Seu “Turílio”. Custei a entender mas é assim mesmo: T U R Í L I O, um nome de origem portuguesa.

Eu o conheci rapidamente e de forma inesperada. Um bonito senhor, magro e alto, de olhos azuis que pareciam saltar de tão grandes. Pele e cabelos brancos.

Sua postura dava a impressão de ser vaidoso.

Estava só, sentado num banco de madeira, na área aberta no térreo do prédio em que mora. Uma camisa branca de mangas curtas e de tecido fino junto a bermuda azul clara até seus joelhos cobriam seu corpo.

Com o olhar paralisado, parecia fitar o horizonte. Chovia forte. Estava apreciando o movimento das rápidas e incontáveis gotas que caíam no asfalto.

Pôs-se a conversar comigo sem saber quem eu era. Não tínhamos sido apresentados. Em nossa curta conversa, ele me pareceu sincero e sua fala alternava entre alegria e tristeza, lembranças e dores, passado e presente.

O que faz uma pessoa compartilhar sua história de vida com alguém desconhecido? – Perguntava a mim mesma, silenciosamente, enquanto admirava os olhos azuis da cor do mar.

Contou-me que “viveu quarenta e quatro anos em Lisboa, onde nascera e mais quarenta e quatro anos em Toronto, onde trabalhara. Lá, morou numa colônia portuguesa. Veio para o Brasil para ser cuidado por seu único filho, o Jorge. Chegou aqui com oitenta e oito anos.”

Sem pausas em sua fala, recorda-se de quando fora batizado: Estava com quatro ou cinco anos de idade. O padre, ao pegá-lo no colo, assustou-se e então se pôs a gritar. De repente viu-se solto no chão e aproveitou para fugir, saindo correndo da igreja.

A fala é fortemente marcada pelo seu sotaque português.

E continuou, com seus olhos umedecidos:

– Em Lixboa, morávamox em um sítio e a casa ficara no ponto maix alto. Quando a chuva caía, o rio tranxbordava e ox barris de vinho ficávam a boiar no meio da água!

Estas foram suas falas de alegria. Revelou um segredo:  sempre escrevera e ainda escreve, ninguém nunca leu. “Ficará para os que viverem depois de minha partida.” Punha-se a escrever oito horas seguidas.

A parte triste é a diabetes que vem avançando, o derrame que teve e o fez perder parte do equilíbrio. “A parte maix trixte para mim é ver o sofrimento de minha exposa que extá acamada.” Seus olhos azuis, já não eram mais os mesmos, brilhavam por conter lágrimas, assim como um rio tenta conter a água. Sua voz trêmula deixa a angústia transparecer.

Soube depois que sua esposa sofre de mal de Alzheimer. Não se lembra das pessoas, não fala, não se alimenta.

Entendo-o e sou atingida por sua tristeza! Meu coração parece diminuir de tamanho, como se estivesse sendo apertado.

Mudar de país e não ter mais a esposa nem os amigos com quem conviveu anos a fio é o mesmo que “morrer só”!

Ele finaliza: – Peço à Deux que me léve logo, é muito sofrimento!

Veio para o Brasil contra sua vontade, queria “estar em Portugal, sua terra natal.”

Convidei-o para tomar café, recusou de maneira educada, agradecendo-me. Ao final de nossa conversa, fui surpreendida: “mênína, se passarex por mim e não te reconhecerex me avíse, àx vêzex exqueço-me dax pêssoaxs maix é só baterex em mím que me recordareix de ti!

 

Seu Turílio está com noventa e dois anos. Despedi-me dele oferecendo-me para acompanhá-lo ao seu apartamento. Ele apontou-me seu “apoiador” e disse que vai bem só!

Restou-me partir. Segui adiante, passo a passo, com uma mistura de sentimentos! Perplexa por pensar em sua história e também em seu sofrimento, esqueci para onde eu estava indo.

Fui inundada por uma vontade involuntária de querer abraçá-lo, num gesto como seu eu pudesse pegá-lo em meu colo!

Ponho-me a pensar nas pessoas idosas. Nas mudanças que acontecem em suas vidas. Nas saudades que  devem sentir de outras épocas, na situação de dependência dos outros.

Não é fácil envelhecer, muito menos ver quem você ama sofrer. Mais difícil ainda é envelhecer só, sem os amigos que fizeram parte de uma vida toda.

Éh! A vida tem dessas coisas. Vira e mexa algo acontece, nos pega de surpresa e nos coloca a pensar nas inúmeras historias que não conhecemos, recheadas de lembranças doces e outras amargas.

Gratidão Seu Turílio! Tive muito gosto em prosear com o senhor!

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Este fato ocorreu no mês de julho de 2015. Em novembro do mesmo ano o pedido de Seu Turílio fora atendido. Morreu no hospital da cidade em que morava, vítima de falência múltipla dos órgãos, causada pela desenfreada diabetes.

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Ssmaia Abdul

Ssmaia Abdul é Psicologa formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, mora em São Paulo e tem especialização em Jornalismo Literário .

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