Parece engraçado e até retórico o que eu vou falar. Mas mesmo o Crioulo falando que SP não tem amor. Foi aqui nessa selva de pedra, poluição e sindicatos que só defendem a si mesmo, que eu encontrei a mulher da minha vida.

Não foi como num conto de fadas, nem num passeio em um lindo dia de sol pelo Ibirapuera, na verdade, era muito longe disso. Não chegou a ser um encontro no Cerveja Azul, regado a vodka que custa o exorbitante preço de 5 reais a carreta, e serve pra desinfetar latrinas e desentupir pias desativadas desde a era mesozoica. Mas também não foi num Paris6 da vida.

Eu a encontrei, ou ela me encontrou, num pub da 13 de maio. Meu lugar favorito no mundo todo. Tá quase favorito, festivais e motéis ainda dividem o primeiro lugar desde sempre. Mas voltando a ela, eu estava no bom e velho pub Alkatraz , na minha famosa “batmesa” no “batlocal”. Comemorava meu aniversário. Estava mais bêbado que um gambá em um canavial… (Aôoo Pau doce) …. Cercado pelos meus bons amigos, e algumas pessoas que eu definitivamente não sei quem eram, mas estavam nas fotos, tipo o cara de muletas que conversou com todo mundo e ninguém sabe de onde veio.

Ela estava com uma amiga, lá em baixo, com aquele cabelo castanho na altura dos ombros, um sorriso que cegava, magra e elegante em sua calça jeans justa, camiseta branca com estampa do Compadre Washington, que  dizia : “Sunday she won’t go”. E uma jaqueta de couro preto, (São Paulo faz um frio do caralho em maio). Tudo isso aliado a uma garrafa long-neck de Heineken.

O garçom esqueceu de abrir e ela estava com cara de: “puta merda, onde eu vou abrir essa porra? ”. Eu estava indo ao banheiro e percebi ela tentando abrir a garrafa no corrimão da escada. E como bêbado é uma desgraça, eu sempre carrego comigo um abridor de garrafas que na verdade é o meu chaveiro… Entreguei o chaveiro pra ela e sai andando como se nada tivesse acontecido, só que minhas chaves estavam no chaveiro. E não, não foi proposital. Eu estava bêbado mesmo, e não tinha a menor esperança de ter chances com ela.

Ela sorriu pra amiga e ficou esperando eu sair do banheiro, quando eu passei por ela, agarrou meu braço e falou:

– Obrigada pelo abridor, mas o que eu faço com as chaves que vieram junto?

– Sei lá, abre a porta da nossa casa…

– Muito gentil, mas não vou casar com você sem nem saber o seu nome.

– Meu nome, depende do dia, mas você pode me chamar de Kaká.

– Ok, Kaká, mas as chaves são suas. Pega aqui…

– Eu sei que a gente acabou de se conhecer, mas não quer subir? Tomar alguma coisa e conversar melhor. – Apontei para a batmesa. – Você também menina, ali é tudo uma grande família. E vai ter bolo, eu vi um bolo em algum lugar.

Ela caiu na risada e mesmo sendo burro como uma porta, e mais desligado que um rádio AM no fundo de algum porão de velha. Eu percebi que ela poderia estar me dando uma chance de alguma forma. E ela subiu, a amiga também, mas a gente não tá falando da amiga dela.

Pedi uma água com gás bem gelada, precisava ser um Jedi do papo e pra isso a cachaça precisaria estar em um nível menor no corpo. O papo desenrolou bem, e pra minha surpresa e sorte, afinal eu prometi, teve bolo. E enquanto meus amigos cantavam um parabéns todo torto. Com direito a clássica estrofe: Tá na hora de apagar a velhinha, vamos cantar aquela musiquinha… Ela falou no meu ouvido que ia me dar um presente, e me lascou um beijo, daqueles que fazem o mundo perder a rotação, e os beijos Hollywoodianos parecerem encenação infantil amadora. Marcando minha boca com o batom vermelho e gritando viva aos noivos dos meus amigos tão ébrios quanto eu. E mais risadas daquela boca linda.

Ficamos durante mais uma hora, e ela foi embora, mas deixou o telefone, e pra minha sorte eu achei o contato dela na minha agenda na manhã ( ok, na tarde daquele dia). E pra minha sorte maior ainda, ela morava perto de mim.

E hoje enquanto conto isso pra vocês, ela está terminando de se maquiar no meu banheiro. É que eu não fui o único que se deu bem a dois anos atrás. A amiga dela vai casar com um dos meus amigos, e nós vamos ser padrinhos.

Então o que eu posso te dizer é que além de existir amor em SP só pra contrariar o Crioulo, um chaveiro pode causar uma história de amor.

 

 

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