Professor do Departamento de Ciência Política e Sociologia, do programa de pós-graduação em Ciência Política e do programa de pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Emerson Cervi é doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro- IUPERJ. Coordena o grupo de pesquisa em Comunicação Política e Opinião Pública (Cpop), com pesquisas e publicações nas áreas de debate e opinião pública, eleições, partidos, comunicação eleitoral, financiamento de campanhas e metodologia de pesquisa. O cientista político falou ao Parágrafo 2 sobre a atual crise política do Brasil depois do escândalo envolvendo a JBS. Falou sobre o futuro do presidente Michel Temer, sobre a possibilidade de aprovação da Reformas no Congresso, entre outros temas. Confira.

Parágrafo 2: Quais as semelhanças entre a instabilidade do Governo Temer hoje, depois da publicação dos áudios feitos por Joesley Batista da JBS, com a instabilidade que levou ao impeachment da presidente Dilma no ano passado?

Emerson Cervi: A Dilma não tinha sustentação na sociedade, na opinião pública e não tinha uma boa avaliação de governo. Ela vivia sob um cenário de recessão econômica, cenário este que o Temer herdou, apesar de vermos notícias positivas, a economia continua não crescendo. O que acontecia era que antes se falava muito mais do desemprego que existe de verdade e hoje se fala menos, mas o desemprego continua aí. A grande questão é a visibilidade dada pela imprensa a este tema. Na época da Dilma o discurso da imprensa era aquele de que a crise vivida pelo país era algo sem precedentes, já na gestão Temer essa mesma imprensa adotou o discurso de que “em breve vamos sair dessa crise”. É tudo uma questão de enfoque, pois a crise está aí, forte como sempre esteve.

Ainda comparando os dois governos, a Dilma não tinha o apoiou público nem o apoio interno. A base política da presidente não a defendia, até o partido dela se omitiu em muitas situações. O político pode não defender o governo de maneira pública, mas no Congresso ele trabalha em prol dessa gestão, votando em favor de projetos criados pelo executivo, contribuindo para que as coisas andem nas comissões da Câmara Federal, e é isso que chamamos de apoio interno. A Dilma não tinha nenhum dos dois. Já o Temer, ainda tem apoio interno. Ele tinha o apoio público e o interno, não tinha o apoio da população, pois seu governo era muito mal avaliado, e o que ele perdeu com esse escândalo foi o apoio público. No entanto, boa parte da base, continua apoiando e sustentando seu governo e suas propostas dentro do Congresso. Tentando inclusive deslocar as propostas de reforma feitas por Temer como se não fossem dele, mas sim uma necessidade nacional. O Governo Temer acabou, morreu, mas as propostas ainda serão votadas.

Parágrafo 2: E o senhor acredita que estas propostas podem ser aprovadas?

Emerson Cervi: Alguma coisa com certeza vai ser aprovada. Provavelmente não na forma como o Executivo propôs. Podem não ser aprovadas somente se surgir algo novo, um novo escândalo envolvendo o presidente, por exemplo. A minha hipótese é que ele ainda está no governo porque a classe política precisa aprovar essas reformas, quando elas forem aprovadas provavelmente Temer será descartado.

Parágrafo 2: Seria esse o futuro do presidente Temer, ser descartado depois das reformas serem aprovadas?

Emerson Cervi: Hoje o Temer está fazendo sua defesa técnica, ele não está mais fazendo sua defesa política, porque sua imagem política é insustentável. A meu ver, o mais provável é que ele se segure cambaleando ainda, até a aprovação da Reforma Trabalhista e da Previdência. Passando isso, ou ele ganha novamente a elite política e ela volta a defende-lo em público e ele fica até 2018, ou ele será descartado. Mas, se novas denúncias aparecerem, ele cai. Entretanto, Temer corre outro risco que é o julgamento do Tribunal Superior Eleitoral com relação ao processo relativo à chapa Dilma/Temer. Há muita especulação sobre esse julgamento porque o Temer indicou dois ministros para o TSE e eles podem, diante da eminente cassação do presidente, pedir vistas ao processo e o julgamento emperra e aí Michel Temer ganha tempo. Ou o processo pode ser julgado e a chapa ser condenada. Mas tudo isso é muito imprevisível. Outra possibilidade poderia ser a Câmara acatar os pedidos de impeachment, mas esse é um processo longo que pode estender o governo Temer até 2018. O mais sensato seria ele renunciar.

Parágrafo 2: E, a seu ver, qual seria hoje a melhor solução para o país hoje?

Emerson Cervi: O que aconteceu foi que se trocou a Dilma pelo Temer e a economia não deu um sopro de vida. A questão do país é que a economia está estagnada. Se o governo, por exemplo, tem dinheiro para investir no programa Minha Casa Minha Vida, ele aquece o setor da construção civil, gera empregos e movimenta a economia, do contrário o desemprego aumenta e muitas construtoras quebram. A economia do Brasil depende muito do governo e, se o governo não tem dinheiro, a economia não cresce. Então, para o país, quem vai ficar no comando é menos importante se o sistema de governo não for mudado. Para o país, se a Lava Jato vai pra frente ou pra trás, é menos importante. Um país não pode depender de uma investigação criminal. Uma investigação criminal precisa ser normal na vida de um país, não podemos quebrar as maiores empresas do Brasil por causa disso, não podemos parar por causa da prisão de um político. Assim, como não podemos parar o país porque não gostamos de um líder político, porque ele fala para uma parcela da população que nós não queremos considerar. Se não me engano foi o sociólogo Domenico De Mais que disse que “o Brasil é um pouco infantil”, acho que falta um pouco mais de responsabilidade na sociedade brasileira. As pessoas tem que parar de achar que o problema é apenas Brasília, os ministérios, a presidência, o problema é o sistema geral, se ele continuar na mesma nada vai mudar.

A minha hipótese é que ele ainda está no governo porque a classe política precisa aprovar essas reformas, quando elas forem aprovadas provavelmente Temer será descartado.

Parágrafo 2: Nas últimas semanas a imprensa protagonizou interessantes episódios na vida política do Brasil. O Globo soltou, em primeira mão, as gravações que acabaram por abalar o governo de Michel Temer, Ricardo Noblat, colunistas do mesmo jornal, deu uma “barrigada” histórica ao afirmar que Temer iria renunciar, a Folha de São Paulo contestou os áudios feitos pela JBS com um perito sem muita credibilidade e Reinaldo Azevedo, colunista da Revista Veja, descobriu que era grampeado pelo próprio veículo onde trabalhava. Que análise podemos fazer de todos esses episódios envolvendo a imprensa nas duas últimas semanas?

Emerson Cervi: Está cada vez mais claro que a imprensa é um ator político, não é apenas um espaço de debate político. A imprensa tem opinião, nem sempre monolítica, pois percebemos, nas últimas semanas, que há divergências dentro da própria imprensa. No entanto, percebemos principalmente que os veículos de comunicação tem sim posição e eles prezam muito por ela. Se temos algo a aprender com esse processo todo é que a imprensa não é democrática. Imprensa comercial é empresa, ou seja, tem ideologia, tem lado e vai usar das armas que tiver pra defender sua posição.

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José Pires

É Jornalista idealizador do Parágrafo 2. Trabalhou como repórter na Região Metropolitana de Curitiba e como Assessor de Imprensa. Dirigiu o documentário Tabaco – As folhas da incerteza. Acredita que o Jornalismo é mais do que a reprodução dos fatos mais relevantes do dia

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