Por José Pires e Rafael Pires de Mello 

1 – Roteiro

O filme saia da bobina e entrava no projetor. Os furos nas laterais da película se encaixavam nas rodas dentadas, que iam puxando-a, fazendo cada fotograma parar diante da luz. Era tudo tão rápido que a cada segundo passavam pelas lentes 24 fotogramas – velocidade que fazia com que a imagem parecesse em movimento. Na grande tela dois jovens italianos, Mario e Natalia, protagonizavam um romance ambientado nas poéticas noites de inverno na cidade de Livorno. Sentado à primeira fila, Lélio Sotto Maior não ousava piscar. Estava estático, abismado diante da vida que brotava por meio de uma projeção. Saiu da sessão sem saber se andava, corria, ou se sentava na calçada e esperava alguns minutos para conseguir enfim digerir o turbilhão de sensações que sua primeira sessão de cinema havia lhe proporcionado. Decidiu sentar, respirou, suspirou, até que, depois de longos minutos, conseguiu pegar o caminho de casa.

Fellini dizia que “o cinema é um modo divino de contar a vida”. Para alguns, no entanto, ele é a própria vida. Simetria que confunde viver e interpretar, ilusão e realidade. Lélio Sotto Maior conheceu a Sétima Arte em 1961 no Cine Clube, na Biblioteca Pública do Paraná em Curitiba, onde assistiu ao filme “Le Notti Bianche”, de Luchino Visconti.

“Le Notti Bianche”, de Luchino Visconti.

Depois de ver a película ítala, Lélio passava dias da semana no Cine Clube assistindo obras de Michelangelo Antonioni, Roberto Rossellini, Vittorio De Sica e outros expoentes do Neo Realismo Italiano. Em 1963, aos 18 anos de idade, conheceu o movimento francês Nouvelle Vague, uma nova estética de cinema criada na França. Depois de ver filmes de François Truffaut, Jean-Luc Godard, Alain Resnais, Claude Chabrol, Agnès Varda, Jacques Rivette, decidiu que sua vida seria isso: Cinema.

2 – Produção

Sabia que produzir a sétima arte era algo complicado que demandava tempo e dinheiro. Resolveu então escrever sobre cinema. Sua primeira crítica foi publicada em 1963 no jornal O Estado do Paraná. Semanalmente, durante seis anos, escrevia textos sobre cinema para o periódico. Escreveu críticas também para Diário do Paraná, Revista da Cinemateca, Correio de Notícias, Folha do Paraná, Jornal do Estado e para a revista norte-americana Florida Review Magazine.

Se escrever sobre cinema era um prazer, vê-lo, na poltrona que se escondia sob a escuridão, era, segundo ele, divino. Não demorou a conhecer o Cinema Novo, movimento cinematográfico brasileiro que tinha como grande princípio a máxima “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” e propôs deixar os obstáculos causados pela falta de recursos técnicos e financeiros em segundo plano. “Gosto de todos os cineastas no cinema novo. Do Glauber, do Nelson, do Ruy Guerra. Esse estilo tem uma linguagem cinematográfica solta, livre, desembaraçada dos convencionalismos. Os filmes eram impactantes, colocavam a realidade social da época em cima de tudo”, enfatiza Sotto Maior. Entre todas as obras desse estilo no entanto, há uma, que para ele, é inigualável. “Terra em Transe, do Glauber Rocha, é primorosa”, diz.

Um jovem, um poeta e muitos Martinis

O amor pelo cinema, a possibilidade de escrever sobre ele em um jornal de grande circulação e as idas e vindas em sessões, seminários e oficinas de cinema emergiram o jovem Lélio no “mundo cultural” de Curitiba. Em um festival que exibia filmes do diretor russo Eisentein acabou conhecendo um sujeito estranho, de óculos, bigode espesso e cigarro entre os dedos. Depois de um breve bate papo entre os dois a empatia foi imediata. Paulo Leminski, maior poeta paranaense, ficara admirado com a classe do jovem ao comentar sobre filmes.

