Uma mosca pousa em meu nariz. Coça. Tiro-a de seu lugar e, num piscar de olhos ela alça vôo novamente, em busca de outros narizes, bocas e ouvidos onde zunir. Esta mesma mosca realiza toda a sua vida em dois, três dias. Uma semana no máximo. Despois disso ela desaparece, some, se dissolve no grande mar da matéria universal.

Se nada impedir minha caminhada, devo viver cerca de 75 anos, conforme as estatísticas mais recentes para o Brasil. Neste período nasço, cresço, brinco, faço amigos, estudo, bebo, fumo, dou vexame, me envergonho, faço coisas grandiosas e insignificantes, me reproduzo, envelheço e morro. Tenho cerca de 75 anos para fazer tudo o que esta mosca realiza em sua longa semana de vida.

O universo, por outro lado, tem cerca de 15 bilhões de anos, segundo alguns astrônomos. Um dia, por algum motivo, toda a matéria que nos compôe e que estava concentrada em torno de um forte campo gravitacional explodiu, espalhando por aí milhões de pequenos grãos de poeira e fazendo a maior sujeira no vazio que antes existia. E sobre um minusculo grãozinho desta explosão, chamado planeta Terra, que a minha espécie, a humanidade, vive a cerca de 20 mil anos.

Neste período construímos e destruímos uma série de coisas: prédios, pontes, estradas, florestas, amizade, esperança, dor e a nós mesmos. Coisas imensas e inexpressivas ao mesmo tempo. Imensas porque não as compreendo como totalidade e, mesmo que eu rode o mundo todo, em cada um de seus cantos obscuros, sei que me faltará sempre algo por compreender. Cada pergunta que faço é sempre seguida de muitas outras. Nunca as respondo plenamente, somente as amplio.

Mas quando olho para o céu, o que vejo? O Sol, a Lua, as estrelas, os planetas. E diante de tudo isso é que está a nossa pequenês. É tanta coisa pulsando ao mesmo tempo. Tempo? Está aí outra coisa bastante difícil de entender. A luz do Sol, por exemplo, leva cerca de oito minutos para chegar até nós. Isso significa que quando o vejo, faço-o oito minutos depois do que ocorre nesta pequena estrela. O que vejo, agora, é o passado.

Posso ir além com uma pergunta simples. É o nosso planeta o único com vida em todo o universo? Não há como saber. Se com um telescópio observo um astro qualquer na galáxia vizinha – Andrômeda – o que vejo agora já ocorreu há dois milhões de anos atrás. Isso porque a luz que vêm deste ponto do universo, em sua velocidade de trezentos mil quilômetros por segundo demora todo este tempo para chegar em meus olhos. Dá pra imaginar que um ser qualquer de um planeta distante que neste momento nos observa, enxerga aqui apenas rochas incandescentes do pré Cambriano,; ou os grandes dinossauros em imensas florestas tropicais do Cretáceo, se este observador estiver um pouco mais próximo.

Logo, observar toda esta imensidão nos faz, e a tudo o que construímos, coisas frívolas e insignificantes.

Mas voltemos a pensar do ponto de vista da mosca. Para ela eu, com meus vinte e tantos anos sou eterno, ou tenho muitos bilhões de anos, seja lá como as moscas medem a isto que chamamos de tempo. Pode ser que ao pousar no meu nariz esta mosca esteja coletando materiais geológicos e pedológicos para tentar reconstruir sua história e compreender um pouco mais a sua existência, como eu tento fazer agora.

Pensar assim desmonta nossa ideia de Tempo e de Espaço como estáticos, imutáveis. Nos tira o chão sob os pés e nos coloca à deriva, sem rumo certo, sem que nada nos pertença realmente. E por romper com as imensas muralhas do presente, do passado e do futuro, diluindo tudo em uma caótica e contraditória sopa existencial, posso finalmente compreender que sou eterno e, por isso, mais livre do que nunca. Estou livre, despedaçado, solto. E condenado eternamente aos grilhões desta liberdade…

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Kauê Avanzi é mestrando em Geografia pela USP, educador no Ensino Básico, poeta e músico. Gosta de escrever, se divertir e confraternizar.

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