A história de um brasileiro que  é rapper, militante do movimento negro e muçulmano

Por Ssmaia Abdul

Primeiro sábado do mês de maio. O sol quente marca presença, apesar de estarmos no outono, e contrasta com um vento gelado característico do inverno.

Aguardo por César. Nosso encontro ocorre na rua. Estou parada na calçada e vejo quando ele se aproxima. Interrompo seus passos:

– César?

– Oi!

Salam Aleikum! – eu o saúdo em árabe, que quer dizer “que a paz de Deus esteja convosco”.

Ele responde, também em árabe:

Waleikum Salam! – ou “que esteja convosco a paz de Deus”.

Eu me apresento e ele deseja boas vindas. Este é o nosso primeiro encontro presencial, após nos conhecermos através de uma rede social pela Internet.

– Você pode esperar um pouco? Preciso fazer uma oração.

– Claro, César! Fique à vontade!

Em frente a uma loja de colchões, um jovem observava aquele encontro. César o cumprimenta e pergunta se pode realizar o salet, a oração em árabe, em sua loja.

Aquele momento marca a hora de uma das cinco orações que César e outros milhões de muçulmanos praticantes fazem todos os dias. Logo retorna ao meu encontro:

– Vamos para a Zuma Luma? Lá podemos conversar tranquilamente.

Estamos na Rua Cerqueira César, na comunidade de Santa Tereza, em Embu das Artes, na região metropolitana de São Paulo. Caminhamos lado a lado, trocando algumas palavras, até a sede da organização não governamental (ONG) Zuma Luma, que tem como objetivo a disseminação da cultura de rua e do movimento negro.

Casas e comércios variados, grudados uns nos outros, parecem amontoados em uma ordem que, num primeiro olhar, parece uma desordem. Ao lado da rua asfaltada, tudo dá a impressão de sobreposição, em um mosaico de cores múltiplas, somadas ao tom alaranjado dos tijolos à vista. O céu quase se esconde, tímido, atrás de um emaranhado de fios elétricos que se entrecruzam.

***

Sentado sobre um pufe quadrado, César me oferece água e café. Senta de um jeito despojado, que me faz sentir à vontade.

Palavras de mundos aparentemente tão distantes como, “mano”, “ véio ” e “tá ligado” convivem tranquilamente com “Masha Allah” (benza Deus), “Subhana Allah” (Louvado seja Deus) e “Insha Allah” (se Deus quiser) nas frases ditas por Cézar.

Ele veste uma camiseta verde escura, com uma estampa na frente e as palavras ZAFRICA BRASIL, nome de um grupo de hip-hop do qual é fã. Usa calça de moletom bege, combinando com o calçado esportivo.

Em seus braços, tatuagens que, pelo tom desbotado, nos dizem ser antigas. Sobre sua cabeça, uma espécie de chapéu chamado de Taqyia, na língua árabe, na cor preta feito de crochê, que combina com os óculos quadrados da mesma cor.

Seu nome completo é César Kaab Abdul, quarenta e dois anos. O libriano e muçulmano se casou com a também muçulmana Vânia há vinte e cinco. Possuem quatro filhos; o mais velho com dezoito e a caçula com sete anos de idade.

De pele e olhos castanhos claros, seu bigode e barba são grisalhos. O cavanhaque é longo, fazendo o formato de um “V”. De altura mediana, possui porte de quem já praticou esporte.

Batizado como César, no passado já fora “Vulto, seu nome de rua”, uma história que não gosta de relembrar. Depois de ter se revertido para o Islamismo, prefere ser chamado de Kaab, que significa, na língua árabe, famoso poeta.

De origem simples, sua família passou por dificuldades financeiras, o que os obrigou a mudarem inúmeras vezes de casa.

– Não lembro quantas vezes mudei. Não dá para contar!

Isso dificultou sua permanência na escola – estudou até o terceiro ano do ensino fundamental. Desde os oito anos de idade, acompanhava seu pai nos faróis da zona sul da cidade de São Paulo para vender cocadas.

Foi na  comunidade de Santa Tereza que Kaab “criou raízes”. Apelidou-a de “meu quilombo”.

***

O Rapper César Kaab Abdul

O Rapper César Kaab Abdul

A ONG Zuma Luma Resistência nasceu pelas mãos de César em 1998. Iniciada apenas com a formação de uma biblioteca, foi incendiada por discordâncias de interesses e reaberta no ano de 2010. Hoje, tornou-se um centro cultural bastante frequentado pelos moradores da região.

