Andrea Neves, irmã do Senador Aécio Neves (PSDB), foi presa na manhã desta quinta feira (18). A prisão preventiva foi autorizada pelo ministro Edson Fachin, relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF). As suspeitas são de que Andrea teria pedido dinheiro, em nome do irmão, para o empresário Joesley Batista, antes mesmo que o próprio senador o fizesse.

Andrea Neves é jornalista e comandou a comunicação da campanha do tucano quando este foi candidato à presidência. O que muita gente não sabe é que, além de ser a mentora de Aécio durante toda sua carreira política, Andrea exercia grande influência nos veículos de comunicação de Minas Gerais quando o irmão foi governador do estado. Os dois instalaram uma espécie de “Lei da Mordaça” perseguindo jornalistas e veículos de comunicação mineiros por quase uma década.

A investida do então governador contra 66 comunicadores independentes sob a alegação de “formação de quadrilha remunerada” para difamá-lo, infelizmente, não foi um caso isolado, mas uma dentre tantas semelhantes, e mesmo piores, já empreendidas pelo candidato desde 2002, na campanha para o governo de Minas Gerais, ponto de partida para sua principal ambição, a presidência da República, à qual provavelmente nunca alcançará.

Andrea, como ressaltam diversos profissionais de imprensa no documentário “Liberdade, essa palavra”, era quem pressionava os veículos de comunicação para que os mesmos não fizessem matérias negativas em relação ao governo do estado, então chefiado por Aécio Neves. Pessoalmente ela ligava para jornais, rádios e tvs exigindo que alguns conteúdos não fossem reproduzidos e pedindo a demissão de jornalistas que ousassem denunciar os problemas públicos de Minas Gerais. Em troca o governo de Aécio investia alto em anúncios em jornais, rádios e tv, a verba publicitária em seus oito anos de governo teve um aumento de 900 %.

Alguns episódios da Lei da Mordaça mineira

Em 2002, o jornalista Ulisses Magnus era editor de esporte da Rede Minas quando estourou o que se chamou “Caso Cruzeiro”, sobre uma desavença entre o então técnico, Vanderlei Luxemburgo, e alguns jogadores, com grosserias por parte de Luxemburgo. Ulisses fez a matéria, levou-a ao ar. Semanas depois, em um encontro com Zezé Perrela, à época presidente do clube e amigo pessoal de Aécio, Ulisses ouviu deste, em tom de brincadeira: “Olha que quando o Aécio (cruzeirense e já eleito governador) assumir, você pode perder o emprego”. Ulisses foi demitido dias após a posse do tucano.

No ano de 2003, logo no início de seu primeiro mandato como governador, Aécio pressionou a Rede Minas, emissora oficial do governo de MG, a tirar de sua grade o programa de entrevistas políticas “Palavra Cruzada”, dirigido e apresentado pelo jornalista Gilberto Menezes, que, em carta enviada ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SJPMG), afirmou ter sido “censurado pelo governo Aécio Neves”.

Meses depois, o então presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, Aloísio Lopes, em artigo publicado no jornal Pauta, denunciou que, a partir do governo Aécio Neves, tornou-se crescente o número de queixas de jornalistas sobre a postura das redações dos jornais e das chefias de comunicação de instituições públicas em todas matérias compreendendo a gestão do governador. As queixas mais frequentes eram relativas à edição das matérias, com omissão e distorção dos fatos até que o texto publicado se tornasse absolutamente diferente do que fora produzido a partir dos fatos apurados. Segundo o Sindicato havia intervenção direta de Andrea Neves nos veículos de imprensa.

Em abril de 2003, a afiliada mineira da Rede Globo produziu matérias cuja relevância garantiu veiculação pelo Jornal Nacional: uma, sobre crianças se drogando na chamada “rua do crack”, em Belo Horizonte, a poucos metros do Departamento de Investigação; outra, denunciando a ineficiência da polícia, por desvios de função; e a última, sobre superlotação das penitenciárias mineiras. A série de reportagens causou a demissão do diretor de jornalismo da Globo Minas, Marco Nascimento. Segundo Nascimento, sua cabeça foi pedida diretamente por Andréa Neves junto à direção de jornalismo da emissora no Rio de Janeiro.

Ao final de 2003, o Instituto Brasmarket fez pesquisa nacional para avaliação dos 27 governadores da Federação no início de seus mandatos. Ugo Braga, editor do jornal O Estado de Minas, foi demitido após divulgar nota informando que Neves fora mal avaliado, ocupando o antepenúltimo lugar na pesquisa.

