A cama reconforta o vazio da vida quase vazia, mas o tempo não respira, não retorna, apenas anda, as vezes quase corre. Abre imensos buracos no corpo e cada hora rói um pouco de quase tudo e, assim, apodrecendo entre quatro paredes, os olhos vermelhos de ansiedade revelando a noite extensa de pensamentos inquietos, a luz rompe a penumbra da cortina e amanhece. Ainda não dormi. Acredito que ando tolerante pois, de certo, não somos tão limpos e tudo é, mais ou menos, quase limpo.

O tempo não para, os carros buzinam, os ônibus carregam esta multidão de famintos, o cheiro de traças nas roupas mofadas recostando uma a uma em ternos, jeans, vestidos, suados e malcheirosos, sufocados numa caixa ou confortáveis num belo SUV. A boa educação, os bons costumes, a índole e o caráter irretocável, ostentando o longo sorriso claro e perfeito, dentes tortos e sorrisos amarelos, caras e bocas destas formigas empoleiradas na busca do seu pote de açúcar, das sobras do café, dos restos do almoço ou jantar que caíram da mesa.

Citalopram 10mg para Transtorno do Pânico, 20 mg Transtorno Obsessivo Compulsivo ou Depressão, não exceder a dose máxima de 40mg por dia, leia a bula. Confesso que hoje não sei a dose certa a tomar. Pego dois comprimidos e reparto um ao meio, 15mg entre o Pânico e a Depressão. Uma Fluoxetina pela manhã e a dose de Lítio para o Transtorno Bipolar, caso fique ansioso um comprimido embaixo da língua de Citalopram, pode dar sonolência, não misture com álcool. Moro no mesmo apartamento de frente para o bar onde as pessoas gritam e bebem, bebem e gritam, o pastel ainda é o mesmo.

Tem coisas que curam apenas com o passar do tempo. Tomei um litro de álcool e por recomendação médica, após lavagem de estômago, terapia, insólitos momentos, voltei para casa. Nelson Rodrigues dizia “a cama é um móvel metafísico onde o homem nasce, dorme, sonha, ama e morre”, dessas atividades apenas ainda não morri, e certo que amar não é necessário, ou, preciso, que seja na cama, mas de todas as formas possíveis. E assim foi.

Passo dias deitado ouvindo barulhos do mundo pássaros a assoviar, pés na calçada, malucos a açoitar, carros e buzinas, pois a buzina é uma extensão do condutor, não parte do veículo, e todas as agruras e felicidades do cotidiano. Mas, há um cheiro estranho na casa, não é do trânsito, talvez da comida estragada no fogão ou decompondo na geladeira, mofo, poeira da casa suja, tem cheiro de ausência.

A obsessão é o consumo diário de nossas vidas que aplicam de forma dosada ou de acordo com a necessidade de cada um, quando não usada, desencadeia pensamentos repetitivos, ideias paranóides, dentre outros aditivos para atrair boas pessoas para o seu lado, estou sendo irônico, perceba. A porra desse cheiro não passa.

Os apartamentos são construídos em formas, moldes, e em cada ambiente similar, você que é descolado vai à explicação de Trismegisto “o que está em cima é igual ao que está em baixo”, com exceção das pessoas e a decoração brega da sua casa. Logo, o odor do quarto é mais intenso que nos outros cômodos. Com quem estou falando? É como se alguém estivesse lendo os meus pensamentos impressos, tem alguém ai? Ninguém responde. Vou tomar os remédios já passam das três da tarde.

No apartamento de cima mora a Dona Constance. Senhora muito bonita que perdeu o marido com o tiro na cabeça. Ele era alcoólatra e em certo momento fez da existência miolos pelo chão. Engenheiro Civil de formação trabalhava na construção de usinas, ganhou a licitação milionária para tocar o projeto da Binacional Itaipu e gastou tudo numa simples bala. Três filhos com estudo superior, falam mais de uma língua, bons colégios e boa educação, com dentes firmes e brancos, roupas alinhadas, parece gente de bem.

