Pão e Pedras: Amenidades e Poesia 

A juventude é aquilo que transforma, aquilo que cria. O velho é aquele que se congela, aquele que se paralisa. Podemos dizer que em territórios colonizados, como o nosso, a condição para a exploração é o sufocar da própria juventude. Para que o velho persista, viva para sempre, é necessário sufocar, reprimir, sugar tudo aquilo que remeta ao jovem. Se pudermos parafrasear Marx, em um interessante trecho de O Capital, diríamos que “A força é a parteira de toda sociedade velha que traz uma nova em suas entranhas”. O autoritarismo e a exploração de nossa sociedade contemporânea nos revelam que esta frase, de mais de um século, permanece atual.

A imensa diversidade – cultural, étnica, científica – disso que chamamos Brasil é subjugada, escamoteada ante o institucional, o cinza, o podre, tendo em vista legitimar o privilégio de uma classe sobre a outra. Deter este monstro que sufoca e oprime não é tarefa fácil.

Aqueles jovens de 1968 – também na França, mas principalmente nas guerrilhas da África, Ásia e América Latina contra o colonialismo e as ditaduras militares – transformaram o modo como se via e fazia política, levando para as ruas juventudes com ideias que se hoje são difíceis de ser digeridas por muita gente, naquele tempo eram ainda mais inadmissíveis. Feminismo, luta anti-racista, anti-colonial, anti-fascista, ambientalista.  A juventude está presente e permanece quando se cria toda uma geração que acredita na ciência não como algo acima dos seres terrenos, que, sendo neutra, paira como um deus acima de mulheres e homens, mas como uma ferramenta de luta que dá legitimidade para aqueles que dentro desta grande disputa social entre o velho e o novo, lutam contra e sofrem com as contradições inerentes ao nosso atual modo de produção.

Pensando no novo, no jovem – ainda parafraseando o trecho de Marx – para que este surja, permaneça e transforme o modo como vivemos, é necessária a contribuição do diferente, do divergente, do louco, do errado, do incoerente, e de tantas outras matizes disso que chamamos conhecimento. Caso contrário, o jovem morre de velho. Logo, não podemos prescindir apenas dos grandes nomes e referências. Queiramos mais que formadores de opinião, pois iluminar, potencializar uma voz pode significar calar e ocultar uma porção de outras. É o silêncio e a escuridão de muitos em detrimento da estrela brilhante de uns poucos. Não podemos envelhecer!

Não podemos, neste sentido, estar alheios ao que ocorre no mundo real, pois o que produzimos em matéria de conhecimento e de política, se não chega aos pobres como melhores hospitais, educação e qualidade de vida, chega inevitavelmente como novas armas para a repressão, chega como expropriação, como vício e violência. Aqueles que se dizem neutros limitam, castram. Estar em cima do muro é estar com o dono do muro.

Entendo, portanto, que no espectro político atual, as concepções políticas de organizações de esquerda tradicionais não conseguem se renovar, trazer para consigo a juventude. Tanto nos atos pró-impeachment quando nos pró-governo petista, faltaram ainda aqueles jovens empolgados que mobilizaram os primeiros atos de Junho de 2013. E onde eles estão agora? Ocupando escolas? Disputando as ruas? Fazendo política? Podemos pensar este fenômeno a partir de duas concepções de mundo.

Uma destas entende o Espaço como um sistema já fechado, inerte, onde cabe ao Estado ou dirigente apenas conhecer profundamente suas equações e variáveis para conhecer e nele intervir. O Espaço estaria subdividido em sistemas e subsistemas, aos quais devidamente conhecidos poderíamos através dos estímulos corretos (input) obter sempre as mesmas respostas (outputs), ou seja, através do conhecimento das variáveis do Espaço poderíamos prever e conduzir o processo histórico com equações matemáticas, estatísticas.     Quando se vê o Espaço desta maneira, é natural – por falta de outra palavra – que a política se distancie cada vez mais do cotidiano do povo. Nos especializamos, em nossos cargos de direção, em saber cada vez mais de cada vez menos, tendo em vista conhecer cada peça deste sistema, desta máquina, sendo o cientista, o intelectual somente mais uma peça no encaixe final de um pensamento que é própria da divisão do trabalho na industria moderna. O pensamento, em si, é maquinal. À direita e à esquerda  pecam por querer conduzir, guiar, e não fazer junto com os jovens.