– De onde vem este nome? – pergunto.

– Fiz uma mistura de nomes: Zumbi dos Palmares, negro da revolução; Malcolm X, com quem tenho grande relacionamento com sua história; Luther King, de Martin Luther King; e Mandela, de Nelson Mandela. A junção das iniciais desses nomes deu Zuma Luma.

Ele detalha:

– Ficou com essa pronúncia, ligada à questão de lutas. Sempre digo que foi uma coisa iluminada, Subhana Allah (benza Deus), eu não tinha uma relação com o Islã na época, mas está aí até hoje e deu referência para muitas pessoas que viraram advogados, professores, políticos. Todos eles, até hoje, voltam pra cá e eu continuo no mesmo lugar. Isto é interessante: eu sempre estou aqui!

No final da década de 1980, ainda adolescente, Kaab mergulhou no universo do hip-hop, formando seu primeiro grupo, o Poetas de Rua.

Com habilidade para escrever letras e poesias, sua memorização não deixa a desejar em relação à qualidade de seus escritos. Em 1991, Kaab criou outro grupo, com o nome de Tribunal Negro.

– Na época eu era muito contestado pela comunidade e pelos negros, porque eu era branco. O hip-hop era muito ligado ao povo negro, da periferia, como é até hoje. E, como assim, um branco cantando hip-hop?

– Como lutou essa batalha?

– Tive que provar que era bom, que sabia fazer rap, que conhecia o mundo das favelas. As pessoas começaram a gostar e comecei a trabalhar só com isso. Cantei em vários lugares, em guetos, em periferias. Vendi músicas para caras que fizeram sucesso, tá ligada?

– E por que militante do movimento negro?

Kaab mexe seu corpo, como se estivesse acomodando-se, olha para baixo, faz o som de “ram-ram” como quem se prepara para falar, descruza os braços e leva a mão direita à barba, acariciando-a:

– Sou filho de estupro, mas conheço minha ancestralidade.

Seu bisavô era escravo. Seu avô paterno nasceu na Lagoa da Serra da Barriga, em União dos Palmares. A avó paterna descende de portugueses e casou-se com um negro.

A avó materna, também de ascendência portuguesa, casou com “capixaba, preto mesmo”, e completa:

– Então esta é a minha identidade! O problema é que a periferia é preta. Tudo o que é relacionado ao negro é considerado ruim. Isto é um condicionamento.

Mostrando firmeza em suas palavras por meio do tom forte, com seu semblante sério, explica que a origem da palavra “denegrir” vem do termo negro e afirma que “esta crença está enraizada em nossa cultura”. Enfatiza que “é preciso mudar este pensamento, não importando a cor da pele”.

***

Antes de viver do hip-hop, Kaab trabalhou em uma empresa por dez anos. Ao ser vendida para uma multinacional, teve uma grande decepção. Disse ter ouvido da nova chefia: “Não precisamos mais de seus serviços. Você tem marcas de presidiário (tatuagens nos braços, de um passado que prefere esquecer) e, com essas marcas, você não serve pra gente”.

Na ocasião, Kaab, ainda conhecido por César, já tinha o filho mais velho e sua esposa estava desempregada. Como quem perde a esperança na vida e no homem, revoltado e acometido por uma forte depressão, saiu de casa e foi morar nas ruas de São Paulo.

– Caí na depressão, separei da esposa e fui para as ruas. Fiquei nas ruas de São Paulo, morando na vida louca, literalmente. Eu ficava na rua e dormia em albergues.

Passou dois meses nessas andanças inconstantes.

Para falar sobre a experiência em si, seu tom de voz muda. Com os olhos brilhantes cheios d’água, braços cruzados e apoiados sobre os joelhos, Kaab desabafa:

– Ninguém enxerga essas pessoas, vi muitas coisas na rua, cara.  Coisas fortes. A gente é invisível. Ninguém conhece a gente, ninguém vê a gente! Hoje eu entendo muito bem a cabeça de um morador de rua.

Certo dia, conta, estava debaixo do Viaduto da Avenida Nove de Julho, na cidade de São Paulo, quando um “camarada seu” passou por ele e o reconheceu. Seu amigo ficara “chocado” com sua situação, pois César estava “irreconhecível”. Almoçaram juntos e conversaram. O amigo o convidou para morar em sua casa.

