Coluna Pão e Pedras: Amenidades e Poesia 

Pedro tem 14 anos, mora no morro do Cantagalo, Rio de Janeiro, e sonha em ser jogador de futebol. Irmão mais novo dos cinco que sua mãe – solteira – sustenta com o trabalho de lavadeira.

O que há de particular nessa história que, apesar de enfadonha, é comumente atribuída a milhares de pessoas em todo o mundo? O que há de comum entre todas estas histórias? Haveria ciência que as explicasse?

Pedro é parte de um todo, que é o mundo. A ciência é a forma de conhecimento que procura explicar os fenômenos existentes neste mesmo mundo, utilizando-se de um método sistemático previamente definido. Logo, Pedro, embora não tenha consciência disto, é todo ciência. Desde sua atuação como objeto de estudo – por mais que me pese defini-lo pura e simplesmente enquanto tal – de um ou outro pesquisador que estuda a ocupação dos morros cariocas até aquela que lhe chega à escola, muitas vezes com ares de tortura cognitiva.

Logo, “o modo próprio que a ciência tem para obter conhecimento da realidade empírica é a pesquisa” (Rudio). Acredita-se que o acesso a esta esteja reservado a um número extremamente restrito de “iluminados”, que detém o poder inquestionável da verdade absoluta. Ao cientista – o estranho – cabe observar, interpretar, testar e criar uma explicação verdadeira da realidade. Mas o que seria a verdade?

Aristóteles definia a verdade como um meio, e não como um fim, ou seja, ela seria o caminho trilhado para a busca do conhecimento – também conhecido como pesquisa – e não o conhecimento em si. Sob este ponto de vista, não existiria uma verdade absoluta, mas verdades relativas. Cada pessoa, por ser diferente das outras, teria contida em si uma verdade, que não necessariamente corresponde à do outro.

A partir disso observamos que, assim como Pedro, o cientista/educador também está imerso na realidade a qual busca interpretar/estudar. Há vivências, histórias e experiências que o fazem agir e interpretar a realidade de tal ou qual maneira. Marx já dizia que as condições materiais determinam a consciência, e não o seu oposto. Portanto, o cientista/professor não tem como estar isento de posicionamentos em relação aos objetos de sua pesquisa, já que é também objeto. Mesmo estando alheio a qualquer política, a ciência produzida pelo pesquisador tem impactos sociais e políticos de importância considerável, podendo servir tanto para aumentar a produtividade de alimentos em um assentamento quanto para desalojar toda uma comunidade, deixando milhares de pessoas sem teto.

            “Em termos cotidianos, pesquisa não é ato isolado, intermitente, especial, mas atitude processual de investigação diante do desconhecido e dos limites que a Natureza e a Sociedade nos impõem. Faz parte de toda prática, para não ser ativista e fanática. Faz parte do processo de informação, como instrumento essencial para a emancipação. Não só para ter, sobretudo para ser, é mister saber”  DEMO, P.  Pesquisar – O que é? In: Pesquisa – Princípio Científico e Educativo, 12ª ed., São Paulo, Cortez, 2006, p. 16

Logo, podemos concluir que o quecomoporque e para que pesquisar/educar se configuram também enquanto escolhas políticas do pesquisador. Estando a pesquisa e a ciência recheadas de interesses sociais, a forma como esta se espraia e é apropriada pela comunidade não pode ser desprezada. O pesquisador deve, enquanto prática política, utilizar-se dos conhecimentos adquiridos para realizar uma intervenção social que pressuponha a transformação da realidade cotidiana, exercendo a prática pedagógica como fonte de conhecimento para a comunidade e para si mesmo, pois “quem ensina carece pesquisar; quem pesquisa carece ensinar. Professor que apenas ensina jamais o foi. Pesquisador que só pesquisa é elitista explorador, privilegiado e acomodado.” (Demo). Não se trata, pois, de messianismo; da simples entrega de algo acabado, como se enchêssemos potes vazios com verdades absolutas, pois isso se configura enquanto manipulação. Trata-se de uma efetiva troca de conhecimento onde ambas as partes – comunidade e pesquisador – adquirem efetivo crescimento intelectual. Para que isso ocorra é necessária a pluralidade de pensamento e o aprendizado em liberdade, como já nos apontava Paulo Freire.

No mundo contemporâneo, porém, a ciência é utilizada – na maioria dos casos – para a manutenção do Status Quo social e político. Compreendemos muito mais as formas de manter a exploração de uns poucos sobre muitos do que modos efetivos de transformação social e de superação do modo de produção capitalista. Teorias “radicais”, “críticas” e que deslegitimam toda a prática política, toda e qualquer movimentação social, pregando, no máximo, um capitalismo “bonzinho”, onde todos os “coitados” seriam somente menos explorados sem, no entanto, deixar de sê-lo efetivamente, são muito mais comuns nas universidades do que podemos aqui citar.

Assim, a ciência empírica e alienada estabelece uma cisão extremamente bem marcada entre sujeito e objeto. Estes dois não são parte do mesmo mundo. Cabe ao primeiro observar e explicar tudo de fora, em um universo paralelo, enquanto o segundo é sujeitado a aceitar como verdade um (des)conhecimento que lhe é superior, dita-lhe regras, leis, ordens, sem que este compreenda de fato quais são os processos e interesses ali envolvidos. A “neutralidade” –ou seja, a sua verdade – científica lhe parece uma verdade absoluta, enquanto o conhecimento popular – espontâneo – é descaracterizado enquanto tal, sendo denominado de senso-comum, que em nada presta a ciência. O saber do cientista é mais saber que o saber popular.