Outra maneira, a dos jovens, enxerga o Espaço como um algo em constante movimento, e do qual seria impossível captá-lo em sua totalidade, pois ao reconhecê-lo este já se transformou em outro, já é diferente. Neste ponto de vista, nos aproximamos de nossos colegas da Física Quântica. Para quem atua na educação, de maneira geral, consegue observar a pertinência desta concepção. Uma sala de aula não é, nunca igual a outra, e mesmo a mesma turma de educandos não é a mesma que no dia anterior. Entendendo o mundo desta maneira é possível entender que estudos e concepções estritamente teóricos e abstratos influem sim na realidade, da mesma maneira que os estudos atômicos deram a possibilidade para, ao mesmo tempo grandes avanços na medicina e da construção de armas nucleares.

Um modo de ver integra, o outro exclui. Um deles fecha-se na máxima platônica de que existe uma verdade perfeita a se atingir, enquanto a outra entende que existem verdades relativas, regimes de verdade e ideologias que se impõem a todos como totalidade, levando de roldão uma infinidade de saberes e simbologias.

Vivemos um quadro preocupante. Empresas privadas passam a controlar os currículos de escolas e universidades de acordo com seus interesses econômicos, instalando-se em laboratórios e centros de pesquisa, financiando festas para centros acadêmicos visando obter uma mão de obra especializada e subserviente. Governos, que tem suas campanhas financiadas por estas mesmas empresas, criam leis e mudam os regulamentos e políticas para o ensino visando viabilizar este projeto. Não é à toa que há uma política nacional de sucateamento e privatização de setores da universidade e da escola, como é o caso da EBSERH, com os hospitais universitários federais, ou a HRAC, dos hospitais universitários estaduais de São Paulo, e agora a MP do Ensino médio e a PEC de congelamento de gastos públicos por 20 anos. O lucro individual é sempre colocado acima dos interesses coletivos, e muito conhecimento é gerado para legitimar tal postura, tendo consciência ou não, muitos colaboram para isso, nas empresas de planejamento do Estado ou nas escolas.

Devemos nos contrapor a esta forma de fazer conhecimento e política, se acreditamos sim que a formação  básica e universitária é algo transcendente, que extravasa o mercado de trabalho. É muito comum ouvirmos de nossos colegas que a escola e a universidade não os preparou devidamente, pois esta ou aquela situação não estavam dentro do currículo ou de tal disciplina. Dentro de uma perspectiva que vê o Espaço enquanto movimento, a tarefa de preparar um pessoa para a atuação meramente profissional é impossível. Às escolas e universidades cabe nos armar de conceitos chaves básicos para que possamos, de maneira autônoma e consciente, atuar como técnicos, pesquisadores e/ou professores, sem receitas prontas, mas sabendo que em um espaço dinâmico e não isento de contradições, nossa atuação política transforma a vida de muitas pessoas, para bem ou para mal.

Neste sentido, a juventude é importante. Não a juventude como idade, pois podemos permanecer jovens mesmo aos 65 anos de idade se a vontade por transformação ainda nos movimenta. A juventude é importante pois somente através dela e dos questionamentos que a juventude faz, mudanças e conquistas no âmbito social se realizam sendo, nas palavras de Chico de oliveira, um freio para toda esta irracionalidade que vivemos. Se posso dizer a algo para a juventude pra 2017 é que se incomodem e questionem o poder, a escola, a prisão. Questionemos tudo o que está ao redor. Pois quando morre o questionamento é a possibilidade da juventude que morre junto com ele. Jovens, dos 0 aos 103 anos, vamos nos unir!

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Kauê Avanzi é mestrando em Geografia pela USP, educador no Ensino Básico, poeta e músico. Gosta de escrever, se divertir e confraternizar.

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