Escalar o time para as peladas de sábado às vezes é uma tarefa difícil. Hemingway sempre é o primeiro a chegar e, às 8 da manhã, já abre uma gelada. Mal consegue andar em campo e sempre vai pra casa após bater boca com o dono da bola, atitudes que lhe conferem fama de brigão. Por falar em brigão, meu colega Caravaggio também é conhecido por ter o sangue mais quente. Correm boatos de que, inclusive, ele já tenha matado um cara durante uma discussão de jogo. Outro que se pode chamar para a escalação do time é o Bukowski: o difícil é encontrá-lo sóbrio em pleno sábado pela manhã. Contam que, certa vez, ele ficou dois dias preso no banheiro de uma boate, numa situação em que ele próprio havia se trancado… Conversa que, volta e meia, sempre torna às mesas depois de bebermos meia dúzia de cervejas… A figura mais sinistra do time, sem dúvida, é o Poe. Um sujeito soturno, que vive rodeado de corvos e que possui a maior testa do mundo. O bigodinho dele até tenta disfarçar um pouco o aspecto mórbido do sujeito, proporcionando-lhe um ar dartanhesco, mas, mesmo assim, não faz dele um cara de muitos amigos. Na lateral direita – e que fez história num time da suburbana – está o jogador mais metrossexual do time: Oscar Wilde: o bom vivant. O jogador que mais faz firula em campo, nunca passa a bola e faz pausa no meio do jogo para arrumar o cabelo depois do cabeceio. Mais à frente, e capaz de fazer milagres (drible da vaca, chaleira e o gol que o Pelé não fez), está Jesus, um sujeito bacana, o queridão do time. Se dá bem com todo mundo e acaba sendo justo até demais durante os jogos: ele tem como lema que, se o nosso time fizer um gol, deve também sofrer um, para manter a igualdade e “humildade” no placar. Atitude que irrita profundamente nosso zagueirão Nietzsche, cujo nome sempre sai errado nas súmulas, pois é raro encontrar um juiz que consiga escrevê-lo exatamente como a grafia recomenda… Fazendo par na retranca com o suíço, joga nosso holandês favorito: um cara que dá inúmeros carrinhos e tem fama de louco. Seu nome? Vicent…. Vicent Van Gogh! Quando ele falta aos jogos, é por conta de umas tretas que tem com seu irmão Theo… Eu já disse que jogar nesse time é fabuloso? Disse que fazer a escalação é difícil, pois bem – jogar nesse time é fabuloso. Outro que pululava o meio de campo era o italiano Maquiavel, um cara sujo, que parecia querer comandar o time, sempre dando pitacos para o técnico e criando intrigas entre alguns jogadores, com seus conselhos a Jesus pela manhã; e a Nietzsche, mais à tarde… Além de todas as estrelas, nosso gol é defendido por um sujeito de presença. Ninguém mais, ninguém menos, que ele… (saaaai que é sua, Dosta!). Dostoiévski pega muito. Na meta é disparado o melhor goleiro: pula como um gato, sai jogando com consciência e pula nos pênaltis como poucos – apenas estudando o comportamento do batedor. É pura psicanálise o que ele faz. Fato que me deixa um bocado intrigado. Como ele faz aquilo? Um verdadeiro enigma. Na reserva, tem o Dickens, um piadista incomum. Já foi capitão nas antigas, mas suas ironias e alfinetadas sobre os demais companheiros acabaram criando um clima ruim com a galera. O resultado foi que mandaram o Dickens para a reserva, onde agora pode ficar penteando seu bigode enquanto acha uma forma de tirar sarro de algum lance grotesco da partida. Fecham o time o Saramago, que não fica quieto nunca, parecendo até que suas conversas nunca têm um ponto final, e o Assis, carinhosamente apelidado de Machadão… Como já disse, é um time fabuloso.
O lado bom de chamar esses caras para beber uma cerveja e bater um bolinha é que as conversas, após o jogo, geralmente me fazem perceber que a partida, na verdade, nunca acaba.

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Jesse Gomes

Jesse Gomes é escritor, autor de “A Trajetória dos Condenados”. Trabalhou em revistas e passou brevemente pelo jornal Gazeta do Povo. Vê nas palavras uma forma de transformação social.

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