“Minha casa é pequena, mas cabe você”, disse. Foi o suficiente para aceitar o convite e sair daquela situação. Durante a conversa que tiveram, Kaab criou uma poesia. Ele a recitou ao amigo:

“Tranca, afiada, aprisionada, dentro de mim mesmo, eu tento, penso, tento, penso e não sei o que penso… A minha mente é uma bomba que já explodiu, acabou comigo mesmo e ninguém sentiu… A prisão daqui é igual a de qualquer lugar, vou sumir desse lugar, só Deus sabe onde eu quero chegar… Vejo hipocrisia na igualdade, entre o céu e o inferno o meu coração ainda bate.

… Não posso ficar violento, e estou só e sinto muito medo de mim mesmo… Eu estou consumido, sem nada, sem ninguém, me sinto um lixo… Eu quero falar, mas não encontro argumentos. Mãe, eu lamento.

… Entre álcool e neurose correndo alucinado… Eu sou tudo e de nada sou rejeitado. Minha alma suplica: mais uma chance eu queria, de ter um recomeço, uma nova vida…”

 A poesia-desabafo de sua alma tornou-se a  salvação, uma possibilidade de começar um novo caminho. Seu camarada, maravilhado com as palavras que acabara de ouvir, insiste para que Kaab volte a trabalhar com música.

Kaab concorda. Com o objetivo de musicalizar a nova poesia, inicia uma fase de pesquisa na internet sobre músicas e melodias. Até que, um dia, ouve um canto árabe, o Aden (chamado para a reza) que pronuncia por quatro vezes as palavras Alahu Akbar, ou “Deus é Grande”, lentamente, em forma de canto. Kaab desconhecia o canto, mas se emocionou com o que ouvira.

Masha Allah! Comecei a chorar compulsivamente, não sabia o que era cara, só achei muito bonito!

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Na Ong Zuma Luma

Por dias, o canto não saiu de sua mente, e ficou ecoando no pensamento. Então, descobriu que se tratava do chamado da reza dos muçulmanos. Começou a pesquisar sobre o Islamismo e, em 2012, entrou para a religião.

Através da sua dedicação, descobriu “o verdadeiro significado da expressão Jihad: luta de você contra você mesmo”.

– Aí saquei, é isso cara, as pessoas lutam contra os outros, enquanto a verdadeira luta é com a gente mesmo! É você com você mesmo! Decidi ser muçulmano e me tatuei. Falei: “sou esse aqui, esse cara que luta contra ele mesmo”.

Estica o braço direito e mostra a tatuagem em letra cursiva e grande: Jihad Mulsim.

Fez o Chahada pela internet, com um amigo egípcio. A atitude consiste em dizer, com o dedo indicador direito erguido e os demais dedos fechados:

Laillahaillalah Muhamad Draçulallah. – Deus é um só e Mohamad é o Seu mensageiro.

Após esta sentença em voz alta, na presença de uma testemunha muçulmana, desde que realizado de coração e vontade própria, a pessoa já está revertida ao Islã.

***

A escolha pela religião trouxe grandes mudanças em sua vida e ainda traz novos desafios. Deixou de ingerir álcool, mudou as vestimentas e até a forma de se alimentar, pois a carne de porco é proibida.

Da sala de sua casa, fez uma Mussa Allah (pequena Mesquita, ou local improvisado para rezar). Curiosos, muitos amigos começaram a perguntar sobre a religião. Em pouco tempo, seis brasileiros se reverteram em Embu das Artes. O número vem aumentando e a Mussa Allah, com aproximadamente doze metros quadrados, ficou pequena.

No mesmo espaço há aulas de religião e da língua árabe. Nas paredes brancas, apenas objetos decorativos com a palavra Allah (Deus).

Às quartas-feiras, há aula de religião para homens, mulheres e crianças.  Nem sempre Kaab está presente, mas quando pode, seu lugar é de aluno. Vânia prepara pipoca. Todos deixam seus sapatos do lado de fora e pisam descalços sobre o tapete vermelho que cobre o chão e abriga os muçulmanos.

Estão aprendendo a história de Omar, um personagem importante do universo islâmico. A aula ocorre com a passagem de um filme. As mulheres vestem roupas comuns de nossa cultura, desde que cubram todo o corpo, e utilizam um lenço na cabeça para esconder os cabelos.

