Opinião

Na tarde da última terça-feira (15/11), após discutir com o filho de 20 anos, o engenheiro Alexandre José da Silva Neto, atirou nele e em seguida contra a própria cabeça. O assassinato seguido de suicídio, que aconteceu na Avenida República do Líbano em Goiânia, foi filmado pela moradora de um prédio próximo. Guilherme da Silva Neto, de 20 anos, que estava sentado na calçada foi alvejado pelo pai sem chances de defesa.

O crime que ceifou duas vidas teria sido motivado, segundo a Polícia, porque o pai não aceitava que o filho fosse um ativista social. Guilherme, que era estudante de matemática na Universidade Federal de Goiás, participava da ocupação da universidade e também de protestos. Depois da veiculação da notícia na internet, milhares de comentários tentaram justificar a insanidade cometida pelo pai.

Cada comentário reforçava a radicalização política pela qual passa o país. Cada internauta que defendia e aprovava a ação tinha como justificativa o combate ao comunismo, à esquerda que, segundo a maioria, tenta destruir a nação e a família tradicional. Mas em que momento o ódio desenfreado por quem pensa de maneira diferente tomou tamanha proporção? Ele já existia e se tornou mais visível com a possibilidade de emitir opinião por meio de comentários na internet? São respostas que não tenho.

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Porém, o que é fácil de perceber é que esse ódio, antes confinado apenas na esfera virtual, tem ganhado força no “mundo real”. Os crimes motivados por ideologias políticas são, a cada ano, mais comuns. Os exemplos vão desde agressões como a sofrida pela Senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) no Aeroporto Afonso Pena em Curitiba  pelo advogado e ativista Paulo Demchuk, as ameaças e violência cometidas contra estudantes secundaristas do Paraná por membros do MBL (militância que antes atuava apenas na internet), até homicídios como o do jovem Hiago Augusto Jatoba de Camargo, de 21 anos, que foi assassinado com uma facada na Praça da Ucrânia, em Curitiba no ano de 2014 quando fazia campanha para Dilma Roussef. Agora, Guilherme da Silva Neto, vira mais um personagem dessa triste história.

Eu não seria inconsequente a ponto de afirmar que as manifestações de ódio propagadas pela internet foram decisivas para que o pai de Guilherme praticasse tamanha insanidade. No entanto, fica claro que a radicalização política minou a relação do pai com o filho.

Cada comentário raivoso pregando ou justificando a morte é uma gota de água em um copo prestes a derramar. A caça à esquerda e cada pessoa ou instituição que, segundo a interpretação de milhares de internautas, a representa, é fortalecida por inúmeras manifestações de ódio reproduzidas diariamente na web.

Pensar diferente representa, para muitos, romper com um modelo tradicional confortável, algo que sempre manteve as coisas nos “seus devidos lugares”. As conquistas sociais são encaradas assim, a luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres também. O professor da USP e ex Ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, tem uma visão interessante sobre esse fenômeno:

“A questão é: será que vivemos meio século de crescimento das liberdades, políticas e pessoais (desde os anos 80 e 90, pela primeira vez na História a maioria ou quase a maioria dos seres humanos vive em países com liberdade de religião, de voto, de escolha da profissão e do parceiro amoroso) e de redução da miséria – e isso chegou ao fim? Ou a vitória de Trump, do Brexit, do impeachment, do não no referendo da Colômbia e muchas cosas más é – apenas (sic) – a agonia de um mundo velho, que não suporta sair de cena sem antes causar o estrago que possa?”, questiona.

Pensar diferente, não apenas no campo político, virou sinônimo de esquerda e esse ato, para muitos, é uma transgressão que se paga com a vida. Trilhamos hoje um caminho perigoso, a própria história é repleta de exemplos de perseguição a grupos sociais que tiveram desfechos terríveis. E a receita para instigar tamanho ódio é sempre a mesma: O uso dos meios de comunicação para reforçar conceitos e estereótipos, a propagação de intolerância por parte de formadores de opinião – sejam eles da mídia ou do meio político – e a falta de empatia pelo próximo. Os exemplos vão desde o Alemanha Nazista até o massacre em Ruanda, guardadas, é claro, as devidas proporções.

O preocupante é que muita gente considera, hoje, inimigo aquele que pensa e age diferente. Torcer para que um casal gay seja feliz, virou sinônimo de destruição da família constituída por homem e mulher. Apoiar programas sociais para as famílias mais carentes, virou sinônimo de sustentar vagabundo. Desejar que o sistema prisional recupere os detentos, virou defender bandido. Não há a preocupação em tentar entender as razões do outro. Não há dialogo, não há raciocínio e, além de tudo, não a preocupação em checar a veracidade das informações veiculadas na internet. Tudo é muito raso, desde a busca pela informação até a reprodução dos discursos de ódio.

Odiar o desconhecido por considera-lo de esquerda já é absurdo, mas odiar um familiar a ponto de matá-lo por discordar de suas ideologias políticas é, no mínimo, insano. Justificar tal crime porque a vítima seria “comunista” também o é.

Tudo que pai e filho viveram durante a vida, as viagens, o relacionamento em casa, as lembranças, as risadas, os sonhos, as esperanças, terminaram sob o gatilho da radicalização política. E não foi apenas um dedo o responsável pelos disparos, foram milhares. Também dispararam aquele gatilho os dedos dos formadores de opinião, os dedos de representantes do poder público e os dedos de pessoas comuns que tentam justificar o injustificável todos os dias na internet.

Ninguém elege um político porque acredita que ele vai lesar o país, ninguém torce pela felicidade de uma família na intenção de destruir outra, ninguém torce para que os mais pobres tenham direito a moradia e alimentação na intenção de prejudicar aqueles que conquistaram melhores condições de vida.

Mas, acima de tudo, ninguém tem o direito de odiar aquele que pensa e age de maneira diferente.

 

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José Pires

É Jornalista idealizador do Parágrafo 2. Trabalhou como repórter na Região Metropolitana de Curitiba e como Assessor de Imprensa. Dirigiu o documentário Tabaco – As folhas da incerteza. Acredita que o Jornalismo é mais do que a reprodução dos fatos mais relevantes do dia

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