Coluna Pão e Pedras: Amenidades e Poesias

O exército errante segue seu caminho rumo a um lugar melhor, rumo a lugar algum. Empregos, salários, empreendimentos, amores, enfim, a grama é sempre mais verde no quintal vizinho. O que leva pessoas a deixarem tudo o que construíram durante toda uma vida e começar tudo de novo em outro lugar? O que faz com que as pessoas migrem?

Esta estranha mobilização de corpos não se faz à toa, nem de maneira despretensiosa. A migração humana aparece comumente como uma característica natural do homem biológico, constituindo uma nova subespécie no gênero dos primatas, o Homo migrans.

Segundo a teoria evolucionista do nosso ilustríssimo cientista Charles Darwin, ao explicar as mudanças físicas dos seres vivos durante a existência do nosso pequeno planeta, criou o que hoje se chama de a teoria da evolução e da seleção natural. Esta teoria consiste no fato de que com as mudanças no ambiente – climáticas, geomorfológicas, tectônicas, etc. – os seres vivos mudariam também a composição dos seus corpos, adaptando-se ao novo meio físico. Neste processo, aqueles que não conseguissem adaptar-se a tal mudança seriam eliminados pelas condições adversas, restando apenas os mais aptos a sobreviver neste habitat.

Este tipo de reflexão, que faz todo sentido dentro das ciências biológicas, pode gerar equívocos irreparáveis quando estamos tratando de qualquer tipo de ciência humana. Essa confusão aconteceu, por exemplo, com o que ficou conhecido entre sociólogos, geógrafos, antropólogos e outros cientistas como darwinismo social.

O Darwinismo social se utilizava da teoria da seleção natural para dizer que entre os homens haveriam os que são naturalmente mais aptos que outros a viverem em sociedade, e que estes – os mais aptos – seriam os que controlariam os meios de produção e as ferramentas políticas, pois seriam eles os mais capazes para conduzir a comunidade humana. Logo, se existe uma diferença social entre os homens, isso se deve, sobretudo a inabilidade de certos hominídeos de enriquecer, enquanto outros seriam organicamente mais inidôneos a tal feito. O mesmo acontece quando falamos do estranho hábito destes primatas de mudarem o local de habitação e trabalho durante todo o seu ciclo de vida.

Quando dizemos que o bicho-homem locomove-se de um lugar para outro por um instinto natural estamos, na verdade escamoteando uma série de contradições existentes na sociedade humana, que é dividida em classes sociais.

Os seres humanos produzem sua existência de um modo realmente estranho, dividem-se entre aqueles que trabalham, transformando a natureza – da qual faz parte –  para gerar riquezas e aqueles que usufruem desta riqueza produzida sem, no entanto, participar diretamente de sua produção. Isso se dá, sobretudo, porque o segundo grupo detém todas as ferramentas de produção e de coerção em sua posse. O primeiro grupo recebe as migalhas de tudo o que produziu, com a única finalidade de reproduzir-se enquanto trabalhador, ou seja, através do que chamam de salário este tem condições de – precariamente – alimentar-se, vestir-se e ter um teto. A sociedade já fez o cálculo do mínimo necessário à sobrevivência deste enquanto trabalhador. O primeiro grupo, que é a extrema minoria dentro a comunidade humana, teme perder seus privilégios sociais e, para evitar tal perda, desenvolveu uma série de instituições para que todos os outros vejam esta injusta divisão do que é produzido como natural. Encontramos, em uma profunda investigação sobre o gênero de vida humano a seguinte carta, enviada pelos detentores do poder aos seus antepassados, os Australopithecus, que visava explicitar os modos de dominação social ainda não presentes neste homem dito primitivo. Esta se segue:

 

“Aos Australopithecus.

 

Eu, homem moderno, diante de vosso primitivismo, me sinto na obrigação de lhes dizer o quanto evoluímos desde sua época.

Nós constituímos um novo modelo de sociedade, bastante diferente do vosso, e neste modelo é baseado todo o nosso progresso. Aqui, não necessitamos de caça, pesca, ou ir até uma fonte qualquer buscar água. Podemos trocar tudo isso por pedaços de papel numerados, que chamamos de dinheiro, um equivalente geral de troca que deixamos guardado em um lugar chamado banco. Praticamente todas as nossas relações giram em torno deste, – o dinheiro –, que é o curriculum vitae da civilização.

            Outro avanço de nossa época é que não precisamos trabalhar, como vocês o fazem, para conseguir dinheiro e trocar por coisas. Aqui, podemos fazer com que outros trabalhem para nos dar tudo aquilo o que desejamos, e nós, que não trabalhamos, por caridade, damos aos que trabalham uma parcela do trabalho que este realizou, parcela que chamamos de salário. Mais que fique claro que o que lhes damos é só o suficiente para que estes continuem trabalhando.

            Ah, mais pra que isso seja possível sem que essas pessoas cometam a insolência de se rebelar ao fato de trabalharem para nós, nós inventamos algumas instituições bastante interessantes.

