Por José Pires e Everton Mossato 

Depois que deixou a prefeitura de Curitiba Gustavo Fruet decidiu se afastar da mídia, no que ele mesmo classificou como um “silêncio obsequioso”. Ontem ele deu, com exclusividade ao Parágrafo 2, sua primeira entrevista depois de deixar de ser prefeito da capital do Paraná. Fruet fez duras críticas a Rafael Greca e a algumas atitudes de sua nova gestão, o ex prefeito também não poupou o governador Beto Richa. Além disso, falou também sobre sua atual rotina e sobre seus planos para o futuro. Confira.

Parágrafo 2: Como é sua rotina hoje, alguns meses depois de ter deixado a prefeitura de Curitiba?

Gustavo Fruet: Primeiro que eu adoro política, mas sempre estive ciente de que um mandato tem prazo. Assim, nunca criei essa dependência profissional e financeira, e também de vida, ligada apenas à política. Logo depois das eleições procurei, evidentemente, trabalhar em prol da transição administrativa da prefeitura e em janeiro retomei as atividades aqui no escritório, em um primeiro momento organizando de novo minha rotina aqui, já que eu havia ficado muito tempo afastado. Depois organizei uma nova agenda de trabalho que envolve palestras, principalmente voltadas à gestão urbana. Nesse período resolvi cumprir um silêncio obsequioso. Hoje, depois de três meses, volto a conceder uma entrevista. No dia de hoje faço também minha primeira reunião pública com ex secretários e com filiados do PDT. Resolvi dar uma trégua durante esse período porque a política no Brasil, inclusive no âmbito municipal, tem sido muito violenta e se a gente fica alimentando picuinhas as coisas só tendem a piorar. Por isso achei necessário me afastar um pouco.

Parágrafo 2: O que o senhor consegue fazer hoje que não conseguia fazer quando era prefeito?

Gustavo Fruet: Retomei muitos hábitos. Voltei a caminhar, pedalar, a jantar e almoçar no horário. Hoje consigo chegar mais cedo em casa, algo que, confesso, às vezes me causa estranheza. Agora consigo ler mais, assisto a mais filmes, ou seja, tenho uma vida um pouco mais “normal”. No entanto, mesmo não participando da vida pública, em nenhum momento me desliguei dela.

Parágrafo 2: E quanto ao futuro na política, quais são seus planos?

Gustavo Fruet: A minha ideia é participar da campanha do Osmar Dias para o governo do estado do Paraná. Hoje, na política brasileira, devido a descoberta de muitos esquemas de corrupção, há um sentimento de profunda decepção e desilusão com a administração pública por parte da população, e isso não é bom. É uma ilusão pensarmos que na política existem apenas pessoas bem intencionadas, a política, infelizmente, é um espaço de contradições. Eu conheci o que há de melhor e o que há de pior na vida pública. Mas o fato é que quando prevalece essa concepção negativa por parte da população, acaba surgindo uma generalização e isso gera uma imprevisibilidade para o processo eleitoral do ano que vem.

Ainda sobre o meu futuro, pretendo ajudar o Osmar a se eleger como governador talvez compondo a chapa majoritária, mas minha principal meta é conseguir uma cadeira na Câmara dos Deputados.

Rafael Greca

Parágrafo 2: O prefeito Rafael Greca tem dito em muitas oportunidades que os reajustes fiscais que ele pretende realizar, por meio de medidas de austeridade enviadas à Câmara de Vereadores de Curitiba sob a forma de projeto de lei, são necessários porque ele teria herdado a prefeitura com muitas dívidas, segundo ele de aproximadamente R$ 1,2 bilhões.

Gustavo Fruet: Coincidentemente hoje eu apresentarei na reunião e nas redes sociais as 33 mentiras do prefeito Rafael Greca. Ele está deixando de assumir as responsabilidades de seu mandato. Durante a campanha eleitoral eu o alertei que as promessas que ele estava apresentando não cabiam e não cabem no orçamento de Curitiba. Eu mostrei que o modelo de gestão da capital mudou. Quando ele foi prefeito, setores como educação e saúde não representavam 5 % da estrutura do município, hoje estão próximos de 60 %. Quando ele foi prefeito haviam recursos a Fundo Perdido do Governo Federal e empréstimos de organismos internacionais com uma contra partida que não chegava, na maioria dos casos, a 20% de orçamento do município. Outro ponto em toda essa questão é que Curitiba expandiu determinados serviços em um momento de crescimento econômico sem a devida previsão do médio e do longo prazo, por incrível que pareça, e isso pode parecer contraditório, mas essa é a vantagem de o Greca ter voltado hoje à prefeitura, porque isso desnuda as atitudes que foram populistas e demagógicas na época em que ele era prefeito. Por exemplo, nesse projeto que ele enviou à Câmara de Vereadores ele propõe que não haja a correção dos salários dos servidores na data base estabelecida em lei, no entanto, a ironia é que esta lei é do tempo dele. No momento em que o Brasil vivia um crescimento econômico que não viveu nos últimos anos ele apresentou essa lei, agora quer revoga-la.

