*Todas as fotos dessa reportagens são de Luiz Fabiano da Ibex Imagens.

O comercio fervilha na Vila Torres na manhã ensolarada de sábado. Frutas e verduras na quitanda, o barbeiro que corta os cabelos brancos de um senhor, a padaria que acaba de tirar uma fornada de pão quente. Em meio a agitação do bairro, em muitas esquinas, alguns jovens conferem com a ponta do dedo indicador o produto depositado na palma de uma das mãos. Uma salva de fogos de artifício, soltada minutos antes, revelava que a mercadoria havia chegado. O tráfico de drogas se mistura à rotina do bairro. Das vielas, dos bares, no caminho que leva para o lado debaixo da ponte, dezenas de usuários se movimentam rapidamente, olhando hora para um lado, hora para outro.

Encravada entre os bairros Jardim Botânico, Prado Velho, Rebouças e Guabirotuba, a Vila Torres, que surgiu em 1950, é a favela mais antiga de Curitiba. Cerca de nove mil moradores vivem sob a realidade do tráfico que faz muitas vítimas todos os anos, principalmente por conta da “guerra” que existe entre duas quadrilhas rivais, a “Gangue de Cima” e a “Gangue de baixo” que disputam a hegemonia no tráfico de drogas na comunidade. A população, parte dela composta por catadores de recicláveis, que acumulam montanhas de papel, plástico e ferro no espaço vago dos quintais, vive também sob a dura rotina imposta pela Polícia que ameaça, muitas vezes com a sola dos coturnos, a dignidade de quem não tem ligação com o crime.

Uma porta estreita leva ao interior do Clube de Mães da Vila Torres. No local, que fica na Avenida Comendador Franco, não há placas de identificação. No seu interior, porém, todos os meses centenas de pessoas são atendidas, milhares passaram por ele em suas duas décadas de existência. No início o projeto era voltado apenas para mulheres, mas a necessidade do bairro e dos filhos das frequentadoras fez o espaço se abrir para outras ações sociais. “Hoje temos um projeto chamado Equação, no qual as mulheres transformam material reciclado em bolsas e acessórios. A venda desse material gera renda para as pessoas que o produzem. Atendemos a comunidade também com assistência social, com confecção de documentos. O Clube de Mães já ofereceu vários cursos em parceira com o Senai, com universidades, e hoje muitos moradores da comunidade são profissionalizados por causa de cursos realizados aqui. A intenção do Clube de Mães é gerar renda, preparar as pessoas para o mercado de trabalho para que elas andem com as próprias pernas”, diz a presidente Irenilda Arruda.

Magia do Boxe

Um dos projetos apoiados pelo Clube de Mães é o “Magia do Boxe”. A cerca de um ano dezenas de crianças, adolescentes e adultos aprendem Boxe, Jiu Jitsu, Muay Thai e MMA nas dependências do Clube. As aulas são ministradas por Roberto Piccinini, atleta de Muay Thai desde a década de 1980, faixa preta em Muay Thai e em Jiu Jitsu e especialista em MMA. Piccinini é um dos precursores desse estilo em Curitiba e no Brasil. Lutou durante 12 anos nos Estado Unidos, treinou com atletas como Anderson Silva e Wanderley Silva e é o introdutor do calção nas competições de Muay Thai e Vale Tudo no nosso país. Outro idealizador do Magia do Boxe é José Snoopy Rodrigues, campeão Curitibano e Paranaense de boxe por três anos consecutivos, campeão do Torneio Estimulo em São Paulo, campeão do torneio Kid Jofre, campeão Paulista, campeão Brasileiro Amador e campeão Brasileiro Profissional, morou e lutou em Las Vegas de 2001 a 2003 e também trabalhou com atletas como Wanderly Silva, Anderson Silva Mauricio Shogun, Murilo Ninja e Cris Cyborg.

