João Onesko é hippie, planta flores e transforma geladeiras em fontes de leitura

Araucária, Paraná – Queria escrever uma história verdadeiramente fantástica… No início, pensei em dinossauros, depois em alienígenas, e depois em dinossauros que se transformavam em alienígenas… Continuei a imaginar até que me ocorreu algo ainda mais louco: imaginei um ponto de ônibus em que a pessoas que estavam aguardando nele começavam a ler livros que estavam dentro de uma geladeira – isso mesmo, livros dentro de uma geladeira. Eu sei que isso parece uma história do tipo “Alice nos País das Maravilhas” e ao mesmo tempo uma grande loucura, certo?… Mas antes de responder espere um pouco. Porque embora essa história possa ser tida como uma série de alucinações baratas de um autor desconhecido ou qualquer coisa do tipo, eu não minto sobre o fato de que não criei nada disso e de que, sim, esse negócio existe e foi feito por um cara que eu conheci pessoalmente… O nome dele é La Bamba.

Ver a imagem de João Eldes Onesko, o La Bamba, saindo de um corredor minúsculo com os braços erguidos dizendo “ei, primo, como está?” (e ele chama todo mundo de primo) são como o dínamo para uma viagem a uma Woodstock imaginária. Uma Woodstock cuja aura hippie parece ter escolhido residir na cidade de Araucária (região metropolitana de Curitiba). “Veio conhecer as geladeiras? Fique à vontade!”, diz ele, com um sorriso largo e de boas vindas.

Ao começar a falar sua história, La Bamba, um senhor de 61 anos que ama plantas e passa o tempo colorindo livros religiosos, apressa-se em lavar o rosto e colocar uma pulseira. “Pra ficar mais charmoso”, explica. A primeira coisa que La Bamba anuncia, e com um grande orgulho, é sobre a visita de seu único filho, Juan, de 26 anos, que veio vê-lo há poucos dias e naquele momento estava acampando com os amigos em Ponta Grossa. La Bamba não esconde a felicidade que vive em ter a visita de Juan: ele chega com uma caixinha e me mostra todas as fotos do rapaz. Exibe os livros de agropecuária que guardou especialmente para o filho e todas essas coisas de pai coruja… Mas La Bamba teve de interromper repentinamente o assunto porque uma aranha pulou do meio dos livros e foi em sua direção no meio da cozinha, como se quisesse atacá-lo. “Essa é marrom”, alertou, depois de esmagar a coitada com um pisão de chinelo de dedo.

Não sei se este é exatamente um bom momento para fazer um elogio, mas preciso dizer que La Bamba é um bom anfitrião. Nesse sentido, o cara é gente boa de verdade. Mesmo já estando tarde, ele me oferece um pouco do seu almoço, uma marmita que recebe como parte do pagamento pelo trabalho que faz como manobrista num restaurante de um amigo. Todos os dias, exceto na segunda, trabalha das 11h às 14h, levando carros pra lá e pra cá. Trabalho no qual chega a tirar  120 reais por semana. “A marmita é grande”, diz ele, me mostrando o conteúdo. “Também garante a janta”.

La Bamba mora sozinho numa casa pequena com quarto, banheiro e cozinha. O espaço tem umas coisas improvisadas como o fogão de duas bocas que foi colocado sobre uma caixa plástica e fica do lado do botijão. “Uma loucura isso, cara”, pensei. “Pode explodir o barraco”. Mas depois entendi que o botijão fica dentro de casa porque ainda é a melhor forma de se evitar que o gás seja furtado, à noite, pelos malandros.

