Como a jornada da Trilha Inca juntou meus cacos e criou um belo mosaico. Na alma. No espírito. Na mente.

Foram quatro dias subindo as montanhas magníficas do Peru. Nem com toda a imaginação esperava ver cenários tão delicados e imponentes quanto os que presenciei. Nem nos mais inspirados sonhos poderia fantasiar os sentimentos que experimentei a 4.215 metros de altitude. Não houve banho, houve muito suor e esforço. E houve um aconchego inexplicável.

Lá em cima, é como se a natureza do lugar estivesse abraçando você. É mágico, é cômodo, é tranquilo. E para mim, foi remédio.

O poder da Trilha Inca | Uma das rotas criadas por Pachacutec

Trilha Inca, ou Inka Trail para os gringos, é a responsável por ligar Cusco até a misteriosa cidade perdida, Machu Pichu. Como li em um material da Llama Path, reforço aqui: a Trilha Inca é para a mente, e não para os pés.

Phuyupatamarca, o templo acima das nuvens. Passamos por ele no terceiro dia da jornada.

São 45km que fazem parte da antiga e fantástica rede de comunicação do Império Inca, a qual avança por boa parte da América do Sul. A distância de 45km pode parecer curta, se não fosse bem íngrime.

Você respira pouco devido à altitude, fica ofegante, cansa rápido e literalmente despeja suor.

O caminho percorrido é o mesmo que os Incas chaskis faziam, correndo entre precipícios e pontes, com mensagens consideráveis a ser entregues para o imperador. Foi inteiro pavimentado pelos Incas, pedra sobre pedra. Durante a jornada – que ora está acima das nuvens, ora está ao lado de uma bela cachoeira e sempre entre montanhas exuberantes -, conhecemos sítios arqueológicos incríveis. A arquitetura Inca é no mínimo inquietante e basta um pouco de sensibilidade para sentir a energia desses locais.

Afinal que tipo de sociedade preferiu construir nos terrenos instáveis das montanhas do que em solos retos? No mínimo uma sociedade altruísta. Com valores bem elevados. E isso fica bem claro quando você conhece os peruanos. Uma gente colorida, risonha, alegre, artesã, criativa e cheia de vida.

Grandes amores eu vi. E senti. Achei que estava feliz antes de partir para a Trilha. Engano. Lá, me despi de mim mesma e pude me remontar.

Rio Urubamba visto de Phuyupatamarca. Encontrou-se um altar inca enterrado entre as rochas do rio. Ele percorre o Vale Sagrado e faz parte da bacia do Amazonas.

O efeito Pachamama

Fomos em um grupo de 13 pessoas e a equipe de apoio: 11 americanos, 3 brasileiras, 2 guias peruanos e o time de porters e cozinheiros da Llama Path.

Quando comecei a subir a primeira montanha, estava deslumbrada. Pisei em falso alguma vezes, esqueci da regra de não andar ao lado do despenhadeiro, sorri e sorri muito, fascinada.

Porém é preciso foco, determinação, respiração consciente e muita mente no lance! Além da boa condição física, claro. Então me concentrei, me aquietei e percebi que todo o grupo compartilhava a mesma vibração.

 Mas brasileiro é brasileiro e não resisti. Dei uns gritos para Pachamama. Em Quechua, el idioma de los Incas, Pacha significa Terra. Logo, podemos chamar Pachamama de Grande Mãe, que envolve e une todos os seres.

Aproximar-se do céu, estudar a agricultura e engenharia, fazer rituais sagrados e adorar o Sol, são alguns dos motivos pelos quais parte desse povo andino viveu tão acima do que nos parece comum. Talvez por absorver essas razões, talvez por estar encantada, talvez por necessidade, aos poucos fui me desconectando do mundo externo e no andar silencioso e íntimo, pude me observar de forma panorâmica. Sem relógio, sem pressa.

Assim…devagar e progressivamente respondi todas as minhas inquietações. Tudo que me incomodava ou me trazia algum tipo de angústia foi se despedaçando enquanto eu andava. Foi mágico pensar a existência nesse cenário e por sorte ou destino, havia com quem conversar profundamente vez ou outra, num processo de interiorização realmente transformador.

Respira. Fundo. Um passo de cado vez e chegamos lá

O ponto mais alto que atingimos foi o cume da Dead Womam, logo no segundo dia. Quando estávamos próximos do pico, notei que as nuvens estavam abaixo de nós. Você acostuma andar entre nuvens mas quando as vê abaixo dos seus pés, é surreal!

Percebi o quanto estava cansada e ofegante. A exaustão define o momento. Mas não há opção: ou você sobe, ou você sobe. Então é preciso galgar no máximo dez passos curtos. Pára. Descansa. Inspira. Expira. Looonga respiração.