O projeto é também apoiado pela Ong Uirapuru, que trabalha orientando práticas de relação com a comunidade e de união com outros projetos sociais. O Magia do Boxe atende hoje mais de 50 alunos da Vila Torres com aulas de manhã, à tarde e à noite. No Clube de Mães os moradores também praticam outras artes marciais como o Judô e a Capoeira.

Realidade desafiadora

De bruços, uma ao lado do outra, as crianças se preparavam para iniciar uma sessão de flexões de braço. As demais, que estavam em pé, juntavam as palmas das mãos, esticavam os braços e os dedos indicadores e gritavam “perdeu, perdeu!”. A cena, reflexo da realidade vivida na Vila Torres, onde as abordagens policiais são rotineiras, acontecia com frequência nos primeiros meses de aula no projeto Magia do Boxe. Snoopy e Piccinini percebiam aí, que o trabalho seria desafiador.

Eram muitas as barreiras a serem ultrapassadas. A cada ordem, ou questionamento dos professores, alguns alunos apontavam os dedos em formato de arma e desafiavam, “tenta a sorte professor”. Muitas crianças e jovens que frequentam o projeto vivem no seio familiar uma realidade de violência, de drogadição e alcoolismo. Vários foram usados como “aviõezinhos” do tráfico, na arriscada tarefa de entregar drogas dentro da favela. Alguns frequentadores do projeto não voltaram. Para Roberto Piccinini, se não houvesse grande esforço por parte dos professores, outros tantos jamais pisariam sobre os tablados de borracha que cobrem o piso do Clube de Mães outra vez. “Tenho certeza que, se muitos dos alunos não estivessem aqui, estariam mortos”, enfatiza.

Roberto Piccinini, Snoopy Rodrigues e seus alunos. Foto: Luiz Fabiano – Ibex Imagens

A realidade violenta do bairro não se reflete apenas nas crianças e nos adolescentes, mas também nos adultos que frequentam as aulas. “Uma das frequentadoras, por exemplo, tinha um histórico grande com violência. Havia inclusive esfaqueado algumas pessoas, mas se transformou em diversos sentidos depois que começou a praticar boxe. Ela mesmo admitiu isso quando me contou que uma menina a ofendeu na comunidade e ela simplesmente deu as costas e foi embora, fato que acabou deixando ela mesma impressionada”, conta Snoopy.

A transformação é diária. Um passo por vez. As mudanças vão desde a disciplina e o respeito com os colegas no projeto e na escola, até o relacionamento com a família. “Hoje percebo que eles são muito mais educados, que o comportamento no ambiente escolar é outro, que o relacionamento com pai, mãe, avós, foi transformado profundamente”, destaca José Snoopy. “Eu era muito grossa com as pessoas, discutia com todo mundo, mas percebo que consegui mudar muito depois dos treinamentos. Estou muito mais calma, não consigo me estressar com facilidade. Antes eu não sonhava em ser nada, hoje sonho em ser uma advogada e uma lutadora profissional”, diz Rebeca Oliveira Schapanski, aluna do Magia do Boxe que tem 14 anos de idade. Cristian Luciano dos Santos, de 13 anos, treina uma hora e meia todos os dias e conta não ter interesse em mudar a rotina que tem hoje. “Minha rotina se baseia na escola e nos treinos. Não tenho tempo nem vontade de me envolver em algumas coisas que acontecem aqui na comunidade. Eu quero mesmo é treinar”, enfatiza. “O esporte é muito importante na vida das pessoas, por que ele te faz superar barreiras, te faz ter disciplina, foco nos objetivos. O foco e a disciplina são necessárias para alcançar qualquer objetivo, seja nos estudos, nos esportes, nas artes, no trabalho”, destacam os professores.

Talvez, como explica Roberto Piccinini, uma das mudanças mais significativas nos alunos do projeto seja o desenvolvimento da capacidade de refletir diante de situações difíceis. “As perspectivas que o projeto dá a essas crianças e a esses jovens faz com que eles, diante das diversas situações difíceis, pensem no melhor caminho a se tomar naquele momento. Eles começam a pensar com responsabilidade e escolher o caminho certo quando são desafiados a agir de maneira errada”, explica.