Elas se conhecem e conversam entre si. Estranham a minha presença. As crianças já estão lá. A cada minuto chega alguém e diz Salam Aleikum! Todos respondem, numa mistura de vozes, como se fosse um coral: Waleikum Salam!

Os homens chegam um pouco mais tarde, todos com o Taqyir sobre as cabeças. O clima é de harmonia. Não parece uma aula de religião. Há perguntas, descontração, risos e interação.

Às terças-feiras, a aula é de língua árabe. Outro desafio a todos os revertidos, inclusive para Kaab.

Sentados no chão como índios ou com o corpo sobre os joelhos dobrados, as crianças repetem as letras do alfabeto árabe, escritas numa prancheta tripé: alef, be, tê, cê, gim…

Kaab diz estar contente com a Mussa Allah, mas não para por aí. Está realizando um sonho seu: a construção de uma mesquita (o templo dos muçulmanos).

– Ainda é pequena, mas é a primeira mesquita do mundo a ter o nome de uma mulher: Sumayyah Bint Khayyat. Você sabe quem foi Sumayyah? A primeira mártir muçulmana e também era negra, etíope. Escolhi este nome porque a mulher precisa ganhar espaço também no meio islâmico.

Quando não é Kaab que está à frente das orações e das atividades da mesquita, tem como seu braço direito o Gihad, um Imam, ou seja, líder religioso que possa substituí-lo.

***

Kaab também é membro divulgador do Instituto Islâmico. O trabalho é chamado de Dawa (lê-se daua, divulgação). Em São Paulo, a ação ocorre na Praça da Árvore, na saída do metrô, todas as tardes de quarta-feira.

Duas pessoas se dedicam ao Dawa com Kaab. Chegam com suas mochilas nas costas e montam uma barraca ou espécie de mesa onde possam colocar livros e panfletos.

Vestido com um Galabiya, espécie de vestido masculino que cobre todo o corpo, inclusive os braços, e com o Taqyia preto na cabeça, Kaab sente-se à vontade num local de grande movimento na cidade de São Paulo, apesar do traje destoar da nossa cultura.

Ele não é daqueles que espera alguém chegar para perguntar. Usa sua habilidade comunicativa e seu largo sorriso, primeiro para cumprimentar as pessoas; depois, oferece um folheto sobre o Islã.

Na mão esquerda, vários panfletos; na direita, apenas um, como se já estive predestinado a ser entregue à alguém:

– Com licença, boa tarde. Aceita um panfleto sobre o Islamismo?

Há quem pegue e vá embora. Há quem pare para conversar e fazer perguntas a Kaab. Tem também aqueles que param diante da mesa e, curiosos, iniciam um bate-papo com um dos divulgadores.

Quando não está na Praça da Árvore, Kaab faz o mesmo trabalho pelo Brasil. Seus dias são repletos de compromissos. É difícil encontrar um espaço livre na agenda.

Kaab também é membro divulgador do Instituto Islâmico. O trabalho é chamado de Dawa (lê-se daua, divulgação). Em São Paulo, a ação ocorre na Praça da Árvore, na saída do metrô, todas as tardes de quarta-feira.

Kaab também é membro divulgador do Instituto Islâmico. O trabalho é chamado de Dawa (lê-se daua, divulgação). Em São Paulo, a ação ocorre na Praça da Árvore, na saída do metrô, todas as tardes de quarta-feira.

Recentemente esteve em Goiás por cinco dias. Retornou para São Paulo, passou um dia com a família, verificou toda a situação na Zuma Luma e, no dia seguinte, partiu para Minas Gerais.

Seu trabalho é a realização do Projeto Islã para Todos, que tem como foco as periferias, pouco visitadas pelos muçulmanos.

***

Hoje, Kaab é chamado pelos muçulmanos de Hajj, ou seja, pessoa que já realizou a peregrinação à Meca, local onde nasceu o Profeta Maomé, na Arábia Saudita.

Conta que recebeu a ligação de um sheik (líder dos muçulmanos), convidando-o para a viagem.

– Levei um susto, pois não sabia ao certo o que significava a peregrinação, qual a sua importância.

Mas é curioso e aceita os desafios da vida com facilidade.

