Em 1957, prestes a desistir de sua carreira, a carioca Dora Lopes recebeu das mãos de três renomados compositores (Manoel Casanova, Jorge de Castro e Inácio Heleno) a letra do samba Maria Navalha. Junto com a letra veio a promessa de que o ‘sucesso era garantido’. Dora compunha marchinhas de carnaval e já amargava inúmeras frustações em busca do tal sucesso. Mas mesmo assim aceitou a letra e, conforme o prometido, brilhou. No carnaval daquele ano o samba Maria Navalha estourou e projetou Dora, que fez carreira como cantora e compositora, trabalhando com diversos bambas da música de sua época.

Quase sessenta anos depois, em 2016, a história de Dora Lopes foi lida por um grupo de pesquisadoras curitibanas, que se dedicam a ‘garimpar mulheres compositoras de samba desde a década de 30’ no projeto intitulado Samba Mulher. Maria Navalha, título da música que mudou a vida de Dora, batizou a roda de samba curitibana que, segundo Denise Faria, uma das pesquisadoras, foi ‘criada para reviver e trazer ao público a voz dessas mulheres compositoras’.

O projeto de pesquisa Samba Mulher, também chamado de A Mulher Compõe, é desenvolvido por Denise Faria, Daniela Stubert, Larissa Vuitika e Maiara Barros deste abril de 2016 e já resgatou compositoras que atuaram no período entre os anos 30 e 70. Porém, a ideia do projeto é bem mais antiga. “A ideia vinha sendo amadurecida desde quando a gente começou a participar da roda de samba do Sindicatis. A gente ia como coadjuvante, tocar e cantar com eles. Mas sempre nos bastidores, a gente conversava a respeito do porquê não podia fazer uma roda de samba só de mulheres. Por que não fazer uma roda de samba com as mulheres tocando e levando o samba pra todo mundo?”. Não contente com a ideia de apenas reproduzir os sambas mais tocados, em geral compostos por homens e não raro com conotações machistas, Denise pensou que ela e suas amigas eram capazes de fazer algo diferente. “Algo que a gente pudesse mostrar para as pessoas que as mulheres fizeram samba, escreveram samba, e a gente toca esse samba que foi esquecido”. Foi aí que surge a ideia de trazer só composições de mulheres e não sambas escritos por homens. Denise explica que muitas mulheres sequer levavam os créditos por suas composições, eles eram atribuídos a seus parceiros de samba. Neste contexto trazer à tona as mulheres outrora escondidas atrás dos homens no samba é, mais do que levantar uma bandeira, uma tentativa de corrigir um erro histórico.

Estreia da Roda Maria Navalha no espaço A Caiçara | Foto de Elo DeBoa

De acordo com a pesquisadora Maiara Barros, a Roda Maria Navalha é o resultado das dificuldades enfrentadas pelas mulheres no contexto do samba. “O samba é um lugar majoritariamente masculino. Onde as mulheres sempre foram colocadas na posição de coristas… de assistência”. Diante disso se fez necessário a criação de um espaço para atuação das mulheres na condição de protagonistas dentro samba. “Tanto a gente [a Roda Maria Navalha] como as Brejeiras tem essa dimensão de criar um espaço para as mulheres atuarem por que elas não se sentem tão à vontade para atuar nos espaços que estão aí estabelecidos”.

Parte do resultado do trabalho de garimpo do Samba Mulher são as cifras e áudios. Mas não pensem que tudo cai do céu, ou melhor, do Google na mão das pesquisadoras. Muitas músicas precisam ser cifradas, e a baixa qualidade das gravações disponíveis são um obstáculo a ser superado pelas pesquisadoras. “Muitos áudios a gente não encontra a letra. Então a gente tem que ouvir e escrever essa letra. Às vezes é difícil entender porque são gravações muito antigas e chiadas”, explica Denise. O trabalho parece ser infinito. “Cada vez que a gente vai pesquisando aparecem muitos outros nomes novos que fizeram várias composições e a gente não imaginava que existissem essas mulheres”. Muito além de uma grande performance musical, a Maria Navalha busca uma performance que leve ao público o sentimento e a mensagem das compositoras. “Isso porque acreditamos que ao ressaltar o protagonismo delas ao se colocarem como compositoras, como problematizadoras do seu cotidiano – das suas experiências, dos seus problemas, dos seus medos, das suas opressões ou das suas alegrias, das suas felicidades, dos seus amores – outras mulheres podem se sentir tocadas e reverberar isso em termos de protagonismo”.

