Seu Zé tinha pouco mais de 50 anos. Magro, bigode expeço. Todos os dias vinha trabalhar com uma “Barra Forte” onde trazia uma garrafa de café e, às vezes, alguns “bolinhos de chuva”. A risada constante lhe tornava uma figura muito agradável. O conheci há pouco mais de dez anos em uma das muitas obras da construção civil em que trabalhei na adolescência e em boa parte da vida adulta. Na minha família, trabalhar um período da vida como servente de pedreiro é uma espécie de tradição que alia necessidade financeira com a valorização da profissão que deu condições a meu pai para sustentar sete filhos.

Na obra onde conheci Seu Zé os pagamentos eram feitos por uma empresa terceirizada, contratada pelo governo do estado para reformar alguns colégios da rede pública de ensino. Em média víamos dinheiro a cada três meses, no restante do tempo, só desculpas. Em represália aos atrasos os peões diminuíam o ritmo de trabalho, e a reforma ia parando aos poucos. Não havia perspectiva para a normalização dos pagamentos e, consequentemente, dos trabalhos. Os dias eram divididos entre partidas de truco, cochilos sob a sombra de um pé de ameixa e animadas rodas de conversa. Falava-se sobre tudo, de futebol à política, de plantação de feijão ao fim do mundo. Sabia-se um pouco sobre cada pedreiro, servente, carpinteiro, eletricista. Um havia vindo do interior com a esposa e os filhos pequenos e a vida só tinha piorado desde então. Outro vinha bem, até sucumbir ao vício e perder um carro no jogo de baralho. Seu Zé, por sua vez, havia perdido a esposa que o tinha trocado por um pedreiro chamado Jair. O algoz de Seu Zé trabalhava na mesma obra e era comum ver os dois almoçando lado a lado. Depois da separação Seu Zé ficou com a dor de ser traído e com o filho mais jovem, um rapaz que também era servente e que tinha, digamos, certo asco pelo trabalho.

Mas nem só de tristezas viviam os peões. Havia certa esperança em cada um. Algo ingênuo e utópico talvez, principalmente diante da realidade de uma profissão pouco valorizada e em um lugar onde quase não se recebia pelo trabalho realizado. Mas a confiança em dias melhores estava lá. Uns sonhavam em ganhar uma bolada na mega sena e tirar o resto da vida de férias. Outros almejavam uma herança de família, que seria capaz de dar cabo a todas as dívidas além de possibilitar dias agradáveis de frente pro mar na companhia de camarão e cerveja.

Seu Zé também tinha um sonho. Sonhava em erguer, acima de seu barraco de madeira no bairro Fazendinha, duas peças. Uma delas seria uma sala de estar onde estariam acomodados um sofá e uma TV e a outra um banheiro. Era ali que se acomodaria o sonho da vida de Seu Zé: uma banheira. De frente para uma janela a banheira seria usada, segundo ele, especialmente em dias quentes, e nestas ocasiões apenas a cabeça e os pés ficariam para fora da água.

Ao ouvir o sonho de Seu Zé confesso que fiquei intrigado. Como alguém podia sonhar com algo tão pequeno? E a fortuna dada pela loteria? E as belas mulheres? Os carros? As mansões na beira mar? E o homem que havia lhe tomado a mulher, nem uma vingança contra ele? Mas Seu Zé não sonhava com dinheiro, não queria vingança contra Jair e também não desejava uma companheira mais nova e mais bonita para fazer inveja a antiga. Seu Zé não sonhava com o filho formado, doutor, não pensava em uma moto para aposentar a velha “Barra Forte”. Seu Zé queria apenas uma banheira para aliviar o cansaço da semana passada em meio a areia e o cimento. O objeto serviria de refúgio contra os problemas e as incertezas da vida. Ainda imagino Seu Zé com os pés pra fora da banheira, acompanhado por uma jarra de limonada enquanto olha pela janela e vê os meninos jogando bola na rua, os cachorros se cheirando no portão e a vida passando devagar.

Só hoje entendo o sonho de Seu Zé. Desejar uma banheira sobre um puxado de madeira em frente a uma janela, por onde pode se ver a rua, é de uma maturidade invejável. Diferente da maioria Seu Zé sabia que os grandes momentos não se escondem em contas bancárias, em carros luxuosos, em belas roupas ou em belos móveis. Um momento solitário sob as águas de uma banheira faria o servente mergulhar profundamente em si mesmo, em uma espécie de retiro interno, em uma reflexão tão necessária para começar a ver a vida e as prioridades com outros olhos.

Seu Zé também tinha um sonho. Sonhava em erguer, acima de seu barraco de madeira no bairro Fazendinha, duas peças. Uma delas seria uma sala de estar onde estariam acomodados um sofá e uma TV e a outra um banheiro. Era ali que se acomodaria o sonho da vida de Seu Zé: uma banheira.

As águas, que provavelmente não teriam sais de banho, nem espuma, trariam alívio aos calos da mão e às dores nas costas como uma espécie de remédio para todos os males do corpo e da alma. Além disso, relaxar de frente a janela daria a Seu Zé uma sensação de recompensa. O pagamento de um benefício atrasado que não se limitava apenas ao ordenado da obra onde trabalhávamos, mas a reparação de uma vida toda, desde a época onde o cabo da enxada maltratava as mãos em meio a lavoura de feijão no interior, passando ao cabo da pá que alimentava a sedenta boca de uma betoneira nas diversas obras da capital. Acima de tudo, Seu Zé sabia que nem a traição da ex mulher era suficiente para o cultivo de ódio. Ele estava acima disso. Nem vingança, nem luxo. Seu Zé queria relaxar sob as águas de uma banheira em uma espécie de presente para o sofrido corpo e a sofrida alma.

Nunca mais vi Seu Zé, não sei se tem saúde, nem sei sé é vivo. Só sei que se tem alguém nesse mundo que merece ter uma banheira, esse alguém é Seu Zé…

Comentários

Comentários

About The Author

José Pires

É Jornalista idealizador do Parágrafo 2. Trabalhou como repórter na Região Metropolitana de Curitiba e como Assessor de Imprensa. Dirigiu o documentário Tabaco – As folhas da incerteza. Acredita que o Jornalismo é mais do que a reprodução dos fatos mais relevantes do dia

Related Posts