Os dois passavam horas assistindo e depois, como lembra Lélio, varavam a noite “descontruindo” cada uma das obras que haviam visto. “Nossa amizade era muito forte. Quase todos os dias assistíamos alguns filmes e depois, na companhia da galera debatíamos o filme e outros temas artísticos durante toda a madrugada”, lembra. A “galera” se reunia no Edifício São Bernardo, no centro de Curitiba. Lá, Leminski debatia de cinema à política, de judô à literatura com intelectuais, boêmios e artistas da época. Se reuniam no apartamento, para deleite da história cultural e para horror dos vizinhos, nomes como Paulo Vítola, Paquito, Christo Dikoff, Antonio Carlos Kraide, Julinho Karatê, o irmão Pedro Leminski, Eduardo Portela, Carlos João, Wilson Bueno, o “hippie” Olavo e muitos outros. Lélio Sotto Maior estava entre eles e, como não podia ser diferente, compartilhava e ampliava seus horizontes sobre a sétima arte. “Falávamos muito sobre cinema, eram noites incríveis, o Leminski sabia um pouco sobre tudo, mas sabia principalmente ouvir, sempre acompanhado de seu copo de Martini, nossa como ele bebia”.

3 – Pós produção

No estreito corredor do apartamento no bairro Cabral Lélio espera com as mãos enfiadas dentro dos bolsos da jaqueta marrom. Chapéu Fedora, óculos escuros com armação verde, calça jeans e tênis vermelho.

– Qual o signo de vocês. Pergunta depois de um breve cumprimento.

– Câncer e Sagitário.

– Bons signos. Responde enquanto se move com dificuldade para o quarto.

Uma TV de 50 polegadas faz hoje o papel que a grande tela do cinema fez durante muitos anos. Nas prateleiras do quarto uma coleção de DVDs com clássicos do cinema europeu, do estadunidense e do nacional. Em outra livros de filosofia, história e alguns romances. Lélio Soto Maior, considerado por muitos paranaenses como o maior cinéfilo do estado, hoje aos 70 anos de idade e com a saúde muito debilitada, passa os dias vendo e revendo as películas que marcaram todas as fases de sua vida. Limitado ao apartamento onde vive na Avenida Paraná, o ex crítico de cinema vive entre a realidade que a idade e os problemas de saúde lhe impuseram, e o fantástico mundo trazido aos olhos pelo universo da sétima arte.

 

Uma rotina de clássicos

Arqueado ele caminha muito devagar. As pernas quase não obedecem. A voz, um sussurro que exige a aproximação do interlocutor, como que em uma sala de cinema, evitando a bronca do lanterninha, cochicha vagarosamente. Se o corpo é um limitador, o cinema abre portas e janelas. Mergulhado em closes, big closes, travellings, Sotto Maior passa os dias em frente da tela, revendo antigos clássicos, tem aversão ao novo “o cinema de hoje é muito bocó, feito pra vender”, justifica. Até pouco tempo ainda escrevia, em 2015 lançou “Mini Críticas de Bolso”, seu terceiro livro, todos dedicados, obviamente, ao cinema. Segundo ele, esta publicação, de 40 páginas e dezenas de textos curtos, tem a finalidade de chamar atenção para um cinema que não existe mais. “O que se vê, hoje, nas telas dos cinemas dos shoppings é uma sequência de imagens, barulhos e muita movimentação. Não há mais silêncio, nem poesia, nos filmes. O cinema de autor acabou”. Hoje, Sotto Maior não vê a vida passar pela janela, como afirma o dito popular, a vê passar pela tela.

 

 

 

 

 

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José Pires

É Jornalista idealizador do Parágrafo 2. Trabalhou como repórter na Região Metropolitana de Curitiba e como Assessor de Imprensa. Dirigiu o documentário Tabaco - As folhas da incerteza. Acredita que o Jornalismo é mais do que a reprodução dos fatos mais relevantes do dia

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