Treinar, orientar e ouvir. O trabalho dos professores vai muito além da parte física. Foto: Luiz Fabiano – Ibex Imagens

Professores, psicólogos e pais

O trabalho realizado por Snoopy e Piccinini vai além da parte física. Os dois, lidam diariamente com situações que pedem uma postura de amigo, de psicólogo e, por muitas vezes, de pai. A realidade trazida pelos alunos é dura. Dificuldades financeiras, falta de perspectiva e violência exigem dos treinadores um envolvimento emocional e, consequentemente, reforçam os laços afetivos entre os mestres e seus aprendizes. “Eu sou um pai separado dos meu filhos e isso não é fácil pra mim. Mas, por meio das experiências que tenho vivido aqui no projeto, tenho conseguido me aproximar novamente dos meus filhos. Portanto, o Magia do Boxe não é apenas uma iniciativa de artes marciais, mas uma incrível experiência de vida”, conta Snoopy.

Um divisor de águas

Em todas as sociedades primitivas, determinados momentos na vida de seus membros eram marcados por cerimônias especiais, conhecidas como ritos de iniciação ou ritos de passagem. Essas cerimônias, mais do que representarem uma transição particular para o indivíduo, representava igualmente a sua progressiva aceitação e participação na sociedade na qual estava inserido, tendo, portanto, tanto cunho individual quanto coletivo.

Um dos maiores desafios enfrentados por Snoopy e Piccinini no Magia do Boxe é relacionado a autoestima dos alunos. Condicionados a uma difícil realidade social, muitos deles cresceram ouvindo que “não seriam nada na vida”. Quebrar essa barreira era, sem dúvidas, um dos mais difíceis objetivos do projeto.

Depois de um ano de Magia do Boxe os alunos tiveram a oportunidade de mostrar para amigos e familiares e, principalmente para eles mesmos, que eram capazes, que todo o esforço, as dores físicas sentidas durante os treinamentos, as dificuldades enfrentadas para conseguir comparecer às aulas, tinha valido a pena. Eles lutaram no torneio “Golden Boys Open de Boxe”. O evento contou com 12 lutas infantis, uma de cadete e uma profissional. Projetos sociais de todo o Paraná trouxeram seus atletas. Participaram do evento, que aconteceu no dia 06/05 na Academia Team Bronx no bairro Sitio Cercado, importantes nomes do MMA brasileiro como Francisco Trinaldo, o “Massaranduba” e John Lineker.

O evento, disputado pelos alunos no último dia 06/05, foi um divisor de águas na vida de cada um deles. Foto: Luiz Fabiano – Ibex Imagens

O evento, segundo os professores, foi um divisor de águas na vida dos alunos, algo semelhante a um rito tribal de saída da infância para a entrada na vida adulta. “Foi mágico ver eles no ringue. Eles se transformaram, mostraram que realmente todo o empenho em um ano de projeto valeu muito a pena. Eram outras crianças, outros jovens, concentrados, focados, transformados. Isso fez, cada minuto no Clube de Mães, valer a pena”, finalizam.

*O Clube de Mães da Vila Torres e o projeto Magia do Boxe aceitam doações e ajudas. Seguem abaixo os contatos:

José Snoopy Rodrigues: Whatssap: (41) 99809-5933

Roberto Piccinini: (41) 99856-4793

Clube de Mães: (41) 99800-1098

O Clube de Mães fica na Avenida Comendador Franco, 1034, Vila Torres, Curitiba – PR.

Comentários

Comentários

About The Author

José Pires

É Jornalista idealizador do Parágrafo 2. Trabalhou como repórter na Região Metropolitana de Curitiba e como Assessor de Imprensa. Dirigiu o documentário Tabaco – As folhas da incerteza. Acredita que o Jornalismo é mais do que a reprodução dos fatos mais relevantes do dia

Related Posts