Hoje, dia 29/11/2016, é um dia particularmente confuso. É aquele dia que sem saber porque você dormiu mal e acorda já se arrependendo. Um dia para não existir, um dia para voltar no tempo, um dia para não viver. Talvez para muitos de nós não faça qualquer diferença, uma vez que os eventos do dia sequer diretamente nos afetam. Contudo, uma grande parcela de nós também teve um 29/11 que tenta esquecer, que tenta superar, que tenta compreender. Por que comigo?

E é assim mesmo. Hoje pais, filhos, netos e amigos, estão se fazendo essa mesma pergunta que me fiz constantemente há quase um ano atrás e que eu ainda me faço, por mais que tenha aprendido a rotineiramente fugir do questionamento. Perder alguém é uma prova de resistência, é cair tão fundo num poço escuro sem ter a menor ideia de como subir e mesmo assim saber que tem que subir. Foi assim na minha manhã de 20/12/2015.

Uma noite bem dormida, uma preguiça de domingo, planos de fazer o bolo de cenoura para o churrasco de final de ano do Parágrafo 2, uma mensagem confusa, uma tontura, um questionamento, um telefonema, uma confirmação. Não teve bolo, não teve churrasco, o chão insistia em se distanciar dos meus pés, um mundo que rudemente se recusava a parar de girar, um buraco, um braço arrancado, ou pelo menos era esse o sentimento do pior dia da minha vida.

Hoje, uma manhã comum, a alegria de um filho a caminho da final de um campeonato. Foi longe esse menino! Planos para o almoço, frango ou carne de panela? Tem que ligar a TV, o jornal está passando as notícias do jogo. Prometeu avisar quando chegasse, será que chegou bem? O telefonema…

A vida nos parece tão complexa e ao mesmo tempo tão simples! No fundo, todo mundo sabe como vai acabar, a gente só não sabe quando e se for pedir minha humilde opinião, prefiro que demore. E aí…assim…em plena terça-feira. A finitude é tão complexa em sua simplicidade que nem milênios de ciência e nem de religião conseguiram entrar em acordo.

A morte desafia as regras sociais pré-estabelecidas. Pai morre antes de filho e Deus me livre o contrário! A regra é clara, quem veio primeiro vai primeiro. Essa ideia a gente entende, mesmo que não goste dela, mas se acostuma. Você sabe que os velhos da sua vida de um jeito ou de outro se vão e passa bons anos se preparando para isso, mesmo que saiba que nunca estará preparado de fato. Mas assim? Nem tchau?? Não tá certo isso…

Histórias que se concluem rápido demais, que não dão tempo para o desenrolar da narrativa, rompem com o público ainda no segundo ato sem maiores explicações, que ofensa nos soa. Todo dia uma mãe chora pela morte de um filho e vice-versa, todo dia um amigo chora pela partida de outro. Uma hora ou outra vai ser você, não duvide disso, não. Então hoje, nessa manhã, eu me vi com o mesmo coração apertado e sensação de vertigem e ânsia de quem nesse momento irrompe em lágrimas pelo último abraço não dado, pelo último beijo em a ver, pela pelada do fim de semana que prometeu, pelo pavê que só ele fazia no Natal, e dói. Como dói.

Colocar-se na dor do outro, é compreender a humanidade e a compaixão como parte do que nos compõe o caráter e a decência. Compadecer-se pela dor do outro é nos conectar a uma instância superior, não necessariamente divina, que nos torna dignos do respeito recíproco. Hoje é o pior dia da vida de alguém e dói em mim, dói no alguém, deveria doer em você e que não deixemos a empatia jamais morrer.

Todo meu respeito e carinho às pessoas que hoje choram.

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Andy Jankowski é mestranda em Multimeios pelo Instituto de Artes da UNICAMP, formada de Cinema e Vídeo na UNESPAR/FAP, cursou filosofia na UFPR. Dedica seus estudos à Teoria, História e Linguagem do Cinema, sobretudo na representação da mulher. É membro da Associação Paranaense de Imprensa, foi Diretora Cultural e co-fundadora da Organização Universo Racionalista e atriz profissional.

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