Por José Pires e Everton Mossato

 

Nas décadas de 1970 e 80 em uma casa no bairro Capão da Imbuia, em Curitiba, o batuque rompia a madrugada. Bambas e boêmios puxavam samba de terreiro, partido alto e samba enredo. À frente de tudo o Mestre. Um mito forjado a cavaquinho e pandeiro. Uma figura antológica que, segundo alguns dos carnavalescos mais velhos da capital do Paraná, é o maior malandro que já andou em solo paranaense. Magro, cabelos grisalhos e pinta de carioca. Não era do Rio de Janeiro, mas do Largo da Carioca, na cidade de Antonina. A alma sim, essa era banhada pelas águas de Ipanema. A paixão pela Cidade Maravilhosa só cresceu quando ele por lá morou no final da década de 1940. Em 1951 voltou para Curitiba e criou raízes no Capão da Imbuia. Nasceu Mansueden dos Santos Prudente no dia 03 de julho de 1931. Aos 20 anos virou Mestre Chocolate. Foi integrante por muitos anos da Colorado e em 1971, depois de sair da escola da Vila Capanema, criou o Bloco Carnavalesco Ideais do Ritmo onde desfilavam, além de uma matilha de bambas, a família Chocolate, sua esposa, filhos e até sua mãe. As fantasias, alegorias e adereços eram improvisados. A bateria, porém, se não era a maior, era a melhor. Com pouquíssimos instrumentos – até afinada demais para os padrões do Brasil Meridional -, vinha com o entusiasmo do samba-enredo de autoria do próprio Chocolate.

O Ideais do Ritmo fez história no carnaval curitibano. Sempre no aperto financeiro, salvo pelas boas almas que contribuíam com o Livro Ouro, o bloco se firmou como referência no desfile de carnaval em Curitiba. Acontece que em 1984 Mestre Chocolate foi fazer samba em outras paragens, como dizem os mais velhos ele “pulou o muro”. Depois do falecimento de Chocô o bloco fez uma pausa e desfilou somente em 1986. Desde então nunca mais o Ideias foi pra avenida, esteve representado em todos os anos, como em 2014 quando Mestre Chocolate recebeu uma homenagem em alusão aos 30 anos de sua morte. Mas sambar no asfalto da Marechal, contagiar a plateia com seus sambas, nunca mais.

A árvore não secou

Em janeiro de 2017, em um endereço da Rua Leopoldo Belczak, no Capão da Imbuia, um bamba, de cavanhaque branco, chapéu e óculos na ponta do nariz levanta o dedo em riste e decreta “esse ano o bloco vai voltar!”. Depois de muitos ensaios, a união entre sangue novo com os grupos “Samba do Sindicatis” e “Maria Navalha”, a chegada de sambistas jovens na companhia dos dinossauros da velha guarda compôs uma mistura de respeito, coisa fina. Embalados pela lenda do velho Chôco, sob a orientação de seu discípulo mais chegado, Moyses Ramos, o Ideais do Ritmo despertava novamente, tão ávido como nos bons tempos.

Renasceu

Na concentração que antecede o desfile, no dia 25 de fevereiro passado, Moyses corre pra lá e pra cá. Busca um instrumento, manda uma mensagem por WathsApp, pergunta sobre fulano, conta uma anedota pra ciclano, dá um gole em uma lata de cerveja. É impossível esconder a ansiedade, afinal, depois de mais de 30 anos o bloco volta pra avenida com todo o seu esplendor. Um retrato vivo do carnaval curitibano, história pura.

Mais de três décadas depois o bloco pisa na Avenida

“Cinco minutos” diz a placa levantada por um funcionário da Fundação Cultural de Curitiba em referência ao tempo que os integrantes têm pra começar o desfile. Apenas cinco minutos separam uma história de décadas. E o Bloco sai, ganha o asfalto do centro da capital. Na frente vem Tia Hilda, esposa de Chocolate. Aos 85 anos de idade ela samba com leveza. Calça, camisa e chapéu branco repleto de lantejoulas. Tia Hilda fecha os olhos e abre os braços. Sente a energia da avenida, parece ganhar um abraço do velho Mestre, presente ali em memória e espírito. O Ideais avança destilando o samba enredo “Renascer” composto por Moyses e por seu filho Kim Ramos, pelo jovem sambista Jefferson Baby e por Ricardo Salmazo.

