Por Adeline Bordin

Era uma quarta feira chuvosa quando nos encontramos no Café do Paço da Liberdade. Ao chegar encontrei com uma Silvia muito colorida, com seu turbante, colares e lenços. Ao lado Marcelo, um dos colegas que seriam entrevistados junto com a artista plástica. Esperávamos ainda pelo irmão Willian e a amiga Triana. Pedimos um café e começamos a conversar.

“O futuro dela enquanto artista é tão imprevisível quanto ela mesma é uma pessoa assim, imprevisível”. Esse é o apontamento que Marcelo, amigo e curador, faz sobre a trajetória artística de Silvia Zyla. Um pouco antes de chegar a essa conclusão ele dizia que é maravilhoso que ela não se sinta realizada, porque assim continua a crescer e a desenvolver. “Silvia é uma artista, que no meu ponto de vista, pode se sentir realizada”, diz ele.

Os dois se conheceram na Faculdade de Artes do Paraná (FAP), cursaram uma única matéria juntos, videoarte. Uma disciplina que Silvia não terminou, deixando o colega receoso de que o jeito com que a tratava, sempre implicando com ela, pudesse ser um dos motivos que a fizeram abandonar a turma. Ela explica que não, nessa época estava cursando matérias em períodos diferentes na faculdade. Dava aulas de Artes em uma escola pública. “A realidade na escola era bem diferente de toda didática que a gente via na sala de aula. E além disso eu morava muito longe de tudo”.

Silvia concluiu a faculdade em 9 anos. Diz que não se adaptou, achava que seria muito libertário estar na faculdade de Artes e não foi bem isso que aconteceu. Também lembra ser de sua natureza não gostar disso de bater ponto. Entre idas e vindas se encontrou na academia, quando pode escrever sobre seu trabalho, falar sobre suas referências e assim fortalecer seu projeto.

Meu jeito de vestir reflete meu jeito de ser, e as pessoas dizem que eu sou alegre. E eu sou assim mesmo, procuro não ficar muito tempo em um estado depressivo, eu corto o negativo da minha vida. Durante a doença foi assim também, procurei ficar sempre otimista.

Projeto que a acompanha desde as primeiras memórias. Junto ao irmão Willian, que acabou de chegar ao nosso encontro, explorava os quintais da casa no bairro São Brás onde nasceu e viveu por 18 anos. Atualmente Silvia está morando em Quatro Barras. Vai completar 33 anos e diz que algumas vezes o silêncio da cidade em que mora a invade, tornando tudo vazio.  No terreno da casa da infância levantava tijolos para encontrar insetos e micro animais. Sua primeira referência de belo (belo na arte) foi a estante de casa, com suas enciclopédias e bíblias ilustradas.

Willian chegou já dizendo que quando criança gostava de ter uma irmã desenhista. Ela o ajudava nos deveres da escola, mas ele também sabia que existia algo especial naquilo tudo. “A arte dela transcende o entendimento de uma pessoal normal como eu, mas eu gosto muito do trabalho dela, é inspirador”.

Triana, Silvia e Marcelo ao lado da obra “A dança azul”.

A última a chegar, quando já terminávamos nosso café, foi Triana. Silvia também a conheceu na FAP, quando voltou a estudar depois de ter abandonado a turma do Marcelo. Aliás, não tinha mais visto Marcelo até o dia em que Tom, um colega de Triana os chamou para comer um macarrão na casa de um amigo. O amigo era Marcelo. As garotas estavam pelo centro e Marcelo mora em uma apartamento na lateral do Paço da Liberdade. Estamos agora no café ao lado de onde toda a parceria começou.

Quando Silvia chegou Marcelo logo a reconheceu. “Eu falei: Péra, eu conheço você! Ela antes usava um cabelo Black e agora estava careca, mas era a Silvia da faculdade”.

Nessa mesma noite Silvia mostrou aos amigos alguns desenhos que carregava. Algumas miniaturas que encantaram Marcelo. Para ele é nas miniaturas que ela é mais Silvia. Ele diz que  a mente dela se expande muito e que quando ela faz uma miniatura,  consegue colocar no papel todos os detalhes que compõe o universo complexo dos pensamentos que carrega.

Triana enfatiza que Silvia é muito criativa e com toda essa criatividade às vezes ela sai do foco. “A gente chegou para dar esse suporte na parte da arte com a qual ela ainda não estava adaptada. A gente separou, catalogou, emoldurou os desenhos e começou a organizar as coisas”. Mas um fato Triana não pode deixar de elogiar. “A Silvia tem um ritmo de produção admirável. Ela desenha algo novo todo dia. Onde ela está, ela está desenhando. “Ela é uma desenhista compulsiva”, completa Marcelo.

Em 2016 foram ao menos cinco exposições individuais, e várias participações em mostras coletivas. Algumas de suas obras podem ser vistas até julho no espaço Misse Maria Comida e Arte. Tanto Marcelo quanto Triana concordam que ela já é uma artista de sucesso. O irmão espera que esse sucesso possa ser reconhecido financeiramente também. Silvia só quer ter um ateliê. Onde possa esparramar suas coisas sem a  preocupação de estar ocupando espaço, sem precisar interromper seu trabalho com outras coisas. Reclama um pouco também ao dizer que agora tem estado mais desorganizada e ao mesmo tempo prestando mais atenção nesses pequenos rituais.

Eu pergunto o que a tem deixado assim. Ela conta que nesse tempo da faculdade também passou por um problema sério em relação a sua saúde. Quem a vê toda colorida, com o sorriso largo que carrega no rosto sequer imaginaria. A Silvia empoderada, do autorretrato na bicicleta, teve dois linfomas. Um que atingiu o tórax, e outro que atingiu o sistema nervoso central, do lado esquerdo do cérebro. “Fiz tratamentos pesados de quimio e radioterapia, fiquei com algumas falhas, não de cognição, mas alguma perda de memória, de espacialidade. Aparecem mais quando estou nervosa, mas eu percebo que perdi um pouco da velocidade de leitura, por exemplo”. Nesse momento a fala é bem pausada. Como se essa parte de sua história, pertencesse a um outro tempo.

“Meu jeito de vestir reflete meu jeito de ser, e as pessoas dizem que eu sou alegre. E eu sou assim mesmo, procuro não ficar muito tempo em um estado depressivo, eu corto o negativo da minha vida. Durante a doença foi assim também, procurei ficar sempre otimista. Eu amo viver e meu trabalho retrata essa relação de amor que eu tenho com tudo que está no meu trajeto”.

Ao falar isso acreditei já ter material mais que suficiente, contudo a vida das pessoas é sempre mais. O irmão Willian pediu pra falar mais uma coisa. Reforçou toda a inspiração que Silvia provoca naqueles que estão ao seu redor, em como ela serve de exemplo quando ele está desmotivado. Relembra histórias de infância no quintal de casa. Falam de lagartixas, minhocas, insetos, flores e pássaros. Temas tão presentes no trabalho de Silvia. Ela não se contenta com o lugar definido paras coisas no mundo. Transforma lagartixas e lagartos em músicos, pendura mulheres e televisões em varais. Faz de um quebra cabeça o pano de fundo pra um universo que não cabe em si mesmo e se materializa na arte.

 

 

 

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Adeline Bordin

Adeline Bordin é estudante de Jornalismo. Bolsista do programa de iniciação científica que trabalha com o tema Mídia e Migrações. Faz parte da Associação dos Blogueiros e Ativistas Digitais do Paraná. Tem o jornalismo como paixão e acredita que a revolução começa pela democratização da mídia.

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