Dava pra ouvir o barulho da moto subindo a rua sem saída. Era umas nove da noite. Queria comida e um banho. Strogonoff de carne, batata palha e arroz branco com o fundo da panela um pouco queimado.

O banho uma provocação, claro, que surge dessas discussões de casal após um mês de encontros. Na última quarta teria sido a primeira vez que veio de casa, arrumada, vestido azul, meia calça e bota marrom com detalhes em dourado, aquele andar bonachão e os cabelos escuros soltos.

O olhar fundo na feição sisuda do seu rosto, nas poucas palavras, ou nos insistentes “tá, tá, tá”, parece que nunca nos entendemos, noutras vezes, que éramos um só. Ela veio com a panela até o quarto e perguntou “posso comer tudo?”, sobrou apenas o arroz com os queimados da panela, que jurava fazer bem melhor.

De manhã atrasamos de novo. Fomos ficandinho, ficandinho, ficandinho, ela falava assim… e, já passava do meio-dia. Eu concordo que o dia seguinte a estes encontros deveria ser por lei, decreto, norma, para o bem estar geral da felicidade, feriado. Os relógios cravariam as 07:00 e dali não sairiam até última ordem, por assim, não seríamos engolidos pelo atraso no trabalho, pela perda de prazos, pelo frio da ausência do corpo nú, ou, acometidos de saudade espontânea naquele beijo demorado, mas tão curto de despedida.

O corpo vai se amalgamando ao outro como uma prótese perfeita de nós mesmos, que não existe forma que encaixe daquele jeito no pensamento ou entre as mãos, entrelace os dedos. Agente se demora e o tempo vai passando, sem perceber, sem ajustar, envelhecendo a face, derretendo o gelo no ar quente da respiração, o tempo nos rouba até nos separar, segundo, minuto, a hora. Abri o portão, o sol alto brilhava próximo da tarde, vestiu o capacete, enquanto a moto saia meus olhos seguiam até o fim da rua e dobrar a esquina, vá com cuidado, chegue bem, fique bem. Foi em outra vida ou há dois meses atrás que o caminho pela Pedreira até próximo à cruz do Pilarzinho era parte do cotidiano.

Hoje, senti um aperto na garganta, a vontade única de que a Máquina do Tempo de H.G Wells não fosse apenas ficção. No entanto, até no livro toda vez que o personagem retorna ao passado para corrigi-lo, outro acontecimento inesperado acarreta o fim. A resposta esta no seguir em frente, a maior prova de amor é a liberdade, certos amores tem que acontecer, impossível não se apaixonar, neste momento, fadado a terminar. Do primeiro ao último beijo, era inevitável. Sinto saudades.

Desculpe o transtorno, mas precisava falar sobre ela.

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Mario Luiz Costa Junior

Iniciante, recém chegado do jornalismo moleque. Estilo namoradinho da verdade. Charmoso e dengoso nas letras. Deambulante da desinversão da pirâmide invertida. Ativo e passivo no lead e sub-lead. Não dispensa ‘A história da minha vida’ com Renato Gaúcho.

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