Tia Hilda puxou o desfile ao lado dos dinossauros do bloco

À frente também vai, além de Tia Hilda e Moyses que puxa o samba, Carlos Fernando Mazza, o Mazzinha, melhor Mestre-Sala que Curitiba já viu, o Tio Léo e sua esposa, Dani, além de outros dinossauros da época de Chôco. Passa ali, sob os olhos da plateia, a história viva do carnaval de Curitiba. Ainda no início do desfile, juntam-se aos pouco mais de 30 integrantes um senhor em cadeira de rodas e sua esposa. Ele de camisa preta e chapéu branco, ela fantasiada de Charlie Chaplin. Era Glauco Souza Lobo, antigo carnavalesco da capital paranaense e também ex diretor da Fundação Cultural de Curitiba. Amigo de Mestre Chocolate desde a década de 1950, ele não mediu esforços pra desfilar no bloco, mesmo com dificuldades para caminhar, o que exige a ajuda momentânea de uma cadeira de rodas. “Fui parceiro do Chôco, era meu amigo desde 1956 quando eu desfilei na Não Agite. Saber da volta do Ideais foi tão forte que eu saí de casa só pra desfilar em dois blocos: No De Repente, que é o renascer do Vai na Rolha quem quer e no Ideais do Ritmo. O Chocolate era uma figura antológica, ao lado do Maé da Cuíca foi o maior compositor que Curitiba já teve. Talvez, o Chocolate tenha sido o maior compositor do Paraná. Era mais gente, mais comunidade, mais vida sofrida. Além disso era um boêmio enlouquecido. Então, apesar da minha dificuldade pra andar, eu fiz questão de vir pra avenida prestigiar esse bloco maravilhoso”, conta.

Moysés Ramos, discípulo do Mestre Chocolate e responsável pela volta do bloco

“A árvore não secou, tem louro pra colher, o nosso bloco não morreu, adormeceu para hoje renascer”, diz o refrão do samba cantado pelos integrantes do Ideais no carnaval deste ano. Além do renascimento, representado pela volta do bloco à Avenida, houve também o surgimento de novos integrantes como Ricardo Salmozo, o Ricardinho, do Samba do Sindicatis, que escreveu uma biografia do Mestre Chocolate em seu trabalho de Conclusão de Curso (TCC). “Foi incrível participar desse desfile. O samba enredo começou a ser feito em um domingo à tarde aqui no Bar Fidel, no centro da capital. Quem começou a fazer foi o Moysés, o Jeferson e o Kim. Aí a coisa foi surgindo, tudo em volta do Louro e eu criei uma das estrofes. A melodia foi feita por mim e pelo Jefferson. Fiz um TCC sobre a vida do Chocolate, já conhecia o Moysés há uns seis anos e estou falando com eles desde setembro do ano passado sobre a biografia do mestre chocolate. Rolaram uns 10 ensaios antes de virmos pra Avenida”, lembra o músico.

Anderson Faísca e Ricardinho

Mesmo os mais antigos, acostumados com a magia da Avenida, fizeram questão de destacar que o desfile do Bloco Carnavalesco Ideais do Ritmo foi um momento único. “Esse momento foi histórico, espero que ele se repita todos os anos. Espero ainda mais, quero que o Ideias se torne uma escola de samba. Nosso carnaval precisa disso. O Chocolate foi uma das maiores lendas do nosso carnaval e desfilar hoje pelo bloco foi reviver toda a sua história”, enfatizou Carlos Fernando Mazza, o Mazzinha.

Missão cumprida

Ao final do desfile um par de sapatos brancos parece esquecido sobre o asfalto da Marechal Deodoro. Os pés que ele acolheu precisaram de um “ar”. Ao lado o grupo de sambistas, comandado pelas meninas do “Maria Navalha”, donas da cuíca, dos chocalhos de outros instrumentos durante o desfile, continua cantando e tocando. Tia Hilda para, respira fundo, olha pro céu. Encurtando as resposta das perguntas feitas pelo repórter, que prometia uma entrevista repetitiva e enfadonha, ela diz, “foi tudo maravilhoso, tudo maravilhoso”.