Visitam a Sra. Constance com frequência rotineira sempre no começo do mês ou no dia cinco de cada mês. É uma boa senhora me dá balas quando a encontro no elevador e ela fala “você tem que arrumar uma boa mulher, é um rapaz bonito e seus traços até parecem de branco”, é uma boa senhora. Toma muitos remédios tem uma caixa cheia deles e quando estão para vencer recorro para ajudar a fazer o descarte, salvo alguns para consumo, odeio desperdício.

Cada qual com seus transtornos e preconceitos, sabe por quê? Nem todo mundo é limpo ou quase limpo, ou, tão bom assim. Caso contrário não iria a igreja aos domingos.

Na televisão passa o filme Trainspotting, Danny Boyle, Ewan MCgregor, Irvine Welsh, mergulho na privada e aquele bebe no meio de um monte de drogaditos, que morre. Será que alguém se importava? Um bebê é como uma pessoa idosa, ossos fracos, cabeça confusa, urina em si mesmo, precisa de atenção e cuidado, isto me deprime. A busca pelo prazer é o que faz você levantar para trabalhar, efêmero prazer de bater o ponto. Ser responsável e drogado são palavras que não combinam. Televisão, cama, sexo, cigarros e café no quarto, são convites à inércia e a prevaricação. Espirro Bom Ar pela casa, talvez passe o cheiro.

No apartamento de cima mora a Dona Constance. Senhora muito bonita que perdeu o marido com o tiro na cabeça. Ele era alcoólatra e em certo momento fez da existência miolos pelo chão. Engenheiro Civil de formação trabalhava na construção de usinas, ganhou a licitação milionária para tocar o projeto da Binacional Itaipu e gastou tudo numa simples bala. Três filhos com estudo superior, falam mais de uma língua, bons colégios e boa educação, com dentes firmes e brancos, roupas alinhadas, parece gente de bem.

São oito horas da noite. Carros de policia, sirenes, pancadas na porta, acordo afoito um pouco tonto, dias sem dormir o sono me pegou de repente, doses exageradas de remédios. Corro para atender, tropeço e bato a cabeça contra a parede que se esvai em sangue, desmaio. Não era aqui. Curativo grande na cabeça pra cobrir a lesão, acontece. O difícil será explicar ao médico que não exagerei na dose de medicamentos, talvez um Citalopram a mais.

Dona Constance estava morta há alguns dias, muitos dias. Uma visita de condolência passado o baque uma das filhas veio recolher objetos pessoais e abrir a janela, ainda exalava o abandono ou putrefação, dou-lhe um abraço contido, pego a caixa de remédios de Constance, “cof!, cof!, cof!” embarga a respiração e tusso, dirijo a porta e aceno de longe, saio feliz com a caixa de remédios. Acho que estou desintoxicando tosse é um bom sinal. Concluo: “o mundo que anda doente, eu sou normal”, isto. Constance era o bebê no meio de um monte de drogados, seus vícios, seus egos, suas necessidades de vida uma vida plástica.

No apartamento, tomo alguns remédios da caixa. É como calçar os sapatos, vestir a anágua por cima da pele enrugada das pernas finas, compor-se da solidão de Constance, delírio sobre a felicidade e a concepção dela, não existe. Debruço na varanda, subo e pulo. Moro no terceiro andar. Ainda estou vivo. Uma perna quebrada, braços, costelas e um traumatismo craniano.

 

 

 

 

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Mario Luiz Costa Junior

Iniciante, recém chegado do jornalismo moleque. Estilo namoradinho da verdade. Charmoso e dengoso nas letras. Deambulante da desinversão da pirâmide invertida. Ativo e passivo no lead e sub-lead. Não dispensa ‘A história da minha vida’ com Renato Gaúcho.

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