– Eu não tinha noção do que realmente era o Hajj, o que eu iria passar. Pensei: “será que estou preparado?” Mas, cara, quando faço alguma coisa, faço por inteiro. Como virei muçulmano, tinha que aceitar o desafio. Então fui.

Já em Meca, fez um pedido à Allah.

– Pedi que me desse a oportunidade de renascer e que me desse um sinal. – contou. – Tem uma surata (versículo do Alcorão) da qual gosto muito e pedi à Allah que, se Ele me desse a oportunidade de ter outra vida, deixar todo o meu passado para trás, que esta surata fosse recitada no Fajer (oração da Alvorada).

Junto a milhões de pessoas e pronto para realizar a oração da Alvorada, que ocorre antes do nascer do sol, ouviu o início de uma reza. Logo se deu conta de que era a surata que havia pedido a Allah.

"Daquele momento em diante entendi o quanto Deus é misericordioso! Eu realmente renasci, mudei de vida".

“Daquele momento em diante entendi o quanto Deus é misericordioso! Eu realmente renasci, mudei de vida”.

– Daquele momento em diante entendi o quanto Deus é misericordioso! Eu realmente renasci, mudei de vida. Mudei todo o contexto de minha vida, que era muito pesado. O Hajj realmente foi um renascimento, então disse para mim mesmo: “agora sou um muçulmano de verdade!”.

Porém, a religião não permitira que Kaab continuasse a cantar ou escrever músicas. Ficou angustiado, mas não perdeu a fé, pois disse que sabia que encontraria outro caminho.

– Cara, o que vou fazer se escrever é a minha vida?

Foi quando criou uma página numa rede social, chamada Fragmentos de um Muçulmano, onde publica seus escritos, tanto sobre religião, quanto as causas sociais que defende. Não canta mais. Por outro lado, recita seus escritos em forma de poesias, divulgados em vídeos na rede social.

“O mesmo motivo que move muitos a se maldizerem é o mesmo que deveria mover todos a se mobilizarem, constroem-se muros encarceram a consciência, súditos, sujos, sugam nossa aderência, as iguais diferenças estão nas ambições segregadoras, maquinas ativas sugadoras, inovadoras, causadoras do parasitismo, conformismo egoísmo ensinam a escrever o alfabeto sem algarismo. Será que nos resumimos nisso?”

A página, com inúmeras publicações, se transformará em livro, ainda em 2016, projeto no qual também está se dedicando.

***

Após nossa conversa, pude conhecer a Zuma Luma, um espaço que inspira arte, do chão ao teto. Na fachada, a ilustração de uma mão esquerda fechada, que sugere força, e as palavras, em letra maiúscula na cor vermelha:

CANTO CULTURAL ZUMA LUMA

NÚCLEO DE HIP-HOP

BIBLIOTECA

RESISTÊNCIA É EXISTÊNCIA!

Nas paredes, diversos grafites relacionados à cultura de rua e ao movimento negro, como a figura do ex-lutador Mohamad Ali. O teto, de tijolos à vista, prende a ponta das linhas que descem segurando folhas de papel sulfite, com imagens e nomes de algumas celebridades negras. Dorival Caymmi, Carolina de Jesus e Nei Lopes chamam a minha atenção.

(ONG) Zuma Luma, que tem como objetivo a disseminação da cultura de rua e do movimento negro

(ONG) Zuma Luma, que tem como objetivo a disseminação da cultura de rua e do movimento negro

As imagens, impressas em branco e preto, dançam no ar conforme o vento que entra no espaço, cuja frente é toda aberta, como se convidasse a todos os que passam por lá.

No centro do salão há uma mesa artisticamente forrada por jornais. Sobre ela, o livro Psique Negritude repousa ao lado de panfletos sobre o Islamismo. Dois passos adiante, uma parede amarela-canário contrasta com prateleiras verdes repletas de livros, os quais aguardam para serem lidos pelas pessoas da comunidade ou do quilombo Santa Tereza.

Ao fundo, um degrau alto nos leva ao espaço musical. Sobre uma pequena mesa redonda descansa a miniatura de um violão e de uma estante. É onde ocorrem os saraus, os cantos de samba e as aulas de música e de percussão.

À esquerda do salão, uma porta aberta nos convida a conhecer o andar superior. A escada de cimento, com degraus elevados, torna difícil a subida. No entanto, um corrimão preso à parede nos ajuda na caminhada.