“A gente toca esse samba que foi esquecido” 

Denise Faria

A Roda Maria Navalha não é formada exclusivamente por profissionais da música – mesmo porque achar algum músico que viva de sua música é coisa rara hoje em dia – no entanto as meninas têm longa experiência no samba. Além de das pesquisadoras Denise Faria (surdo e voz), Daniela Stubert (pandeiro), Larissa Vuitika (tamborim e voz) e Maiara Barros (voz), compõe a Roda Maria Navalha  Amanda Barros (voz), Bruna Alcantara (rebôlo), Fernanda Fausto (voz e tamborim), Halanna Aguiar (pandeiro), Jô Nunes (pandeiro e voz), Gisele Fontoura (cavaco), Joyce Pires Araújo (violão sete cordas), Karina Kaled (reco de madeira), Simone de Mello (violão e voz), Stephanie Ayrrola (tantan) e Thaís Medeiros (pandeiro e voz).

Neste 8 de março elas fizeram sua estreia oficial n’A Caiçara (antes disso elas se apresentaram ao público em dois ensaios abertos no Fidel Bar). Maiara Barros ressalta a importância desta data na resistência e luta das mulheres frente ao machismo e a sociedade patriarcal atual, além, é claro, da satisfação pessoal das integrantes da roda. “Tocar com as Brejeiras na Roda das Minas nesta quarta foi bastante representativo, tanto para a Maria Navalha, quanto para as mulheres que tocaram com a gente e também para as mulheres que estavam lá. O dia 8 de março faz com que as pessoas estejam borbulhando e reverberando ainda mais estas resistências. E a roda das minas é um projeto fenomenal que as meninas puxam. Puxam lindamente no intuito de algo que se expande para além delas. É um espaço que as mulheres chegam lá com seus instrumentos e se sentem à vontade para tocar. Por que de fato, é comum, quando chegamos numa roda de samba, ou até mesmo em outros ritmos, que a maioria dos musicistas sejam homens”.

Ensaio aberto no Fidel Bar | Foto: Everton Mossato

A estreia da Roda Maria Navalha e o contato com o público fortaleceram e ajudaram a consolidar o projeto Samba Mulher. “Estar lá com a Maria Navalha, que é este projeto que busca resgatar mulheres que expuseram seus contextos através das canções, das suas composições. Gente que falou na década de 30, que falou na década de 40, que falou na década de 60. E que falou sobre coisas que mais de cinquenta anos depois a gente ainda precisa pautar. A gente saiu de lá muito feliz porque tivemos a sensação e as respostas de aquilo não estava sendo apenas uma música cantarolada, mas sim uma música que passava pelos corpos que ali estavam”.

A execução da música Cassetete Não, que trata de violência contra a mulher e foi composta dentro do cárcere por Elvira Pagã, fez com que todos parassem para escutar a história de vida por trás da melodia e da letra que estava sendo cantada. “A importância deste momento foi justamente mostrar para nós mesmas que o caminho que a gente está escolhendo está apontando para um lugar que a galera está conseguindo palpar. Que realmente cantar compositoras, sambistas, é cantar um universo que muitas vezes as pessoas acham que não se poderia entrar em contato. Ou que isso seria possível somente através de uma conversa. É ressaltar a potência destas mulheres ao escreverem”. Na prática a intenção das meninas ao pesquisar e tocar essas compositoras é levar o protagonismo feminino a todas as esferas sociais. Por isso as mulheres da Roda Maria Navalha saíram de sua estreia emblemática com três palavras que serão o alicerce de sua história: Feliz, Forte e Empoderador.

Em breve o projeto Samba Mulher ganhará um site para reunir os dados coletados na pesquisa. O próximo passo será o aprofundamento da pesquisa, bem como avançar na linha do tempo do samba, chegando aos anos 2000. As compositoras locais (antigas e contemporâneas) também serão alvo do projeto e entrarão no repertorio. As apresentações da Roda Maria Navalha acontecerão quinzenalmente, aos domingos, em Curitiba. O bar que terá o privilégio de receber as meninas ainda não foi confirmado.

Para entrar em contato com a Mulher Compõe e a Maria Navalha fale com a Denise, a Maiara ou a Larissa pelo facebook.

Texto de Everton Mossato e Revisão de Maria Ramalho

 

 

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