A casa de La Bamba emana uma energia que é difícil de explicar. Na entrada, onde fica a cozinha, há o que ele chama de altar. É como se fosse um mini templo, que ele mesmo fez e que ocupa um espaço considerável, deixando claro que La Bamba é um sujeito religioso. Há bíblias por todo canto, em várias versões, inclusive inglês, e no meio do altar tem um quadro de Jesus Cristo, ornado por figuras religiosas, e iluminado por umas luzinhas verdes em led. Chega a ser bonito aquilo lá, de verdade. Há mensagens bíblicas e fotos da família e do passado do La Bamba por todo canto e essas coisas dão harmonia ao ambiente, sobretudo quando se começa a prestar atenção nas cores dos cômodos. As cores da casa são bem vivas: o assoalho é rosa, as paredes pintadas na horizontal de verde e amarelo, a porta é marrom, e tudo isso combina perfeitamente com a cadeira de praia colorida. É lógico que não há luxo. Os móveis são bem simples e dentre as coisas que La Bamba mais gosta está o rádio Lenoxx, uma caixa potente dividida em três alto falantes e que também tem várias luzinhas piscantes. Tudo parece brilhar e piscar na casa do hippie. E La Bamba parece muito feliz quando me mostra todas as coleções de CDs que ele tem guardado numa caixa de papelão. É simplesmente sensacional. “Tenho a discografia completa do Raul Seixas”, diz ele, virando demoradamente o porta CDs e mostrando os discos do Creedence, Beatles, Chrystian e Ralf (isso mesmo, Chrystian e Ralf) e vários sons dos anos 70 e 80.

Uma das coisas que mais me impressiona durante a visita é que, ao mostrar o rádio, La Bamba encara o aparelho como se pudesse reviver o passado. Sabe como? Ele fica parado olhando fixamente para o Rádio com a boca entreaberta, parecendo estar hipnotizado. É muito maluco ver como ele fica fascinado olhando por tanto tempo para o aparelho quase a ponto de começar a babar. E é uma pena que ele não possa erguer o volume no máximo e fazer com que tudo em volta comece a imergir para dentro da aura hippie como um pequeno buraco negro de uma casinha em Araucária que transporta tudo para dentro dos anos 80 com direito a Raul Seixas e todas as lendas do rock clássico.

La Bamba paga duzentos reais de aluguel por mês e goza de certa fama na vizinhança. Todo mundo conhece o cara que coloca chapéu de safari e usa dois óculos ao mesmo tempo. Um sujeito espontâneo, com camiseta dos Backstreet Boys, corrente com símbolo de paz e amor no pescoço, calça jeans básica e chinelão de dedo. Todo mundo conhece o cara que andou colocando geladeiras cheias de livros nos pontos de ônibus da cidade de Araucária e que improvisou um bagageiro de madeira na velha Monark para poder transportar os livros.

E chega a dar uma angústia ver o La Bamba andando de lá pra cá dentro de casa, de modo elétrico, como se estivesse ligado na tomada, às vezes parando na porta da cozinha e tentando erguer o braço direito, dando uns gemidos de dor e falando “viu, primo, isso é bursite” e depois levantando o braço esquerdo perfeitamente, a fim de me convencer de que um dos seus braços ainda está bom. E logo em seguida ele vem e me mostra o colete que usa para firmar a coluna quando suas costas começam a doer. No entanto, mesmo com todos esses desafios impostos pelo próprio corpo, essa máquina que também começa a se desgastar com tempo, e apesar de La Bamba se queixar um pouco dos problemas de saúde – não sei se é pelo jeitão extrovertido e sorridente – mas sei que, apesar desses problemas, é sério, ele não parece ter 61 anos. A alma dele ainda é jovem.

Enquanto La Bamba me contava sobre seus pais, seu nascimento em Telêmaco Borba (uma cidadezinha que sempre parece se pronunciar Telema Cobórba) e falar sobre as decisões de se tornar hippie, formar uma banda e como a música “La Bamba” fez com que ele ganhasse o apelido e essas coisas mais, olhei rapidamente para o cigarro na prateleira da cozinha. Era de uma marca desconhecida, chamada Mix, e denunciava os seus 45 anos de fumante. Hoje, La Bamba consome uma carteira por dia e não se importa com o vício, mesmo porque ele cita que sua mãe e avó morreram fumando e dessa forma não é o tabagismo que iria intimidá-lo. O verdadeiro medo de La Bamba parece ser mesmo retornar à bebida. Ele conta que teve de ser internado três vezes antes de conseguir parar com o vício, e narra com seriedade os impactos que o álcool lhe causou no passado.  “A bebida é uma cascavel, primo. Ela está ali, enrolada, pronta pra atacar. Se você não mexer com ela, pode passar perto que não tem problema, só não pegue no rabo dela”. E, ao lembrar do período de luta, La Bamba acaba revelando uma informação impressionante: “fui detido 27 vezes por causa da cachaça”. “Vinte e sete vezes?”, eu pergunto, não acreditando. E ele confirma o número, dizendo que já era íntimo do delegado e o promotor da cidade. Uma figura que de tão conhecida já chegou a ser apelidada de João Canabrava.