            Primeiro inventamos o Estado, para que possamos centralizar o nosso poder social em torno de nós mesmos. Inventamos também as leis, que são as nossas regras para deixar claro quem manda (nós) e quem obedece (todo o resto). Inventamos também a polícia e os exércitos, para que o nosso poder seja efetivado. Para que quem trabalha pense que essas coisas são naturais, ou seja, sempre existiram, inventamos a religião, a escola, e os meios de comunicação de massa (TV, rádio, internet, etc.).

            Enfim, podemos dizer que, desde sua época evoluímos tanto que o sexo, que em sua época servia simplesmente ao prazer e à reprodução, hoje também se troca por dinheiro. O prazer é menor, claro, pois não temos muito tempo a perder com isso. Estabelecemos entre homem e mulher uma relação meramente funcional, simplesmente para acalmar a nossa libido. Qualquer outra forma bárbara de relação sexual é abominada, a estes que insistem em manter relações que consideramos anormais, colocamos fora do absoluto convívio social, mas fingimos aceita-los, para evitar a fadiga.

            A muitos dos seres que deveriam trabalhar, fazemos questão de não dar ocupação alguma. Isso por que, quando muitos estão sem emprego, podemos reduzir o dinheiro pago aos que trabalham, pois muitos trabalhariam por muito menos do que eles. É essencial mante-los desesperados!

            Mante-los com fome, sem abrigo, sem prazer e o melhor modo de dominá-los, é um jeito de fazer com que se vendam bem barato, para que assim tenhamos menos custos e possamos juntar mais dinheiro em menos tempo.

            Espero que, com este curto resumo do modo como funciona a nossa sociedade, vocês, povos primitivos possam otimizar sua evolução para que cheguem mais cedo a ser como nós, homens (nem sempre mulheres) do progresso. É para nós um fardo grandioso conduzir ao progresso o nosso mundo, e queremos compartilhá-lo com os homens de sua época. Caso não se sintam contemplados com a proposta, entenderemos que sua ignorância é tamanha que não conseguem vislumbrar a grandeza do mundo moderno, e por isso continuam no primitivismo. Garanto-lhes, será melhor que aceitem.”.

 

À partir desta carta que nos foi revelada pelos remanescentes dos próprios Australopithecus – que foram dizimados por não aceitarem o modelo social proposto – podemos concluir que esse humanos não trabalhadores são destituídos de terra, alimentos, habitação, enfim, de tudo o que necessitam para sobreviver, assim como de sua própria consciência, para que acreditem que a falta destes é fruto de sua incapacidade pessoal, e não da apropriação privada de tudo o que existe por uma parcela mínima da espécie humana.

A casta trabalhadora da humanidade, então, por achar natural as desigualdades existentes entre eles, acreditam também que podem encontrar melhores oportunidades de inserção no sistema social – chamado pelos humanos de capitalismo – deles em outro lugar. Caminham feito zumbis sedentos por sangue, por um lugar onde se encaixem no mundo. Acompanham assim a circulação de capital e mercadorias, como na antiga frase confeccionada pelo governo militar brasileiro – que são os humanos que nascem no Brasil – “Terra sem homens para homens sem terra”.

Nesta interpretação podemos entender as migrações humanas como uma pilha eletroquímica, muito estudada entre os químicos. A pilha é um sistema que produz uma corrente contínua baseadas em diferentes tendências para ceder e receber elétrons. Os elétrons circulariam do eletrodo de maior potencial de oxidação para o de menos potencial de oxidação, gerando uma corrente elétrica que funciona até que os dois eletrodos entrem em equilíbrio eletrônico. Podemos comparar então o modo de produção capitalista a uma pilha, onde a circulação de mercadorias e homens-mercadoria  – os elétrons – seriam a força motriz deste sistema.

Tendo os trabalhadores como única propriedade a sua força de trabalho, esta é transformada em mercadoria para que este possa sobreviver em um mundo que não mais lhe pertence, pois outros já se apoderaram dele. Este obriga-se a mobilizar seu corpo (sua mercadoria) pelo mercado de trabalho. Assim, as grandes cidades parecem ser o grande pólo de atração, pois lá se concentram as atividades industriais e, supostamente, os melhores empregos. No entanto, os humanos desenvolvem tecnologia que substitui o trabalho humano na indústria e no campo, e estes, que haviam se movimentado no espaço em busca deste emprego tem que, novamente, mover-se em outra direção. Assim, o trabalho humano está em uma crise evidente, onde apesar de necessitarem vender sua força de trabalho para sobreviver, o sistema não consegue empregar toda a massa de seres humanos no setor produtivo, submetendo estes a funções cada vez mais estúpidas e degradantes, ou a mendicância.

Logo, ao contrário do que induziu Darwin sobre todos os seres vivos do planeta Terra, os homens não são naturalmente migrantes, mas são socialmente condicionados a isso devido a um sistema social dividido em classes que, devido aos aspectos já expostos, aparece enquanto opção pessoal de um Homo migrans que é naturalmente migrante, livre para escolher como e quando mudar. Essa liberdade é, no entanto, uma liberdade negativa, pois ou este submete-se ao sistema capitalista de produção, ou rouba para sobreviver, ou morre de fome. Pedras que rolam não criam limo, mas elas não rolam sem uma força que as impulsione.

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Kauê Avanzi é mestrando em Geografia pela USP, educador no Ensino Básico, poeta e músico. Gosta de escrever, se divertir e confraternizar.

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