Na parte superior, os banheiros feminino e masculino têm portas sanfonadas. O restante é um salão aberto, também com grafites, grandes espelhos presos à parede, para as aulas de dança, e um saco de pancada profissional de boxe, utilizado nas aulas de luta.

O local mistura arte e informação. Um espaço alegre, com cartazes de diferentes informações sobre o movimento negro, o empoderamento da mulher, a valorização das periferias e o Islamismo, além de eventos de cultura de rua, apresentações de hip-hop e programação de aulas gratuitas.

A Zuma Luma oferece à comunidade aulas de violão, violino, hip-hop (contendo os cinco elementos: DJ, break, grafite, MC – Mestre de Cerimônia ou cantor e beat box – pessoa que faz o som de instrumentos com a boca).

Também são oferecidas aulas de boxe, muay thai e kung fu. Recentemente, incluíram ainda aulas de autodefesa para as mulheres.

– As mulheres precisam aprender a se defender. Outro dia vi um cara chutar uma mulher e ninguém fez nada. Quero ver a mulherada saindo na mão se os caras chegarem perto delas. – explica, sorrindo.

Este é o local onde Kaab passa parte do tempo quando não está envolvido em outras tarefas. Como alguém que tem fama, é impossível estar com ele e não ser interrompido. De minuto a minuto, alguém passa pela rua e o cumprimenta.

Às vezes para por aí; tem vezes que a pessoa inicia uma conversa, que logo é interrompida pela chegada de mais alguém. Kaab permanece em pé, de frente à ONG. Responde a todos com um largo sorriso, os ouve, demonstrando tranquilidade em sua forma de se comunicar.

Por vezes levanta um dos braços para cumprimentar alguém que o chamou de longe e grita: “E aí, beleza?”.

Leonel, um dos rapazes com quem estive, comenta:

– Putz, o Kaab é demais, cara. Todo mundo daqui gosta dele, manja? Ele é um super cara! Muito inteligente! Aprendi muito com ele e muita gente sai daqui com outra cabeça. Quando ele virou muçulmano, muita gente se assustou, mas é só conversar com ele pra ver o coração que esse cara tem!

Os jovens gostam muito de Kaab e estão sempre dispostos a ajudá-lo.

– Leonel, filho, faz um favor pra mim? Recebe ela na quarta-feira que vem para o sarau?

– Beleza. Pode deixar comigo, Kaab!

Atualmente, Kaab é presidente da ONG e não dá mais aulas, mas está sempre a par de tudo, diz Viviane, uma das colaboradoras e frequentadoras da organização. E continua:

– É mais difícil Kaab ficar aqui agora, desde que virou muçulmano, mas ele sempre está a par de tudo. Quem cuida daqui é a Edjane. Ele confia muito nela. Hoje ela não pôde vir para o sarau e pediu para que eu ficasse aqui.

– Cara, antes eu tinha medo do César e um dia pude dizer isso pra ele. Ele se mostrou outra pessoa e somos muito amigos hoje! Sempre que a gente precisa, conversa com ele. Ele nos orienta, dá palpite e todos conhecem a história de vida dele. Sabemos que ele sofreu muito, por isso é também um exemplo para todos nós, jovens negros da periferia.

***

Assim tem sido sua vida: uma entrega plena a Allah, dedicação às causas sociais que defende e a sua comunidade, somado à divulgação do Islã, junto a outros irmãos.

Logo nos primeiros minutos que entramos na Zuma Luma, Kaab me pede para ser fotografado na frente de um dos grafites:

– Por favor, bem aqui, pegue bem a comunidade e a frase. Quero mais destaque para a frase. Eu sou o de menos.

A pintura remete à comunidade Santa Tereza, com fortes traços pretos, casas pintadas de preto, cinza e laranja (cor do tijolo), com o céu alaranjado do pôr do sol, e pipas que passeiam pelo céu e se encontram com os fios da rede elétrica. Acima do desenho há uma frase centralizada em letras maiúsculas e dividida em duas linhas: “MEU QUILOMBO, MINHA INSPIRAÇÃO!”

Com o dedo indicador direito erguido, que significa que “Deus é Um Só”, Kaab se posiciona para a foto, bem ao meio do grafite:

– Veja se está pegando a comunidade e foca bem na frase lá em cima.

 

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Ssmaia Abdul

Ssmaia Abdul é Psicologa formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, mora em São Paulo e tem especialização em Jornalismo Literário .

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