No cair da noite, criaturas que hibernam manifestam-se por entre a mata. Silenciosas, caminham por entre as pedras como se o mundo seu fosse. A matilha percorre a noite em busca da caça, dão ordens uns aos outros, espalham-se, escondem-se e esperam.

Ela, altiva e solitária, afasta-se do bando. Sua fome pela carne há tempos se esvaiu, foi roubada. A loba busca algo maior que o cessar da fome, busca algo que ainda não tem nome. Pula de bando em bando na busca por uma completude que sempre lhe escapa. Sozinha entre os lobos, deslocada, ausente.

A loba já tentou ser de tudo, até cordeiro, mas a fome foi maior e comeu-se. Vazia.

Nasceu na mata, percorreu e explorou cada um de seus mistérios, desvendou-os um a um. No entanto, por que ainda assim lhe parece tão estranha? Tão pouco sua? Caçadores eles são, cheiram à morte, desejo e sangue. E a loba, que não quer ser loba, esquece e é esquecida.

E então, entorpecida pelo vazio, uiva para a lua cheia e, cansada, busca o sono. De súbito alguém lhe responde, desperta assustada e corre exasperada. E ali, sobre a mais alta rocha, está ele. Belo e banhado pela Lua. Aos olhos dela, torna-se uma pintura, uma nova forma de arte. Estático, eterno, perene. Eternizado pela solidão que os abate.

Lentamente ela se aproxima e, sem intenção, o assusta. Acuado, ela lhe cheira o focinho, morde-lhe a orelha, domina-o. Ele a fita como se a reconhecesse, atravessa-lhe a alma de cordeiro e vê ali um espelho, preenchem-se.

Refletem-se um no outro como a face de Narciso, mordem-se o pescoço em intimidade e juntos ecoam o mais perfeito uivo em uníssono. A Lua se enche e lhes devolve o chamado na mais brilhante luz.

Em silêncio ele apoia a cabeça sobre os pelos avermelhados da fêmea, adormecem e fazem do iluminado topo da rocha seu esconderijo. Completos. Eternos.

Quando finalmente a infinitude lhe toma, a loba ouve um outro uivo, um latido seco que lhe arrepia os pelos. Não é para ela. O bando do lobo companheiro chama pelo seu retorno e ela sofre. Ele não lhe pertence. Cordialmente ele se despede com um cheiro e uma última mordida e ela o observa sumir na escuridão. A dor e o abandono lhe tomam e então ela se lembra. A única coisa que sempre foi sua é a solidão.

A loba não merece a infinitude, não é sua por direito, nunca foi. Num ensurdecedor uivo dolorido, a lua adormece e se apaga banhando a loba em toda a sua melancolia. O pertencimento nunca lhe abraçou. Sozinha.

Ela desce a rocha da completude, que se parte em centenas de pedaços. Inexistente, memória. Deslocada, retorna ao bando. Vazia.

E no cair da noite, criaturas que hibernam manifestam-se sombrias por entre a mata. Ela, altiva e solitária, afasta-se. Sua fome pela carne há tempos se esvaiu, foi roubada…

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About The Author

Andy Jankowski é mestranda em Multimeios pelo Instituto de Artes da UNICAMP, formada de Cinema e Vídeo na UNESPAR/FAP, cursou filosofia na UFPR. Dedica seus estudos à Teoria, História e Linguagem do Cinema, sobretudo na representação da mulher. É membro da Associação Paranaense de Imprensa, foi Diretora Cultural e co-fundadora da Organização Universo Racionalista e atriz profissional.

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