Kim Ramos e outros bambas

A missão havia sido cumprida, o Ideias estava de volta. “O samba falou mais alto. Dever cumprido. Eu vejo uma bela perspectiva pro nosso bloco com o vinda dessa moçada, das meninas da Maria Navalha, do Samba do Sindicatis, de uma assessoria de imprensa com o Everton Mossato e o José Pires. Eu acredito que cumprimos o nosso objetivo que era o de trazer a alegria do eterno Mestre Chocolate pra avenida mais uma vez. Esse retorno estava sendo gerado desde março de 2013 quando dois jornalistas começaram a fazer reportagens sobre a história do bloco e sobre seus personagens. E conseguiram captar o espírito da coisa. Precisávamos desse sangue novo. Saímos sem verba nenhuma, fazendo uma vaquinha aqui, outra ali, o que queríamos mesmo era espaço. Agora, nos aguardem pro ano que vem. O último desfile do Mestre Chocolate foi em 1984 aqui nessa avenida. Naquele ano ele recebeu do Glauco, que desfilou aqui com a gente, o título de Cidadão do Samba. Depois disso o bloco saiu em 1986. Sempre estivemos representados na avenida, em 2014, quando fizeram 30 anos que o velho tinha pulado o muro, nós saímos com uma ala na escola Unidos do Bairro Alto. Quem saiu com a gente hoje é porque realmente ama o samba”, resume Moyses Ramos.

Larissa Vuitika, do grupo Maria Navalha

O carnaval curitibano ainda vive, mesmo que com dificuldades

Nos últimos anos muitas escolas e blocos deixaram de desfilar no carnaval de Curitiba. Para Glauco Souza Lobo isso é reflexo de uma tentativa de acabar com o carnaval por parte de alguns políticos da cidade. “Nosso carnaval perdeu apoio, a nossa elite e nossos políticos cismaram de acabar com ele. Mas não vão conseguir e são uns imbecis de pensar nisso. Primeiro levaram os desfiles lá pro cemitério do samba que é perto do Palácio do Iguaçu. Lá é bom pra palácio do governo, pra Alep, pra carnaval não. Imagine uma avenida de desfile em descida em com uma curva, onde os carros alegóricos precisavam ter um ótimo sistema de freio. O Carnaval tem que ser aqui, perto de diversas praças com pontos de ônibus, onde a população possa ter facilidade em chegar”, arremata. Anderson Faísca, harmonia da Escola de Samba Mocidade Azul e que tocou cavaquinho no desfile do Ideais do Ritmo, lembra que há alguns anos a Marechal recebia muito mais escolas e blocos.  “Há 18 anos desfilo na Mocidade Azul. Naquela época havia a Tradição Rubro Negra, a Colorado, A Zebra do Batuque, a Sapolândia, a Bom à Beça, que era uma escola de samba evangélica, era a única do Brasil. O incentivo da prefeitura foi diminuindo com o passar dos anos. Na época existia a Liga das Escolas de Samba. Essa verba da prefeitura deveria vir 180 dias antes do carnaval, mas veio dois dias antes. Uma época veio a Rosa Magalhães, carnavalesca do Rio, pra melhorar o carnaval daqui, aí pagaram hospedagem, alimentação e honorários dela e descontaram da verba das escolas de samba. Nosso carnaval é lindo, mas carece de mais incentivo por parte do poder público”, finaliza.

Confira os vídeos do desfile do Ideais do Ritmo no carnaval 2017

Desfile do Bloco Carnavalesco na Marechal Deodoro.- 25/02/2017

Posted by Bc Ideaisdoritmo on Sunday, February 26, 2017

Desfile do Bloco Carnavalesco na Marechal Deodoro.- 25/02/2017

Posted by Bc Ideaisdoritmo on Sunday, February 26, 2017

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José Pires

É Jornalista idealizador do Parágrafo 2. Trabalhou como repórter na Região Metropolitana de Curitiba e como Assessor de Imprensa. Dirigiu o documentário Tabaco – As folhas da incerteza. Acredita que o Jornalismo é mais do que a reprodução dos fatos mais relevantes do dia

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