“Em tempos de tirania e injustiça, quando a lei oprime o povo, o fora da Lei assume seu papel na História”

Robin Hood

 Coluna Pão e Pedras: Amenidades e Poesia 

O filme Como as Estrelas no Céu Toda Criança é Especial, do diretor Aamir Khan, retrata a história de Ishaan, um garoto de 9 anos considerado indisciplinado por todos os educadores que com ele trabalham e que, por meio da ação de um professor que o enxerga como indivíduo capaz, muda sua postura frente a escola, família e sociedade.

A escola, no modelo como está formatada no Brasil – e ao que parece é uma tendência em diversos outros países, como a Índia – serve sobretudo, nas palavras de Imanuel Kant, “ não tanto para que [os alunos] aprendam alguma coisa, mas para que se habituem a estar calmas e sentadas e a cumprir escrupulosamente o que se lhes ordena, de modo que depois não pensem mesmo que têm de pôr em prática as suas ideias.” Esta premissa se faz verdadeira ao observarmos os processos educacionais apresentados pelo filme, e aos quais o personagem Ishaan não consegue adaptar-se. Trata-se de modelos tradicionais baseados no inatismo e na repetição, que enxerga as crianças como pequenos adultos, ainda vazios de um conteúdo que lhes deve ser introduzido,nem que seja à força. Cabe ao aluno repetir tal como este lhe foi passado, como uma verdade absoluta. Corrobora com este fato a cena na qual pede-se a Ishaan que interprete um poema lido por seu colega, e este, ao fazer uma interpretação inteiramente sua, é reprimido pelo professor que considera correta a resposta de uma outra criança, que simplesmente repete o que estava escrito no poema.

Extremamente baseada em uma espécie de darwinismo intelectual, onde só os mais aptos aprendem enquanto os alunos que têm dificuldade de aprendizado são encarados enquanto a entraves ao “progresso” das aulas. Estes alunos, os inadaptados, são cotidianamente reprimidos por professores, membros da direção da escola e pelos próprios colegas de classe. Estão todos sujeitos a um processo de prostituição cognitiva, hierarquicamente bem definido onde a lógica da “decoreba” separa o joio do trigo, os vencedores dos fracassados.

Parece um bocado interessante observar que este mesmo processo que, desde a infância poda as flores que cada indivíduo faz brotar em si, gera impactos visivelmente benéficos aos grandes barões do mundo contemporâneo que, cada vez mais oprimem as pessoas. É necessário manter todos devidamente calados, de cabeça baixa. Afinal de contas questionar é um dos piores pecados do Capital. Fomos – e somos – educados para o medo. Cheiramos flores de medo. Vestimos panos de medo. De medo, vermelhos rios vadeamos.

Assim sendo, a atual forma da maioria das escolas contemporâneas acostuma-nos, desde cedo, a tratarmos e sermos tratados como uma massa disforme, homogênea e silenciosa. Os reflexos disso sentem-se, por exemplo, dentro das universidades, onde debates político-acadêmicos se tornam cada vez mais difíceis, e a palavra do professor é inquestionável. Calo-me, espero, decifro. Talvez as coisas melhorem.

Teorias como as de Vygotsky  – onde cada aluno, por ter vivido em um ambiente diferente de outro, traz em si conhecimentos espontâneos que são fruto de sua própria vivência e que não podem ser desconsiderados – são inteiramente ignorados, afinal de contas, somos todos iguais. “Ordem, disciplina e sucesso” é isso o que querem, afinal de contas, já domaram cavalos mais selvagens que Ishaan, e ele será só mais um a ser arduamente treinado, adestrado, tal como um cavalo de corrida. São todos iguais: Cabeças baixas, silêncio, todos iguais.

Do estrume, no entanto, podem nascer as mais belas flores. Quando educadores em posse de diferentes teorias educacionais como as de Piaget, Vygotsky, Feuerstein, entre outros – que longe de serem opostas, são complementares – e com a consciência de que educar é também uma opção política, ética, cultural e ideológica; passam a, para além dos discursos, mudar toda a estrutura escolar com base em práticas pedagógicas que nada tem de inovadoras – afinal de contas muitas delas foram escritas há mais de 50 anos – mas que consideram cada aluno enquanto indivíduo, enquanto um ser social diferente dos demais, repleto de talentos e dificuldades que lhe são tão particulares quanto cada folha o é em uma árvore.

A relação de poder entre aluno e professor é substituída por uma relação de afeto, em um vivo diálogo onde todos – educadores e educandos – adquirem um avanço intelectual impressionante, transformando juntos os conhecimentos originados do senso-comum em conhecimentos científicos estruturados. Como se trata agora de uma estratégia de aprendizado não-funcional, que não visa somente a transmissão cultural (entende-se de conteúdo) mas um processo de aprendizagem integral. Os conceitos formados coletivamente têm, agora, liberdade de se manifestar de diferentes formas em cada indivíduo, e estes voltando ao coletivo geram um debate crítico e extremamente frutífero.

