Naquela época eu tinha oito anos, e particularmente naquele 5 de dezembro eu havia faltado à aula. Em casa, navegava pela internet. Percorria um universo entediante de sites, via coisas pela metade, ouvia músicas novas e depressivas, e assim seguia minha tarde de recuperação da dor de barriga que havia inventado para os meus pais, que já estavam no trabalho àquela hora. Depois da sexta, faltar na segunda-feira era a melhor coisa que existia.

Seguia minha tarde de descanso tranquilamente quando, de repente, li sobre a morte do poeta Ferreira Gullar. Ele era um poeta muito famoso, tinha uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, era respeitado pela maioria dos intelectuais e todas essas coisas mais que tornam um homem importante. Era respeitado pela maioria dos adultos e, assim, pensei, deveriam haver diversas frases emocionadas. Devem haver muitos elogios, conclui. Resolvi olhar os comentários e ver o que as pessoas diziam acerca de sua morte. Foi aí que tive uma grande surpresa ao constatar várias ofensas desferidas ao poeta. Era muito diferente do que eu esperava encontrar. Queria ver os velhos Requiescat in pace* (expressão charmosa que havia aprendido com meu pai, um sujeito muito letrado, diga-se). Mas não. Apesar de muitas pessoas dizerem nos comentários que Gullar havia sido uma pessoa respeitável, diziam que, por um infortúnio ideológico, ele tinha mudado suas convicções numa espécie de “traição do movimento”, sendo chamado de fascista, reacionário e outros termos que não cabe mencionar aqui. Fiquei espantado porque a maioria daquelas ofensas vinham de pessoas supostamente esclarecidas e sensatas. Isso imediatamente me fez lembrar de um caso semelhante, mas que, diferentemente desse que se relacionava com a Esquerda, era protagonizado pela Direita. Era o caso de Chico Buarque. O famoso cantor era tido por muitos como gênio, inclusive por aqueles cujo movimento “acabou traindo” tempos mais tarde. Se, no início, Chico tinha um apoio quase indistinto das pessoas, depois de expor suas opiniões políticas acabou se tornando um sujeito capaz de atrair fascinante ódio da Direita, e inclusive de seus antigos fãs. Eles viam-se decepcionados com a postura ideológica do cantor, e chegavam a desconsiderarem sua contribuição poética e musical, relegando suas obras ao status de patéticas ou medíocres. Se por um lado a Direita odiava o Chico, naquela sexta-feira a Esquerda parecia odiar o Gullar. E fiquei em dúvida sobre quem eu deveria odiar.

 

Desliguei o computador, peguei um livro do Edgar Allan Poe, meu ídolo literário, e resolvi passear no parque, para lê-lo quando chegasse lá. No caminho entre minha casa e o parque havia a mansão dos Morgues (uma casa igualmente assustadora e exatamente com o mesmo nome dos contos do Poe). Isso me fascinava porque, além de gostar muito das obras do Poe, havia no meu bairro uma mansão abandonada que se referia a um de seus melhores contos. Se eu contasse essa coincidência para algum estranho, certamente seria tido como maluco. Assim, seguia meu caminho com o livro do Poe em mãos quando finalmente passei em frente à Mansão dos Morgues. O dia estava incrivelmente ensolarado e a casa não parecia tão medonha como nas vezes passadas. O vento batia uma pequena portinhola que dava acesso ao quintal da casa e fazia esse movimento como uma espécie de convite. Eu havia passado ali centenas de vezes, mas nunca havia tido coragem de entrar. Em outras vezes, eu estivera acompanhado, e mesmo assim nunca ninguém havia ousado entrar lá.

 

Mas eu já estava com oito anos e não podia ter medo. O Poe riria de mim se estivesse me vendo. Como eu poderia escrever contos de terror se nunca tivesse entrado numa casa mal assombrada?. Encarei a casa exatamente como no conto da Queda da Casa de Usher. Lembrei-me do início fabuloso do conto, uma das minhas histórias favoritas e uma das mais famosas introduções de contos do autor, narrada de forma sublime. Ao observar a casa com mais cuidado, podia-se notar o telhado velho coberto por musgos, o beiral decrépito com as extremidades de madeira apodrecida e diversos sinais de vandalismo nas janelas: quebradas e com as perfurações de pedras, que eram atiradas pelos meninos de minha idade, boa parte deles meus amigos, confesso. Resolvi entrar.

 

Para ser sincero, eu acho toda essa história de casas mal assombradas uma verdadeira bobagem. É legal imaginar que coisas tenham acontecido, mas é claro que não havia assombração ou coisas do tipo. E não me venha falar que há porque eu não vou ficar com medo. Eu nunca estou com medo. E é normal, nas construções de madeira, o piso ranger quando são pisados. Isso não me assusta. Não mesmo.

