2ª parte da entrevista com Fred Zero Quatro, um dos fundadores do movimento Manguebeat, o último grande movimento da música brasileira.

 

Manguebeat

Os rios, pontes e overdrives do Recife antes do movimento Maguebeat não eram nada convidativos às bandas locais, sobretudo às que ousavam misturar o velho e o novo. “O Mundo Livre mesmo passou 10 anos como banda de garagem, sem ter onde tocar porque o ambiente do recife em termos de consumo de música era totalmente conservador. Ou era uma coisa enlatada (de fora) ou era uma coisa regionalista, purista pra caralho. Ainda mais com o lance do Armorial [de Ariano Suassuna]”.

Diferente de outros movimentos da música, como a tropicália e bossa nova, o Manguebeat não tinha uma batida padrão. Era mais uma atitude, uma filosofia, do que uma sonoridade padrão. Característica que permitiu aglutinar diversos elementos ao movimento. “A gente acabou que ajudando a colocar no mapa, a tirar do anonimato, os mestres roots também. Gente que estava lá há décadas precisando aparecer. Como o mestre Salú, Selma do Côco, Lia de Itamaracá.  Teve ainda a galera que apareceu com a gente. China, Otto, DJ Dolores, Siba. E aí tem uma galera de uma geração mais nova. Orquestra Contemporânea de Olinda, Academia da Berlinda”, explica Fred sobre até onde alcançou as garras do movimento.

Zero Quatro conheceu o som do CSNZ (Chico Science & Nação Zumbi) antes mesmo de este ser o nome da banda. Numa época que eles ainda não tinham música própria. Quando tocavam músicas do Ira! e do The Who. “Eu vi a primeira experiência de Chico com o Lamento Negro, antes de virar Nação Zumbi. E eu não tinha a menor dúvida de que aquilo ia ser a melhor coisa do Brasil em décadas. Eu virei para Renato [L. ministro de informações do mangue], e disse: Meu irmão, a gente pode tá no cu do mundo, há milhares de quilômetros da indústria, sem nenhum produtor, sem nenhum empresário, sem nenhuma gravadora, sem dinheiro no bolso, sem nada. Mas vou te dizer: Ninguém vai segurar isso aí não. Isso aí vai ganhar o mundo. Tenho certeza disso”. Fred, que já havia comandado programa de rádio universitária e na Transamérica, foi produtor e era figura conhecida nas gravadoras, tinha bagagem o suficiente para saber que estava diante de um novo fenômeno musical.

Pernambuco era o local perfeito para sediar o novo movimento musical, dada a originalidade e personalidade dos agentes precursores do manguebeat. “Quando aparece uma coisa muito inovadora. A lógica da Bahia, por exemplo, é seguir a mesma coisa. Todo mundo começa não só a incorporar elementos daquilo ali para fazer parecido, como a tocar a música deles também. Eu acho que tem todo um mérito isso”. No entanto Fred lembra que no momento em que se deparou com o novo som de Chico e do Lamento Negro, nem cogitou em mudar seu som para se parecer com o CSNZ. “Eu já tinha minha linguagem. Já tinha dez anos de banda. O mesmo eu digo de Siba, Mestre Ambrósio. Todo mundo quer ser original. Recife tem esse defeito de fabricação, digamos assim”.

Fred Zero Quatro em apresentação no Jhon Bull – Curitiba/PR | foto: Dyego Martins

CSNZ x MLSA

Em 2013 as bandas fundadoras do movimento manguebeat gravaram o álbum intitulado Mundo Livre S.A Vs Nação Zumbi, onde uma banda tocou músicas da outra. No derby do mangue quem ganhou, é claro, foram os fãs dos malungos. Este clima de rivalidade, por mais que não encontre muito espaço entre os integrantes das duas bandas, sempre foi motivo de conversas acaloradas entre seus seguidores e seria leviano achar que comparação direta não existe. Fato é que, na humilde opinião deste pobre escriba, ambas as bandas carecem do reconhecimento merecido por sua contribuição à música, sobretudo à música brasileira.

Zero Quatro lembra uma metáfora futebolística do jornalista Alex Antunes para contextualizar a discussão. “Chico Science & Nação Zumbi são o centroavante. Aquele que, por um lado vai estar mais exposto a levar porrada, a ser criticado ou elogiado. Mas vai estar mais exposto. E o Mundo Livre S/A é o armador. Que não joga pra torcida. Joga pro movimento, pro time. Mas que o técnico sempre vai estar escalando. Sem ele o time não joga”. Em resposta ao amigo Fred tinha sua própria metáfora. “Eu digo que Nação Zumbi é uma puta cachaça boa. Que basta dois goles para dar o coice. E o Mundo Livre é uma outra linguagem… não que seja melhor, ou mais sofisticado, ou de bom gosto. Mas é aquela bebida que demora mais pra bater. Não bate na primeira dose”.

