Aviso aos navegantes: Esse texto não é sobre esquerda, direita, comunismo e capitalismo. É sobre manter a esperança mesmo quando tudo parece estar perdido.

No início dos anos de 1970, Pepe Mujica, com pouco mais de 30 anos, era um dos líderes dos Tupamaros, grupo de guerrilha voltado a combater o Ditadura Civil-Militar no Uruguai. Mujica havia sido preso várias vezes, em uma delas foi capturado depois de levar seis tiros em uma emboscada policial. No entanto, em 1973, ele e outros sete integrantes da diretoria do grupo foram pegos pela última vez. Começava aí o período mais negro da vida do ex presidente uruguaio.

Durante quase 14 anos, os “oito”, como era conhecido o grupo de presos políticos do qual Mujica fazia parte, eram transferidos constantemente para diversos presídios do Uruguai e ficavam meses incomunicáveis. No livro “Pepe Mujica – Simplesmente Humano”, Allan Percy e o Professor Leonardo Díaz trazem um pouco do que foi esse tenebroso período.

“Em relatório de 1976 da Anistia Internacional apresentado à Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, foi citada a declaração do diretor da Penitenciária de La Libertad reconhecendo que, por não terem se atrevido a executá-los quando tiveram a oportunidade, as autoridades sabiam que, no futuro, teriam que soltá-los. Por isso resolveram usar o tempo que restava para deixá-los loucos.”

E assim o fizeram. Pepe Mujica passava quatro, cinco, seis meses trancado em um cubículo sem janela, luz, cama, colchão e vaso sanitário. Debruçado sobre as próprias fezes padecia de problemas de saúde. Tinha incessantes crises de diarreia. Seus dentes foram caindo um a um. Sofria dores, frio, medo, revolta. Nú, na maioria das vezes, tateava as paredes em busca de algo que nem ele sabia o que era.

As condições sub humanas levaram Mujica à beira da loucura. Conversava com rãs imaginárias e ouvia as formigas gritarem, contra quem gritava também. Era o fim. Os militares haviam vencido. O Tupamarano, liderança política que havia participado de ações históricas como o sequestro do agente do FBI e a Tomada de Pando, quando os guerrilheiros tomaram a delegacia de polícia, o quartel do corpo de bombeiros, a central telefônica e vários bancos da cidade de Pando, situada a 32 quilômetros de Montevidéu, tinha sucumbido. Derrotado não por armas nas trincheiras, mas pela solidão absurda de uma cela infecta.

Quando criança e, durante toda a juventude, Mujica tinha na mãe, Lucy Cordano, um exemplo de vida e perseverança. Depois de ficar viúva ela sustentou os dois filhos trabalhando na chácara da família e vendendo flores. “Era uma mulher robusta e de gênio forte”, dizia Mujica. E foi esse gênio que fazia com que Lucy tentasse visitar o filho durante todo o tempo em que ele esteve preso. Na fase mais difícil de Pepe, quando enlouquecido gritava com as formigas, a mãe levou um presente ao filho e exigiu que os guardas da prisão o entregassem. Era um penico, cuja as alças laterais eram cabeças de patinhos, utensílio mais do que necessário em uma cela que não tinha uma privada.

Os guardas, no entanto, não deixavam o penico chegar a Mujica. Quando soube do presente trazido pela mãe Pepe se pôs a gritar, implorando pelo penico. As suplicas duraram semanas até que, saturados pelos gritos, os funcionários da penitenciaria lhe entregaram o presente.

Ele se agarrou a esse artefato como uma tábua de salvação. Havia ali não apenas um utensílio de plástico, mas um resquício de vida que o trouxe, pouco a pouco, novamente à lucidez. O penico era um elo com a mãe, com a esposa Lucía Topolanski, com o mundo exterior, com os motivos que o haviam levado à prisão e, por fim, consigo mesmo.

Mujica refletia, agarrado ao penico, sobre tudo que vivera até ali. Sua luta, seus erros e os sentimentos que nutria em relação aos seus algozes. Voltava a si depois de meses de insanidade.

“Porque, se esses anos não tivessem passado e eu não tivesse aprendido o ofício de galopar dentro de mim mesmo, teria perdido o melhor de mim. Eles me obrigaram a remover o chão sob meus pés, e isso me fez muito mais socialista que antes”, disse Mujica anos depois.

Em 15 de março de 1985 os Tupamaros foram libertados. A multidão que esperava a saída do grupo em frente à cadeia não tirava os olhos de Mujica quando ele despontou porta a fora. “O que Pepe Mujica faz agarrado àquele penico?”, perguntavam uns aos outros. Mujica carregava, sob o braço, o penico de plástico com cabeças de patinho, símbolo de resistência, objeto que serviu de escada para que ele saísse do inferno onde estava cada vez mais submerso.

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Resiliência é um termo que veio da física para designar a capacidade que alguns materiais têm de absorver impactos e retornar à forma original. Para a psicologia, ser resiliente é ter a capacidade de superar momentos traumáticos e dificuldades desoladoras.

A trajetória da maioria das pessoas pode não ser tão marcante como a de um personagem histórico como Pepe Mujica. No entanto, nossas dificuldades também necessitam de uma dose enorme de coragem e, muitas vezes, da necessidade de nos agarrarmos em algo como a família, os amigos, o trabalho ou um penico.

“Mas Mujica é um personagem ímpar e é natural que ele superasse tamanha dificuldade”, pode argumentar o leitor. Mas quem, pisando sobre as próprias fezes, ouvindo formigas, imaginaria um dia governar um país e ser um dos personagens mais emblemáticos do mundo contemporâneo?

O fundo do poço é, definitivamente, um lugar indesejável. Representado pela enorme quantidade de boletos em atraso, pelos constantes fracassos nos mais diversos projetos pessoais, pelo leito de uma cama hospitalar ou por uma cela escura, ele é a verdadeira representação do desespero, do fim. Mas algumas pessoas que passaram por lá ressurgiram com tamanha força que, depois de emergirem, fica até difícil acreditar que realmente estiveram lá.

Mujica lá esteve e, essa passagem, foi determinante para que ele escolhe o estilo de vida que o consagrou como o “presidente mais pobre do mundo”. Avesso a luxos continuou morando em uma velha casa de madeira, percorrendo as ruas da capital com seu velho fusca e doando boa parte de seu salário como mandatário da nação uruguaia.

No fundo do poço não há mais espaço para vaidades ou futilidades. É um lugar de aprendizado e limpeza da alma. É lá que se percebe que tudo nessa vida é significativamente passageiro, tanto os momentos felizes, quanto os de sofrimento.

Portanto, quando as rãs se fizerem falantes e chegarmos ao limite, nos agarremos aos nossos penicos e tenhamos a certeza de que dias melhores virão.

“Aprendemos, na privação das celas, em todos esses anos, que se pode ser feliz com muito pouco e, se não conseguirmos ser felizes com isso, não conseguiremos com mais nada”. Pepe Mujica.

 

 

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José Pires

É Jornalista idealizador do Parágrafo 2. Trabalhou como repórter na Região Metropolitana de Curitiba e como Assessor de Imprensa. Dirigiu o documentário Tabaco – As folhas da incerteza. Acredita que o Jornalismo é mais do que a reprodução dos fatos mais relevantes do dia

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