 

Cheguei à porta da mansão e bati duas vezes, esperando que um mordomo, como aqueles dos filmes, viesse abrir a porta. Esperei mais alguns instantes e, como não houvesse resposta, girei a maçaneta e a empurrei levemente. O interior da casa estava horrível. Se minha mãe visse aquilo, diria que meu quarto não é tão desorganizado assim. Na verdade eu deveria ganhar uma medalha se fosse comparar o meu quarto com o ambiente daquela casa, pois eu sempre passava o aspirador de pó semanalmente embaixo da cama. O interior da mansão começava com a sala. Nisso ela era igual às casas que aparecem nos filmes. Havia uma sala ampla com um piano que parecia uma relíquia da Segunda Guerra. Não preciso falar que tudo estava com teias de aranha, né? Havia muitos esqueletos de aranha também. Só rezei para que o monstro daquela casa não fosse uma aranha gigante como a que aparece no filme do Senhor dos Anéis. Ora, estou falando de monstros, é claro que não há monstros. Até parece que estou com medo. Vamos em frente. Até que as coisas não são tão ruins. Há dois andares na casa, mas eu não vou subir a escada. Não que eu esteja com medo, mas é que tenho de voltar pra casa cedo. Monstros não existem, lógico. É tudo criação de nossa mente. Vi um vulto?! Meu Deus do Céu. Deve ter sido o vento. Claro que foi o vento. Tenho de voltar para casa.

 

Resolvi voltar, mas, acreditem, estava caindo o mundo fora da mansão. Uma tempestade como há tempos não via. Repentinamente, o tempo havia mudado. E agora era possível ouvir os trovões e clarões que rompiam as frestas de madeira da casa. Confesso que dessa vez senti um pouquinho de medo, e fiquei completamente imobilizado quando novamente percebi o vulto no quarto que prescindia a sala. Fiquei parado por uns minutos, mas novamente pensei na vergonha que estaria passando se alguém me visse. Eu não podia ser tão medroso. Assim, resolvi avançar alguns passos. Dessa vez pude notar que além da escuridão havia uma iluminação de vela proveniente do quarto. Aí, Meu Deus! Não quero morrer tão jovem. Desculpe, professora Silvana, juro que nunca mais vou inventar dor de barriga para faltar às suas aulas.

A curiosidade venceu o medo e, por fim, segui lentamente para o quarto iluminado.

 

Quando vi, não acreditei: Um homem? Não podia ser. Havia um homem na casa. Eu podia ver claramente a silhueta de um homem escrevendo à luz de velas. Ele vestia preto e era provável que não houvesse reparado minha presença ali. Vestia-se todo de preto e parecia genuinamente compenetrado no que escrevia. Além da própria situação inusitada, o que mais me impressionava era o que ele estaria fazendo lá. E não era nenhum monstro. Era um homem em carne e osso. Que estaria fazendo ali naquele momento? Poderia ser algum refugiado da chuva pedindo socorro por carta?, supus. Ora, que ponderação mais descabida. Mas realmente pensei que pudesse ser alguém que havia se abrigado da tempestade. Mas como teria sido tão rápido em acender a vela e acomodar-se daquela maneira, tão à vontade?

Me aproximei e arrisquei dizer um “oi”:

– Olá, tudo bem? Você mora aqui ou também está se abrigando da chuva? – forcei uma risada para parecer simpático.

O sujeito virou-se rapidamente, como um raio, num olhar furioso, e meu corpo estremeceu.

Acreditem: era o próprio Poe em pessoa. Não podia ser. Mas era. Com sua grande testa, seu cabelo esvoaçado e bigode devidamente alinhado.

Poe me encarou de forma irritada e não disse nada, apenas voltou a escrever.

– Sr… Sr Poe – eu disse, tentando balbuciar algumas palavras. – Não acredito que seja o senhor…

Nisso, ele voltou-se para mim com o dedo na boca sinalizando que eu fizesse silêncio, para então continuar seus escritos.

– É incrível, sabe? – insisti, sentindo-me mais confortável. Eu realmente estava feliz – Se eu disser aos meus amigos que vi o senhor…

Quando disse isso, ele ficou ainda mais irritado. Empurrou a escrivaninha e arremessou raivosamente uma das velas na parede. Num ato de total descontrole.

– Quem é, de tal sorte, esse conviva desafortunado que, em circunstância inapropriada, ousa interromper-me nessa empresa de escrever uma história com a digna ânsia de não ser incomodado?

A fala dele era estranha, mas logo consegui perceber que aquilo não havia sido um elogio.

– Ah, desculpe, aliás…- tentei me retificar, afinal estava conversando com meu ídolo. – Desculpe-me, Sr. Poe. Não queria atrapalhar… quer dizer, atrapalhá-lo. Só queria que soubesse sobre a imensa estima que… que eu tenho por vossa pessoa…

– É? – Disse ele gesticulando os braços e com olhar intimidador. – Então é provável que nesse conto, que eu suspeitava acabar ainda hoje, poderia adaptar a história para a de um garoto que é asfixiado por seu ídolo quando este serzinho inconveniente tentar desvencilhá-lo de tal aspiração, que acha?

