eu apenas fazia de conta”.

A dor dos outros

Hoje Mauri é professor do curso de jornalismo do Grupo Uninter em Curitiba. Bonachão, passa tranquilidade quando fala. Parece que pouca coisa o aflige. Com tom de voz calmo cumprimenta colegas professores, funcionários da recepção e alunos com um aperto de mão e um tapinha nas costas.

Mesmo dando aulas produz, esporadicamente, reportagens para veículos como a Folha de São Paulo. “Não me aposentei das reportagens”, fez questão de deixar claro recentemente.

Durante a entrevista Mauri reclama de uma azia causada por um bife com alho consumido no almoço.

– Cara, vamos tomar um café pra ver se melhora meu estômago?, ele convida.

Na pausa aproveita pra mostrar o portal da faculdade onde trabalham dez estagiários sob sua supervisão. “Sou responsável pelo portal da Uninter, trabalho que tem me dado muita satisfação”, diz.

– Mauri, o que te motiva a fazer jornalismo investigativo, mesmo sabendo das consequências?, pergunto.

Mauri silencia. A pausa dura alguns segundos. Ele move os ombros para frente. Fita o chão. Balança a cabeça lentamente de um lado para o outro. As narinas se abrem como se bufasse.

– É que eu não suporto ver esse bando de canalhas se dando bem enquanto os pobres só se ferram! Me revolta saber que nada acontece com eles e é por isso que faço jornalismo, pra que esse bando de filho da … não se safe em todas as ocasiões, deixando os mais pobres na pior sempre!, enfatiza.

Talvez, perceber a dor dos outros sejam um dom com o qual se nasce. Talvez, o contato com a dor alheia desperte tal percepção. Ou, talvez a união de ambas as possibilidades seja o combustível de tudo.

– Olha, quando eu era pequeno sofri um injustiça muito grande. Hoje não suporto ver injustiça, completa.

O fato é que, para alguns, como Mauri König, a dor dos outros lateja como se fosse sua. E a dor dos outros também comove a ponto de o jornalista dedicar cinco anos à vida de um catador de recicláveis, personagem vítima de impropérios arrasadores durante toda a vida que entrou em contato com por telefone e gerou uma série de reportagens chamada “Quando viver é um ato de rebeldia”. “Em agosto de 2009 tinha feito uma reportagem chamada Escravos do Lixo. Publiquei no dia 15 do mesmo mês. Duas semanas depois me liga uma pessoa na redação dizendo que tinha lido essa reportagem e que era um catador também e queria me parabenizar. Ele me disse que também tinha sido escravo do lixo e começamos a conversar um pouquinho. Achei ele um sujeito muito articulado, um cara com um bom linguajar, e aqui não estou fazendo uma discriminação e dizendo que quem trabalha com recicláveis não sabe falar, não é isso, é que ele usou algumas palavras que eram de um linguajar um tanto erudito de uma maneira bem natural”, lembra Mauri. O futuro personagem, de alguma maneira o tocou. “Alguma coisa me comoveu na fala daquele sujeito. Talvez uma intuição. Aí eu perguntei qual era seu endereço e ele me passou. Morava na Vila Pompeia e meia hora depois eu estava na casa dele. No início pensei em fazer uma suíte da matéria com ele, chegando lá começou a contar sua história, quem era, me mostrou alguns documentos e tal. Em meia hora de conversa descobri que aquele personagem não rendia apenas uma matéria, mas um livro”, diz.  Durante cinco anos o Alceu, um catador de recicláveis cuja a vida foi repleta de tragédias, visitava a Gazeta do Povo todas as quarta feiras e contava um pouco do que havia passado durante a vida. Um homem que até os 17 anos foi empurrado de um orfanato para outro, escapou de um afogamento ainda bebê, foi torturado quando criança, e sobreviveu a dois envenenamentos e a um tiro na cabeça que o deixou 40 dias na UTI. Condenado como bode expiatório, ficou por quatro meses trancado numa masmorra sem ver a luz do sol. Há 12 anos havia descoberto que tinha HIV no exato instante em que a mulher descia ao túmulo, vítima da Aids.

Além de ouvir o personagem em mais de 200 encontros, Mauri fez uma apuração, que envolveu visitas a instituições que ele frequentou e lugares onde morou.  Ao todo entrevistou 40 pessoas em 18 instituições públicas e privadas em cinco cidades do Paraná para fazer o resgate da história de Seu Alceu. A série de reportagens foi publicada em 2015 um pouco antes de König sair da Gazeta e lhe rendeu o Prêmio Petrobras de Jornalismo.

Na estrada se acomoda como dá / Foto arquivo pessoal Mauri

Premiações

Se a labuta do jornalismo investigativo rendeu muitos dissabores, Mauri também teve seu trabalho reconhecido no Brasil, onde é o 3 ° jornalista mais premiado da história e no mundo, onde figura entre os dez mais.

Recebeu em 2012 o Prêmio Internacional de Liberdade de Imprensa, entregue pelo Comitê de Proteção aos Jornalistas, entidade global com sede em Nova York. Pelo reconhecimento à sua trajetória profissional. König recebeu em 2013 o Maria Moors Cabot Prize, o mais antigo e prestigiado prêmio do jornalismo mundial. O Cabot Prize é promovido pela Universidade de Colúmbia, a mesma que concede o Prêmio Pulitzer.

Venceu ainda outras importantes premiações internacionais, a exemplo do Global Shining Light Award, promovido pela Global Investigative Journalism Network, entidade formada por mais de 70 organizações de jornalismo de todo o mundo. Entre suas conquistas internacionais também estão dois Lorenzo Natali Prize, concedido pela União Europeia, e o Prêmio de Direitos Humanos da Sociedade Interamericana de Imprensa. Entre as conquistas nacionais, König dispõe de dois Prêmios Esso, três Prêmios Imprensa Embratel e quatro Prêmios Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, entre outros.

quando eu era pequeno sofri um injustiça muito grande. Hoje não suporto ver injustiça, completa.

Livros

Em agosto de 2008 Mauri lançou seu primeiro livro o “Narrativas de um correspondente de rua”. Além de reunir as suas principais reportagens, Mauri redigiu para o livro comentários sobre a maneira como construiu os trabalhos. Em 2013 lançou o segundo, “O Brasil oculto” que retrata, nas mais remotas fronteiras do Brasil, uma perversa rede de negócios criados em torno da exploração sexual infantojuvenil que o Estado e a sociedade desconhecem ou fingem não ver.

“Nos bastidores do mundo invisível” será o terceiro. A obra é uma coletânea de 18 reportagens escritas pelo jornalista entre os anos 2000 e 2016 e começara a circular a partir do dia 2 de outubro. Terá lançamentos em Curitiba e em Buenos Aires. “Esse terceiro livro é mais abrangente que o primeiro. Nele conto mais detalhes de como foram a produção de muitas reportagens, não só das vencedores de prêmios, mas de matérias que são muito importantes pra mim mas que não foram premiadas. Abordo muito os bastidores do meu trabalho porque a produção de uma reportagem, por muitas vezes, pode ser mais interessante que o resultado final”, completa.

Comentários

Comentários