Você mira seu objetivo e a alternativa é uma só: precisa chegar lá! Aí você passa a dominar o seu corpo e sua mente. Tudo para conseguir.

No cume da Dead Woman. Muy cansados, pero muy felizes.

Ao estar na altura máxima, senti que nada mais poderia me trazer medo ou receio e que melhor ainda: uma gigante auto confiança havia sido recarregada. Estava num nível que jamais senti. Claro como água, meu pensamento foi de que aprendi uma lição que serve para qualquer situação, de qualquer indivíduo: um passo de cada vez, pára, inspira, expira, enxerga teu caminho e vai.

 A essência daquele local tomou parte de mim. Sou outra agora, mais preenchida. Descortinei o que tinha escondido.

A alma raiz dos peruanos

Aníbal Alegria Duran, à esquerda, com quem tive conversas interessantes sobre a vida, as escolhas, a família e o universo inca, e de quem recebi considerável apoio nos momentos mais fatigantes. É chamado de “Profe” pelos porters, já que lhes ensina sobre astronomia, inglês e História. Daniel Amache Loncone, à direita, sempre sorridente, de inteligência incrível, ensinou muito espanhol, quechua e tem a habilidade rara de unir as pessoas. Na foto, os Guias responsáveis pela expedição explicavam a Chakana, a Cruz Andina (ou Árvore do Mundo) que é caminho para o mundo superior, o Hana Pacha.

Sim, os peruanos são raiz.

Carregam na bagagem a cultura inca como princípio, misturada com a de seus invasores espanhóis. Se não bastasse essa bela mistura, absorvem diariamente doses culturais de todo o mundo. Afinal, visita é o que não falta no país. O resultado é muita hospitalidade e a culinária mais misturada que já se viu. Sua essência pode ser facilmente observada nas tranças das bonitas mulheres, que de saião (lindos saiões!) andam de chapéu e os cobrem com plástico quando a chuva chega.

É comum aos domingos notar as famílias levarem os niños para os museus locais e contarem a história do grandioso Império enquanto sorriem para quem os cumprimentam.

Após passarmos o Sun Gate. Ainda faltava cerca de meia hora para enfim chegarmos a Machu Pichu.

Tem vontade de conhecer o Peru?

Com as parceiras dessa viagem, Dandy e Gaby Passuello, produziremos um material com dicas. Também contaremos com a ajuda da Paty, brasileira que conhecemos lá e se tornou nossa parceira.

Tá afim de aventurar-se na Inka Trail?

Vá! Mas antes vamos escrever outro texto, em português, para você saber como entrar nessa jornada. A Inka Trail é uma aventura de trekking e uma oportunidade tamanha para quem tem vontade de iniciar em montanhismo mas quer antes testar a vibe. Foi minha primeira e talvez por isso tenha sido tão intensa. Vá você também.

Machu Pichu, a cidade sagrada dos incas, é bem extensa, muito maior que do imaginava. De lá, fomos de ônibus até Águas Calientes e partimos de trem, de volta para Cusco.

Atenção aos itálicos do texto:

  1. Llama Path: empresa sustentável que opera o trekking da Inka Trail. Tem uma história muito bacana de respeito com seu povo, é uma das mais antigas e os guias são ótimos. Tem várias opções de trekks, veja aqui.
  2. Chaskis: assim eram chamados os mensageiros incas. Tinham que ser velozes e muito bem preparados para correr entre as montanhas carregando as notícias e mensagens.
  3. Pachacutec: imperador Inca que vislumbrou Machu Pichu e que possivelmente ordenou sua construção.
  4. Dead Womam: a montanha mais alta da Inka Trail 4 Days. Tem esse nome pois quando avistada de longe, lembra a silhueta de uma mulher.
  5. Niños: crianças, em espanhol.
  6. Porters: carregadores que sobem as montanhas levando as bagagens de outrem e o material de apoio. É uma profissão regulamentada no Peru e digna de palmas. Eles são fortes demais! Lembram Oompa Loompas e são muito simpáticos.

Time da Llama Path com o grupo da Expedição da Trilha Inka 4 Days. Aquele abraço de la chica del Brasil.

Larissa Ilaides

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Rie Chinito | Perotá Chingó

Um beijo para todos que ajudaram a tornar esse sonho de infância, real.

 

 

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Nunca sabe se o que escreve vai ser compreendido de verdade. Mas segue escrevendo e dando pitacos por aí. Faz parte no Ninho Digital, escreve para pessoas, sites e robôs. Tem um pé no jornalismo e outro na publicidade. Leonina de coração sagitariano.

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