Achei aquilo extremamente hostil. Se fosse uma piada, teria sido das ruins.

– Gosto muito dos seus textos. – Expliquei. – Seria um sonho se o Sr. pudesse me conceder um autógrafo num de seus livros. – Então mostrei o livro que carregava.

Poe arrancou o livro de minhas mãos abruptamente e começou a rasgar cada página furiosamente, como se estivesse matando um homem. Aquilo era ódio. Era a mais genuína raiva que eu jamais havia presenciado em uma pessoa. Como ele podia fazer aquilo?

Então, quando achei que o pior já tinha passado, e já quase a ponto de iniciar um choro, ali mesmo, aconteceu o pior: Poe avançou para cima de mim e segurou fortemente o meu pescoço com as duas mãos. Meus olhos pareciam que iam saltar com tal força e senti que seria a última vez que respiraria. Mas felizmente, segundos depois, ele me soltou e pude retomar o ar, com dificuldade.

– Guarde, Fortunato**, – gritou ele. – Guarde essas marcas no pescoço como símbolo de minha verdadeira estima por vossa pessoa. Eis que pedira meu autógrafo, eis o autógrafo que recebeu.

Que louco!, pensei, caído no chão. Quase me matou! E parecia estar feliz em presenciar a cena em que eu me esforçava para retomar a respiração.

Andando para os lados e gesticulando ainda mais os braços, ele continuou:

– Que final primoroso para um conto poderia ser a morte de um de seus personagens, não acha, Fortunato? – Sugeriu ele, com o olhar ainda mais sombrio.

Aquele cara ia me matar. Por Deus, Poe ia me matar.

Eu precisava pensar rápido, mas não tinha nada ali que pudesse agarrar e não conseguia pedir ajuda naquele momento. Sucedeu-me, assim, uma repentina solução:

– Mas para matar seu personagem seria prudente criar antes um desfecho para resolução do crime nas mãos do detetive Dupin***. – Redargui, na última tentativa de sobrevivência.

Ao ouvir aquela argumentação, o maluco do Poe pensou por um instante, alisando o bigode com as mãos, e, para minha surpresa, concordou comigo.

– Tem razão, ignóbil ser. – Disse ele. – Tem razão. Vou escrever.

Nesse momento ele voltou-se para a escrivaninha, agarrou a pena, molhou-a no tinteiro e pôs-se a escrever freneticamente.

Fez aquilo de modo muito rápido.

– Pronto, já há um desfecho! – Exclamou ele, deixando transparecer um sorrido mórbido. – Agora é só esperar que a história siga seu curso.

Como ele podia escrever tão rápido? Eu ganhara apenas alguns segundos a mais de vida.

Então Poe se dirigiu novamente a mim. Eu ainda caído no chão, com o coração parecendo que ia saltar, porque sabia como os contos do Poe terminavam.

Para minha sorte, a chuva parou repentinamente, depois os ventos começaram a soprar e as nuvens se espalharam deixando que o sol aparecesse timidamente. E Poe, de forma súbita, pareceu receber aquilo de modo assustado e correu para a janela, saltando e voando na forma de um grande corvo.

Nunca pensei que iria comemorar o fato de poder ir para a escola no dia seguinte.

 

No entanto, apesar de o desfecho ter sido positivo e tudo ter terminado bem, a decepção que eu sentia ficava cada vez maior. Não fui ao parque naquela tarde e voltei para casa correndo. Entrei no quarto e fiquei aliviado por meus pais ainda não terem voltado. Corri para a prateleira e juntei todos os livros do Poe, o maluco. Levei-os para o quintal e empilhei-os. Estavam lá todas as histórias pelas quais eu era fascinado: Berenice, A Carta Roubada, A Máscara da Morte Rubra, O Gato Preto, O Coração Delator, A Queda da Casa de Usher, O Poço e o Pêndulo, Os Assassinatos da Rua Morgue. Estavam todos lá.

Acendi o fósforo e contemplei, com admiração, a grande chama que se formou no jardim.

Era incrível como o papel pegava fogo e se extinguia tão rápido. E era incrível também como nossos ídolos surgiam e se extinguiam com a mesma rapidez.

 

 

* Expressão latina que significa “descanse em paz”, em português, comumente usada também na versão inglesa de “Rest in Peace”, R.I.P.

** Em referência ao personagem “Fortunato”, do conto “O Barril de Amontillado”, em que Poe relata  uma história de vingança.

*** Personagem de Poe que sempre está empenhado em resolver crimes e que, posteriormente, é citado como o personagem que inspirou Conan Doyle a criar Sherlock Holmes.

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Jesse Gomes

Jesse Gomes é escritor, autor de "A Trajetória dos Condenados". Trabalhou em revistas e passou brevemente pelo jornal Gazeta do Povo. Vê nas palavras uma forma de transformação social.

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