É exatamente este o processo que ocorre com o novo professor de Artes da escola de Ishaan, que supondo que “as crianças são a benção de nossos ancestrais”, preocupou-se em entender as dificuldades do aluno em sala de aula, consultando cadernos antigos e conversando com os amigos e a família de Ishaan, identificando então um problema de dislexia neste aluno que, até então era visto por muitos membros da escola como retardado ou incapaz. A partir da compreensão dos aspectos particulares do aluno buscou-se estratégias junto à direção da escola e outros professores – como diz o velho ditado: uma andorinha, sozinha, não faz verão – para trabalhar com Ishaan de forma diferenciada.

Neste aspecto, como ressalta Paulo Freire em diversos textos, o trabalho com a família é essencial, pois muitas vezes esta colabora para o processo de isolamento que sofre o aluno, oprimindo-o dentro da própria casa e comparando-o a outros – no caso, Ishaan é frequentemente comparado com o irmão – destruindo a autoestima deste, que para não dizer “não consigo” passa a dizer “não quero” como estratégia para enfrentar todos aqueles que o subjugam. A família exerce uma relação dialética com a escola, onde ambos, em conflito, se complementam, sendo essencial fortalecer a relação destes com a escola.

Mais em tempos onde o trabalho abstrato toma quase todo o tempo de pais de família, como fazer isso? Quando se trata de uma família classe média/alta, onde os pais tem tempo livre para passear e ir ao parque com os filhos é relativamente mais fácil estabelecer esta ponte. Mas se tratando de famílias pobres onde os pais acordam muito antes de o Sol nascer deixando os filhos, esfomeados, sozinhos em casa durante todo o dia, chegando só ao anoitecer, exaustos depois de um longo dia de trabalho que mais parece um liquidificador que tritura o corpo e as almas, o que fazer? Para quem ensinar também é uma opção política, sabe-se que há graus de maior ou menor dificuldade se tratando de crianças de periferia ou de adolescentes que construíram suas relações sociais mais profundas dentro de shopping-centers.

Levando todos estes aspectos em consideração, se torna a cada dia mais difícil tornar-se educador, ainda mais quando este procura, ainda que residualmente, provocar mudanças estruturais nos alunos, na escola e na sociedade. Isso porque ocorre um processo a nível internacional – já que como observado no filme, isso não se restringe só ao Brasil – onde se instituem reformas educacionais cada vez mais focadas no “conteudismo”, forçando professores a prender-se a um ou outro livro didático tornando cada vez mais raros projetos educacionais que trabalhem com a mediação, aprendizagem direta ou indireta, tal como o festival de pintura realizado pelo professor no filme. Projetos como o Escola sem Partido, além de frear a criação de novos modos de ensinar-aprender, vão na contramão das pesquisas mais avançadas em educação, didática e pedagogia.

Nem a comunidade, nem os professores são ouvidos, sugerindo que o educador não passa de um mero reprodutor de conhecimento e de ideologias, aquele que executa tarefas e normas de fora pra dentro, sendo este totalmente passivo nas decisões sobre os rumos da educação decididos por políticos conservadores que não são os que vivem o cotidiano de tais reformas. Ao educador resta seguir a lógica do macaco, ou a do papagaio. A lógica dos que imitam, dos que repetem o que foi dito.

Assim sendo, o educador vê eliminado de seu cotidiano a liberdade de escolha do conteúdo e dos métodos a serem trabalhados por este, empobrecendo e desvalorizando o seu ato pedagógico. É evidente que existe uma política de uma formação massiva de profissionais com baixa qualificação, atendendo as demandas do mercado de trabalho, criando assim um exército de profissionais efêmeros formados à partir da escola, e devem ir para a sociedade incapazes de fazer suas próprias leituras de mundo, e destituídos de uma ideologia própria, acabando por acatar a ideologia dos meios de comunicação dominantes, a ideologia das classes dominantes.

Subvertamos então a ordem estabelecida na escola, já que esta, para além de um serviço, é um setor estratégico de toda uma política a quem interessa formar uma sociedade cada vez mais despolitizada, servindo aos interesses do mercado. Subvertamos as leis. As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei, nem as estrelas. Àqueles que querem a ordem e a mordaça nas escolas, nós professores, devemos gritar em alto e bom tom: meu nome é tumulto e escreve-se na pedra!

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Kauê Avanzi é mestrando em Geografia pela USP, educador no Ensino Básico, poeta e músico. Gosta de escrever, se divertir e confraternizar.

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