No dia 10 de outubro de 1942 nascia Antonia da Costa do signo de libra, filha de severinos e do chão árido do agreste. No último domingo Antonia completou 69 anos, não ganhou presentes, não é aposentada e não tem plano de saúde. Nenhum dos seus filhos mais velhos viria ao seu aniversário, apenas recebeu a ligação dos parentes de sua cidade natal Igarassu, em Pernambuco. Antonia acordou cedo retirou o peixe da geladeira, temperou com cebola, tomate, pimenta dedo-de-moça e sal a gosto. Numa assadeira colocou o peixe e cobriu com papel laminado levou ao forno pré-aquecido em fogo baixo.

No seu quarto, em tom de desânimo, fechou seus olhos fracos, prostou-se e em silêncio fez a oração ao pé da cama, sobre o corpo do marido enfermo e das luzes que passavam pela cortina entreaberta. Abriu as janelas do quarto deixou o ar entrar, levantou o seu marido da cama e lembrou-se dos seus votos de casamento, na saúde e na doença até que a morte os separe. Colocou toda a força à proa no seu braço fino e na sua pouca estatura envergou o corpo para levantar o marido da cama, trocou-lhe as roupas e levou-o a sala. Voltou à cozinha pegou o peito de frango cozido, do dia anterior, em uma bacia desfiou o frango com o auxílio de dois garfos retirando a carne cuidadosamente como lhe foi ensinado às duras broncas das patroas, nas casas por onde esteve quando chegou a Curitiba.

Para o cardápio do dia alguns ingredientes estavam faltando. Antonia desceu ao mercado, no caminho comprimentou sua amiga que a parabenizou com um aperto de mão e um sorriso de caldo de galinha. No mercado comprou uvas passas, maça, batata palha, creme de leite em caixinha para juntar ao sachê de 90g de maionese e com o frango já desfiado. Passou pelo caixa preferencial, pagou em dinheiro e recebeu 0,32 centavos de troco.

Na sua casa deixou as compras na mesa, deu duas batidas na porta do quarto do filho mais novo, beijou suavemente a testa do seu marido sentado na sala e voltou aos afazeres. Pegou na geladeira o restante dos ingredientes como: salsinha, cheiro verde, seleta de legumes, ovos (já cozidos) e as azeitonas sem caroço. O arroz branco cozido com cebola refogada e um dente de alho misturaram – se aos ingredientes retirados da geladeira, com exceção ao ovo que foi fatiado em rodelas e montado na forma de pudim untada com manteiga. O arroz temperado foi para a forma com os ovos fatiados e ao forno com o peixe que já exalava o perfume dos temperos no cozimento.

O frango desfiado juntou–se aos ingredientes comprados no mercado em uma travessa longa esticou a massaroca e colocou a batata palha por cima. Levou a mesa o peixe, o fricassé de frango, o arroz temperado e o pirão de peixe com farinha de mandioca e água para dar sustância à refeição. Os três sentaram a mesa o pai, o filho e a mãe. Comemoraram o domingo. Beberam, comeram e soluçaram como se fosse o máximo e como se fosse o último.

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Mario Luiz Costa Junior

Iniciante, recém chegado do jornalismo moleque. Estilo namoradinho da verdade. Charmoso e dengoso nas letras. Deambulante da desinversão da pirâmide invertida. Ativo e passivo no lead e sub-lead. Não dispensa ‘A história da minha vida’ com Renato Gaúcho.

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