Logo que acorda, La Bamba fuma um cigarro, sua primeira ação pela manhã. Depois prepara o café e rega as plantas do jardim que ele mesmo fez em frente ao ponto de ônibus, com pneus e vasos sanitários velhos que ele transformou em belos vasos de flor. É um jardim bonito, que dá vida e cor ao ponto de ônibus. E foi nesse momento, contemplando aquele jardim, que me ocorreu a dúvida de saber se haveria no país outro ponto de ônibus com um jardim como o que La Bamba fizera em Araucária. Será que existe?

La Bamba gosta de flores, e flores invariavelmente lembram romances. Foi aí que perguntei a ele sobre os relacionamentos. Um campo que parece não ter sido muito legal para o hippie e que poderia explicar porque ele vive sozinho. La Bamba alega ter vivido experiências frustrantes, em relações tempestivas e de curta duração. Viver sozinho foi uma escolha. “Escolhi não ficar mais com ninguém, primo. A vida não é como a gente quer, e como diz o velho ditado: antes só do que mal acompanhado.” No entanto, a solidão de La Bamba acaba quando um beija-flor vem lhe visitar. O pássaro surge no momento em que ele se preparava para pegar o violão. A ave, que voltava a cada cinco minutos para bebericar a água colocada na janela, era um serzinho intrépido e deixava claro que conhecia o hippie de Araucária.

Antes de ir embora, não pude deixar de pedir a La Bamba que tocasse alguma coisa no violão que eu havia visto no quarto dele. Não pedi nenhuma música em particular porque sabia que assim ele ficaria mais à vontade para tocar o que quisesse. La Bamba ajeita a cadeira de praia, arruma o chapéu de safari, calça uma bota e, sem precisar de qualquer afinação, começa a dedilhar as cordas de aço do Giannini, tocando uma rápida introdução castelhana a “la Paco de Lucía” para, então, iniciar uma canção profunda, que eu não conhecia e que mais tarde soube se tratar de A Casa Di Irene, música de Nico Fidenco, da qual gostei muito. La Bamba toca como um verdadeiro profissional e não se desconcentra nem mesmo quando uma conversa paralela alta entre vizinhos invade o recinto. Quando passa de uma música para outra, o hippie solta um sorriso espontâneo, capaz de transmitir uma energia positiva, principalmente depois que ele se empolga e arrisca a cantar um Guns N’Roses exibido, executado logo depois de ele cantar “Batendo na Porta do Céu”, de Zé Ramalho, para, enfim, terminar na famosa La Bamba, de Ritchie Valens – sua gênese.

Após tocar a sequência de músicas, La Bamba levanta e começa a passar um óleo de argan com copaíba no corpo. Isso ajuda a aliviar as dores na coluna que o impedem de conseguir novos trabalhos. Ele também volta a se queixar da bursite no ombro direito. “Tá complicado, primo. Não posso dirigir e não posso fazer pintura”… Em breve, o hippie de Araucária espera conseguir se aposentar por invalidez. Ele diz que irá procurar ajuda e me mostra o cartão de uma advogada que, segundo ele, poderá ajudá-lo.

La Bamba é o tipo de sujeito que sabe o que quer. Sorridente, diz que se considera um sujeito muito feliz. “Eu me criei sem pai, primo. Das famílias de Telêmaco Borba éramos a mais pobre… Me acostumei a viver na miséria, entende? Quando chego no restaurante onde trabalho tem 18 tipos de saladas e 21 tipos de carne; mas pego feijão, arroz e uma carne. Não vou me arrebentar por causa de dinheiro. Você não pode ser escravo do dinheiro. O ser humano é capaz de viver com o mínimo múltiplo comum”… Fiquei refletindo sobre essa frase por um bom tempo.