A digestão da sonoridade do MLSA (Mundo Livre S/A) não é imediata. Fred lembra das palavras de sua amiga Karina Buhr sobre a banda. “Depois de um bom tempo… sei lá, anos. Foi que ela [Karina] chegou pra mim e disse: Fred, eu vou ter que te confessar que no começo eu não curtia Mundo Livre não. Eu demorei a entender a linguagem de vocês”.

Falando sobre a comparação direta entre as bandas Fred Zero Quatro lembra do momento do lançamento dos primeiros álbuns das bandas, lá pelos idos de 1994 e revela. “Se eu disser que nunca me incomodou esse lance de todos os holofotes estarem voltados para o Nação Zumbi, que os caras sempre tiveram muito mais convites para festivais, muito mais investimento. Por exemplo, quando eles assinaram com a Sony, logo pro primeiro disco, eles ganharam, me parece que dez mil dólares só para comprar equipamento. Enquanto eles compraram amplificadores fuderosos, uma [guitarra] Telecaster Fender fuderosa… Eu continuei com meu cavaquinho que nem afinava direito. Consegui comprar uma guitarra com oito cheques pré-datados que me emprestaram. Porque a Banguela [gravadora] não tinha um tostão pra dar de advanced. Então, se eu disser que isso nunca me incomodou… Claro que incomoda né? Mas assim, por outro lado. Quando saíram as primeiras críticas do primeiro disco, do Samba Esquema Noise, a manchete da Ilustrada era O Disco da Geração 90. Depois até fiquei sabendo que isso incomodou pra caralho o Chico Science”.

WWW e os direitos autorais, uma equação que não fecha

“Nego fica cada vez mais viciado em pegar de graça”. Fred Zero Quatro vê uma certa perversidade neste comportamento moderno do público, sobretudo o público brasileiro. Enquanto comemoramos o fim das gravadoras, segundo o ponto de vista do compositor, esquecemos de refletir o impacto que tal ato causa na cadeia produtiva da música. Invocando o “Culto do Amador” de Andrew Keen, Zero Quatro se mostra desolado com o novo cenário que enfrenta os profissionais, inclusive os da música. “Vale mais um negócio que não é profissional, do que um que é profissional. Utopicamente isso é lindo, romântico. Mas em termos de sustentabilidade da cadeia produtiva isso é perverso”.

Neste cenário a arrecadação com a venda de discos e DVD’s nem entra mais no orçamento dos músicos. Mas e os shows, aí estaria a salvação das bandas certo? Errado. Segundo a revista da UBC (União Brasileira dos Compositores) em setembro de 2016 a queda de arrecadação de direitos autorais de shows foi de 80% em relação a setembro do ano passado. “A música NÃO SERTANEJA praticamente não tem como se sustentar”. O Mundo Livre S/A conta com uma grande quantidade de fãs que acompanham a banda há décadas, e são eles que dão fôlego à banda nestes tempos de “pegar de graça”.

A mudança na realidade dos profissionais da música fez com que Fred também alterasse sua postura dentro de casa. Pai de dois filhos, Caio e Victor, o mais velho com 14 anos, Zero Quatro inicialmente incentivava e ficava apreensivo para saber que instrumento cada filho tocaria. Hoje em dia ele já não deseja com tanto entusiasmo a carreira de músico aos herdeiros. “Eu fui vendo a cadeia produtiva mudando, as gravadoras fechando, os selos fechando, as lojas fechando, tudo fechando… não vou reprimir [os filhos], mas dizer que vou fazer campanha empolgado para que eles se dediquem, em termos profissionais, não. Música é um troço que está se encaminhando para virar malabares ou poesia”.

 

Escute um trecho da entrevista em que Fred fala de seu encontro com Jorge Ben no festival de Garanhuns.

 Fred Zero Quatro fala de Chico Science

 

Não leu a primeira parte da entrevista? Clique aqui

Texto e entrevista:  Everton Mossato

Produção e entrevista: Mario Costa

Fotos:  Dyego Martins

Links:

Mundo Livre S/A

https://www.facebook.com/mundolivresa

Dyego Martins – Fotografia Musical

https://www.facebook.com/dyegomartinsfotografia

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Everton Mossato

É jornalista, cofundador do Parágrafo 2, “emprestado” ao funcionalismo público. Descabaçou como repórter em jornais de bairro de Curitiba. Já teve uns blogs e editou o documentário Tabaco – As folhas da incerteza. Aprecia o ritmo de produção intermitente e acredita que “uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor”.

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