Quando entramos no palco do Teatro Novelas Curitibanas os atores em cena recebiam o público que chegava para a estreia da peça Por Um Lindésimo de Segundo que celebra a vida, a obra, as canções e a palavra do poeta Paulo Leminski. A essência do poeta nos brindava com a presença e a quebra da parede que separa público e ator, sonho e realidade. Como diz Paulo Teixeira, guitarrista e parceiro do poeta curitibano, estávamos no porão de Leminski entre poesia e riffs de guitarra, na intimidade do bandido que sabia latim e nós como espectadores dessa efígie “ser-(mos) um poeta maldito, a massa sofrendo enquanto eu profundo, ou nós, medito” ou deleito.

Não entendia se estava numa peça de teatro, num show ou entre amigos celebrando a semana difícil que passou, o amor “que me deixou um buraco no coração” ou mesmo dos problemas que “tem família grande e aos domingos saem todos a passear o problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas”. No ressonar final do acorde de  cada canção recolhíamos as mãos no colo, ou, efusivos assoviavam e batíamos palmas, era uma dúvida boa, tanto que em algumas canções o público se desprendia do natural curitibano de ser e cantava.

Para Leminski “gostamos de música baiana, escritores mineiros e de filmes americanos e italianos”, defensor da cultura da cidade e das manifestações artísticas um grito “tudo feito, tudo estivesse no cio, tudo pisando macio, tudo psiu, tudo em minha volta anda às tontas, afinal de contas?”, a escrita traz dúvida, consterna, contempla ou apenas não passa de um poema?   Contemporâneo o escritor de textos breves nas vozes melodiosas dos atores e acompanhados pelo amigo Paulo Teixeira ao piano preenche o restante da cena, claro, com harmonia. Pois, o restante já estava ali, a palavra.

 

A direção de Mauro Zanatta se completa com o arranjo coerente de luzes na operação e Desenho de Luz de Robison Tocera e Lucas Amado e no Som de Cleverson Spindola. O cenário da peça de Cris Conde leva o público para os anos 70, uma década prolífica da contracultura, do movimento Hippie, do amor livre e dos solos de Jimi Hendrix, músico que Leminski tentou ligar, mas segundo Paulo o poeta sempre tão apressado foi pessoalmente ao seu encontro.

A peça musical Por Um Lindésimo de Segundo, baseada na obra de Paulo Leminski é uma aproximação intimista à vasta obra do poeta, as cenas trazem trechos de poemas, crônicas e falas do artista, permeadas por um repertório de músicas compostas em parcerias com Ivo Rodrigues, Pedro Leminski, Gabriel Teixeira, Aaron Ramathan e Paulo Teixeira, dentre trabalhos clássicos e inéditos.

O espetáculo, em 2016, circulou por 12 cidades do estado do Paraná por meio do Circuito Cultura SESI com recorde de público, estando presente no mesmo ano na programação do 26º Festival de Inverno da UFPR, em Antonina. Os atores que compõem o espetáculo Aaron Ramathan, Yara Rossato e Gabriel Teixeira buscam dar cor e som à poesia imprimindo sonoridade e delicadeza a palavra cantada, a peça fica em cartaz até o dia 16 de julho no Teatro Novelas Curitibanas, com entrada franca.

Ao final levantei da cadeira e o encanto se quebrou “era um mundo tão bonito caprichado de milagres, Deus gostava de Florir”, sai pela porta afora desci a Rua Carlos Cavalcanti pela São Francisco e parei no primeiro bar e me embriaguei com a ideia fixa “Salve-se quem quiser, Perca-se quem puder”, pois “vejo nos teus olhos tão profundo, as durezas que este mundo te deu pra carregar, vejo também que sentes que tem amor para dar”, obrigado Leminski.

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Mario Luiz Costa Junior

Iniciante, recém chegado do jornalismo moleque. Estilo namoradinho da verdade. Charmoso e dengoso nas letras. Deambulante da desinversão da pirâmide invertida. Ativo e passivo no lead e sub-lead. Não dispensa 'A história da minha vida' com Renato Gaúcho.

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