Finalmente, chego ao tema que me fez ir conhecer o La Bamba: as tais geladeiras literárias. A história das geladeiras surgiu há quase dois anos, exatamente quando ele ganhou uma geladeira de seu vizinho que morava nos fundos do terreno. La Bamba já tinha uma geladeira em casa e, assim, teve a inusitada ideia de enchê-la de livros e colocá-la no ponto de ônibus, localizado em frente a sua casa. Improvisou um suporte de madeira, pôs todos os livros que tinha e deixou o aparelho sob o ponto de ônibus, aguardando por leitores. Imediatamente registrou sua criação e escreveu sobre o metal branco: “25/10/2015, La Bamba” – aquele seria o primeiro dia de aplicação do seu experimento. “O primeiro pai é o Criador, o segundo é o biológico e o terceiro é o livro”, diz ele. “Não tem para onde correr, se você quer aprender, tem que ler”.

Após encher de livros os aparelhos, La Bamba escreveu frases nas geladeiras, com coisas do tipo “pegue, leve, leia”, “tem que ter cultura para cuspir na excultura”, e até simulou a súplica de um livro que diz: “ei ‘eu queria ir com você, me tire daqui’”…

A experiência havia começado, restaria apenas aguardar a reação das pessoas.

Tempos mais tarde, La Bamba recebeu outra geladeira, e colocou-a em outro ponto de ônibus, a quinhentos metros da primeira. O transporte dos livros foi feito com a bicicleta cujo bagageiro ele havia improvisado com uma caixa de madeira.  A ideia estava avançando. E não demorou para conseguir mais um eletrodoméstico, que decidiu colocar no Parque Cachoeira.

Os livros estavam lá e eram a faísca que faltava para atrair mais pessoas para o mundo das letras.

Inicialmente a ação de La Bamba atraiu a atenção da mídia local e isso até o fez relativamente famoso por algum tempo, inclusive recebeu elogios da prefeitura da cidade e de seus vizinhos.

Hoje, no entanto, os aparelhos parecem apenas disputar o espaço de espera com os passageiros. Eu queria muito finalizar a história dizendo que a iniciativa de La Bamba acabou sendo um sucesso e que o projeto se espalhou pela cidade e foi compartilhado por muitas pessoas num efeito massivo de disseminação da cultura – mas eu estaria mentindo. Não consegui ver ninguém abrindo as geladeiras. E as poucas vezes que fiquei observando o comportamento das pessoas, ou as geladeiras eram ignoradas ou pareciam estar concorrendo espaço à sombra do ponto do Estação com os passageiros naquele sábado de sol escaldante. Sem patrocínio e outros incentivos, as geladeiras estão em decadência, carcomidas pela ferrugem e servindo como painel para anúncios locais, como adesivos de shows e coisas do tipo. Comportam poucos livros e quase não têm nada de literatura, apenas algumas revistas ruins daquelas que a maioria das pessoas pensa em se livrar. Mas, apesar disso, já houve um tempo em que bons títulos apareciam. “Já peguei um livro do Manuel Bandeira”, comenta o designer Diego Carneiro, de 26 anos, que já tomou de empréstimo um livro da geladeira. Por outro lado, Camila da Silva, de 29 anos, que pega ônibus no ponto do Estação há mais de 5 anos para ir ao trabalho, confessa que nunca leu nenhum livro da geladeira literária. “Acho a iniciativa bacana, apesar de nunca ter lido nenhum livro da geladeira, mas meus filhos já leram, certa vez”. Camila não conhece La Bamba e afirma ser um mistério para ela como aquela geladeira foi parar lá no ponto.

Apesar da tentativa e do esforço em reunir geladeiras com livros e improvisar até mesmo o meio de transporte na bicicleta, La Bamba parece ter acendido um fósforo numa fogueira de gravetos molhados. “Pra conseguir mudar qualquer coisa você precisa ter dinamismo, e para mudar as coisas precisa de ajuda do próximo, e contar com ajuda do próximo não é fácil”, finaliza o hippie, que ainda espera o combustível que o ajude a aquecer a sua chama literária.


Beija-Flor (Vídeo de Diego Carneiro)

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Jesse Gomes

Jesse Gomes é escritor, autor de "A Trajetória dos Condenados". Trabalhou em revistas e passou brevemente pelo jornal Gazeta do Povo. Vê nas palavras uma forma de transformação social.

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