O 13 ° salários dos servidores municipais é pago em duas vezes, esta lei é do tempo em que o Beto Richa, padrinho político do Rafael Greca, era prefeito da Capital, ou seja, quando estava perto do período eleitoral e ele pretendia ser candidato a governador estabeleceu isso. Agora estão tentando concertar erros cometidos por eles mesmos, e isso só desnuda as atitudes demagogas e populistas que não se sustentam com o tempo.

É importante destacar também, e esse é o quinto item das 33 mentiras do Greca, que nos últimos anos houve uma queda de receita sem precedentes. Eu assumi a prefeitura com a maior queda de receita da sua história, com uma queda do Produto Interno Bruto (Pib) de 7,2 %, em termos objetivos isso significa retração, em dois anos, de quase R$ 500 milhões. E essa queda foi na receita programada, no IPTU, no ISS, no ITBI das transações imobiliárias. Assim nós tivemos que fazer um ajuste fiscal que significou uma economia de R$ 1 bilhão ao município e deixamos quase R$ 600 milhões.

Parágrafo 2: Mas então o senhor não deixou uma dívida de mais de R$ 1 bilhão para o Rafael Greca?

Gustavo Fruet: Aí também entra a má fé do Greca e eu vou entrar na justiça pra provar isso. O atual prefeito mistura a dívida consolidada, a dívida flutuante e o que a gente chama de valores não empenhados. Parte dessa dívida tem mais de 20 anos. Na nossa gestão pagamos dívidas do período em que ele era prefeito, como por exemplo dívidas das Ruas da Cidadania. Isso é o que os economistas chamam de “colesterol bom”, você faz uma dívida, que na verdade é um investimento, e ela será paga a longo prazo. Hoje a prefeitura tem uma capacidade de endividamento de 120 % do valor de sua receita, e essa dívida no momento não chega a 14 %, está muito abaixo de qualquer indicador e com absoluto equilíbrio fiscal. Outra questão são os empréstimos adquiridos para obras, são dívidas com o Governo Federal, principalmente com a Caixa Econômica Federal. Uma terceira frente é o que chamamos de recursos não empenhados, quando eu assumi, a prefeitura devia a alguns fornecedores mais de 10 meses por serviços realizados. O ex prefeito Luciano Ducci, no último ano de sua gestão, contratou uma série de obras como a Ponte Estaiada. A gestão do Ducci não concluiu nem 3 % dessa obra, e na época a prefeitura não tinha recursos pra cumprir com o valor que foi orçado para a construção desse viaduto. Assim, tivemos que fazer todo um ajuste fiscal para pagar as dívidas existentes, em valores atualizados algo próximo a R$ 700 milhões de reais e nós pagamos isso em um prazo de três anos, quase R$ 7 milhões por mês, pagamos também a Cavo que estava quase 10 meses sem receber, a Risotolândia e uma série de outros fornecedores com os valores reais devidamente corrigidos.

No nosso último ano de gestão não contratamos serviços para expandir os investimentos da cidade, procuramos manter o que tínhamos porque a arrecadação do município caiu muito nos últimos anos. Então, as dívidas que o Rafael Greca herdou são no valor de R$ 600 milhões, menor do que a que nós herdamos na gestão passada e o dobro do valor que ele alega que é.

Para Fruet, Beto Richa foi pequeno e mesquinho em relação ao subsídio que mantinha a integração do transporte metropolitano

Parágrafo 2: A seu ver, todos as medidas de austeridade propostas pelo prefeito Rafael Greca são realmente necessárias?

Gustavo Fruet: O Greca disse na Câmara de Vereadores que não ia mais aumentar impostos, o que ele propõe agora é aumentar a alíquota sobre a Imposto de Transmissão de Bens Imóveis e separar o lixo do IPTU para à partir daí aumentar os valores das taxas de lixo que são cobradas hoje. Mas o pacote de medidas que foram enviados para a Câmara tem vários desdobramentos, no fundo ele não quer mais implantar os planos de carreira e muitos deles são da época do Beto Richa e do Luciano Ducci. O atual prefeito assumiu durante a campanha um compromisso de manter esses planos. Outra medida é que ele não quer dar a correção da inflação, quer aumentar a alíquota da Previdência e, acima de tudo, quer pegar o dinheiro do Fundo de Previdência dos Servidores. Quando assumi a prefeitura o Fundo tinha em torno de R$ 800 milhões em caixa, quando saí ele tinha mais de R$ 2, 3 bilhões em caixa, ou seja, mais de 70% do que está no Fundo Previdenciário foi depositado em nossa gestão. Então, com o pretexto de ter um déficit que não tem, e o que me impressiona é que pessoas que tinham a obrigação de dizer a verdade afirmam que existe um déficit de R$ 15 milhões de reais no Fundo, meu Deus onde foi que arrumaram esse valor?! A conta feita por eles deve ter sido a seguinte: Se a prefeitura precisa pagar um valor “X” nos próximos 35 anos e não pagar nada esse déficit deve ser de valor “Y” e trouxeram esse valor para os dias atuais. Pra mim isso é agir de má fé, fizeram uma campanha publicitária intensa, onde devem ter gastado perto de R$ 2 milhões, uma campanha covarde, que tenta criar uma política de “terra arrasada” para sacar o dinheiro do Fundo Previdenciário. O Greca hoje está tentando criar o caos pra justificar o que ele não pode fazer.