O radialista Paulo Sérgio, apresentador do “Itatiaia Patrulha”, programa policial feito ao vivo, cobrava ações do governo Aécio para a segurança. Certo dia, foi informado de que seu programa estava sendo gravado pela assessoria de comunicação do governo, com acompanhamento pessoal da irmã do governador, Andréa Neves. A partir daí, seu diretor, Márcio Doti, o proibiu de veicular qualquer informação sem antes submetê-la à sua avaliação, o que tornou insustentável a continuação do programa.

Em 2004, durante o amistoso entre Brasil  e Argentina no Mineirão, o jornalista esportivo da Band, Jorge Kajuru, momentos antes do início da partida, reporta com imagens as áreas de acessibilidade do estádio reservadas para a entrada dos 10 mil VIPs convidados pela CBF e pelo governador, assim impedindo a entrada de cadeirantes. No intervalo para o segundo tempo do jogo, Kajuru foi retirado do ar, a pedido, segundo ele, de Andréa Neves que também pediu à Band que o demitisse, o que aconteceu uma semana depois do episódio. Na época Kajuru declarou, “a irmãzinha do Aécio, a Dona Andrea, pede a cabeça de jornalistas por telefone”.

O Caso Carone

No início de seu segundo mandato, Aécio Neves, após aprovação pelo Legislativo mineiro, publicou a chamada “Lei Delegada 132/2007”, permitindo ao seu gabinete militar colher informações que julgasse de seu interesse monitorar em movimentos organizados livres e em manifestações da sociedade civil, sua comunicação, com poder, inclusive, para quebra de sigilo e demais direitos assegurados constitucionalmente.

A medida tornou-se de conhecimento público graças ao jornalista mineiro Marco Aurélio Carone, criador e editor do Novo Jornal, com sede na capital do estado, que denunciou o fato após descobrir que o jornal estava grampeado, vigiado e investigado pelo Gabinete Militar do Governo de Minas, algo equivalente ao que fazia o Serviço de Informação do Estado, criado na ditadura militar para monitorar e coibir a liberdade de expressão em todas as suas formas. Desde então, Carone teve seguidos e graves problemas para fazer seu trabalho, mas nada que se comparasse ao ponto em que chegou, sete anos depois, a obstinação do senador e presidenciável em calar o jornalista.

Em 2014, O jornalista Marco Aurélio Carone ficou preso 9 meses e 20 dias em Minas Gerais. Ele é filho de um ex-prefeito de Belo Horizonte que foi aliado de Tancredo Neves. No Diário de Minas e no Novojornal, este na internet, passou a fazer denúncias contra o grupo político de Aécio Neves.  O jornalista se diz vítima de policiais, procuradores, juízes e desembargadores de Minas, que estariam a serviço de Aécio.

Carone foi solto 5 dias depois da eleição presidencial em que Aécio foi derrotado por Dilma Rousseff. Foi absolvido no processo que o levou à prisão. Mas, enquanto esteve na cadeia, não pode fazer as denúncias que pretendia fazer contra o tucano.

Na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, Carone contou quais eram: financiamento de campanha via caixa dois, envolvimento de Andreia Neves, esquema na mineração e exportação de nióbio e uso político da estatal Cemig, a Companhia Energética de Minas Gerais, dentre outros.

Também depôs, na ocasião, Geraldo Elísio, o jornalista que trabalhava com Carone e sofreu busca e apreensão da polícia civil de Minas Gerais — segundo ele, o objetivo era descobrir as fontes das denúncias.Num dos trechos de seu depoimento, Elísio disse que o helicóptero apreendido com 450 kg de pasta base em Minas fez pelo menos três pousos em Divinópolis, no interior do Estado, sugerindo assim que o aparelho — de propriedade da Limeira Agropecuária, do senador Zezé Perrella, aliado de Aécio Neves — fazia o vôo regularmente.

Documentário “Liberdade, essa palavra”

Depoimento Carone

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José Pires

É Jornalista idealizador do Parágrafo 2. Trabalhou como repórter na Região Metropolitana de Curitiba e como Assessor de Imprensa. Dirigiu o documentário Tabaco - As folhas da incerteza. Acredita que o Jornalismo é mais do que a reprodução dos fatos mais relevantes do dia

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