Transporte Público

Parágrafo 2: O que explica o Governo do Estado do Paraná deixar de pagar o subsídio que mantinha a Integração do Transporte coletivo durante sua gestão e, depois da vitória de Rafael Greca, anunciar a volta do subsídio?

Gustavo Fruet: Primeiro que isso é mais uma promessa não cumprida. Eles deram o maior reajuste da tarifa do transporte coletivo. Segundo, não estabeleceram tarifa única nas novas linhas que eles cantam em verso e prosa como se fossem linhas integradas. O que eles fizeram foi manter uma integração física que já existia mas com tarifas diferenciadas e com aumento bem acima da inflação. O Beto Richa foi o responsável pelo edital e pelo contrato. Em outra gestão estabeleceu um subsídio para um aliado dele, principalmente no período eleitoral. Aí o aliado perdeu a eleição e o Beto Richa mostrou o grau de pequenez de quem não tem maturidade para a vida pública prejudicando a maioria da população que usa ônibus em Curitiba e na Região Metropolitana. Então foi uma atitude mesquinha, perversa e que expôs todo o cinismo de quem não tem capacidade para a vida pública.

Parágrafo 2: É necessário esse reajuste de 15 % na tarifa do transporte público?

Gustavo Fruet: Nesse índice não. Eu sempre disse que pelo menos deveria haver um reajuste pela inflação. Mas o aumento dado pelo Greca foi muito acima de qualquer critério.

Parágrafo 2: A Urbs é, de alguma maneira, refém das empresas de transporte coletivo de Curitiba?

Gustavo Fruet: Não. Mas esse sistema que existe hoje precisa ser revisto. Temos um sistema de transporte que é o mais caro do Brasil. Por exemplo, o modelo de embarque e desembarque é pensado pra Curitiba. Esse modelo de gerenciamento não se sustenta mais, nós temos que ter um modelo que pense também na Região Metropolitana, mas Curitiba precisa ter um novo modal, por isso que eu defendi o Metrô.

Parágrafo 2: E porque o Metrô não foi implementado?

Gustavo Fruet: Nenhum sistema de transporte em uma cidade como Curitiba é municipal. No mundo, nas grandes cidades é responsabilidade do Governo Estadual e do Governo Federal, assim acontece em Londres, em Nova Yorke, em Tóquio. O Metrô só sai se tiver recursos do Governo Federal. O projeto de Curitiba é o mais bem avaliado, é o projeto que está mais pronto pra ser executado, tem o aval do BNDS da Caixa Econômica Federal, mas tivemos uma suspensão por parte do Tribunal de Contas do Estado e aí perdemos uma janela muito importante. Depois, com a crise econômica, o Governo Federal ainda vai demorar pra aprovar novos projetos como esse e, um último fator é que as grandes empresas que poderiam ser parceiras do projeto estão envolvidas em problemas com a justiça.

Parágrafo 2: Com relação aos outros modais de transporte, o senhor em sua gestão acompanhou a chegada do Uber à Curitiba e esse estilo de transporte não foi regulamentado. Por que?

Gustavo Fruet: Por mais que se faça um planejamento urbano a dinâmica de ocupação da cidade é muito intensa e vai além de qualquer capacidade de planejamento. Me lembro que quando assumi a prefeitura havia uma crise com relação ao serviço de táxi na cidade. Havia uma discussão com relação a transferência, à titularidade das placas e existia uma cobrança muito intensa para liberação de novas placas, algo que não acontecia há muitos anos. Nós organizamos o sistema que estava em choque, regularizamos a situação do permissionários, e abrimos autorização para mais 750 placas que foram feitas com os novos critérios. Com relação ao Uber a discussão pra mim não é com relação à plataforma tecnológica, ela vai além, se regulamentássemos o Uber estaríamos reconhecendo uma concorrência desleal, já que os custos do Uber são muito menores do que os do táxi.

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José Pires

É Jornalista idealizador do Parágrafo 2. Trabalhou como repórter na Região Metropolitana de Curitiba e como Assessor de Imprensa. Dirigiu o documentário Tabaco – As folhas da incerteza. Acredita que o Jornalismo é mais do que a reprodução dos fatos mais relevantes do dia

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