Esta postura científica/pedagógica, de caráter positivista, toma a parte enquanto todo, tornando os fenômenos a-históricos. Preocupa-se, sobretudo, com generalizações infundadas que descaracterizam os sujeitos-sujeitados ao estudo científico como indivíduos dotados de particularidades para que estes se tornem meros números de mensurações estatísticas.

A ciência então cumpre seu papel ao estabelecer a repartição entre pessoas a partir de generalizações absurdas. O fato de  – para usar um exemplo geográfico – criar-se regiões administrativas em um determinado espaço, distingue o eu do outro. Deixamos de lado nossa marca em comum – a de ser humano – para tornarmo-nos Paulistas, Nordestinos, Americanos ou Europeus. Perde-se a noção da humanidade enquanto um todo, um coletivo, para que lutemos pelo desenvolvimento do “nosso” território, da “nossa” cidade, “nossa” casa, nem que para isso tenhamos que deixar de milhares de “outros” fadados à miséria e a opressão. O desenvolvimento do lugar então se impõe enquanto uma meta temporal a ser alcançada e, como perdeu-se a noção de todo, gerou-se o que Milton Santos chama de rugosidades do espaço-tempo, ou seja, determinados fragmentos do espaço se configuram enquanto “desenvolvidos” e outros como “não-desenvolvidos”, cabendo aos últimos esforçar-se para alcançar o “desenvolvimento” dos primeiros.

Porém, como desenvolver é também des-envolver, no sentido de perder o envolvimento, não se compreende, por exemplo a lógica do desenvolvimento desigual e combinado que rege o modo capitalista de produção, onde a relação entre centro e periferia (desenvolvidos e não-desenvolvidos) é a-temporal e força motriz do capital. Não há centro sem periferia, e vice-versa, no sistema econômico vigente.

Logo, fazer ciência dentro de uma perspectiva que leve em conta pura e simplesmente a lógica formal dos acontecimentos incorre em uma insuficiência teórica perigosa, no sentido de que se faz análises apenas do que está posto (daí o termo positivismo) sem grandes questionamentos a respeito da sociedade em que vivemos e/ou dos destinos que tomaram os resultados da pesquisa/prática docente.

A lógica dialética – que contém em si a lógica formal – busca explicar os fenômenos a partir de suas contradições, analisando negativamente a realidade. Aqui não há mais dualidades, desenvolvidos e não-desenvolvidos; senhor e escravo; luz e escuridão, interpreta-se a realidade a partir de seus conflitos. Podemos compreender a dialética que já existia entre os gregos e a filosofia oriental quando observamos a China antiga, onde o princípio filosófico yin-yang da China, representado pelo diagrama do Taijutso Tu, ilustra a relação conflituosa e complementar entre os elementos existentes. Não há luz sem escuridão, nem o céu sem a terra. O conflito entre os opostos, presentes em toda a existência explicariam todas as relações do universo (Cooper). Outro exemplo claro deste tipo de análise é a dialética entre senhor-escravo, proposta por Hegel, onde senhor e escravo estariam em eterno conflito. No entanto, anulando-se a existência de qualquer destes dois elementos, a relação deixaria de existir. Sem o escravo o senhor é senhor de ninguém, e sem senhor o escravo não teria a quem obedecer, tornando-se um homem livre.

A ciência então cumpre seu papel ao estabelecer a repartição entre pessoas a partir de generalizações absurdas. O fato de  – para usar um exemplo geográfico – criar-se regiões administrativas em um determinado espaço, distingue o eu do outro.

 A melhor compreensão da realidade não implica necessariamente na transformação desta, como uma força estranha que vêm do céu e ilumina os homens. A prática política do cientista/educador se faz então fundamental para que esta transformação se efetive, desde seu envolvimento com movimentos sociais até sua atuação como delator das mazelas sociais e da exploração dos senhores do mundo sobre o resto da humanidade. Assim, o cientista deve trabalhar para gerar a autonomia social dos sujeitos envolvidos ou não na pesquisa, tornando-os independentes dele. O pesquisador/educador, a partir da prática pedagógica, deve orientar para que os sujeitos pesquisados tornem-se também sujeitos pesquisadores, ou seja, é fundamental que, por exemplo, dentro de uma comunidade pesquisada, seus habitantes tenham ciência dos resultados da pesquisa, discutam entre si e com o pesquisador, questionem e comecem a pesquisar, eles mesmos, as relações existentes dentro e fora desta mesma comunidade. E isso é muito perigoso para o poder conservador que domina nossa sociedade.

Neste sentido Pedro, que não sabe muito bem o que é ciência, não precisa se tornar doutor em nada para pesquisar e compreender os processos de desapropriação dos morros cariocas para a construção de grandes empreendimentos da Copa do Mundo e as Olimpíadas. A partir do momento em que este adquire autonomia intelectual e passa a interpretar e refletir sobre os elementos da realidade, ele já é um pesquisador/educador, já que estabelece um conjunto de atividades orientadas para a busca de um determinado conhecimento. Visto sob esta ótica, todo ser humano, independente de etnia, classe social ou região do mundo é um pesquisador e um cientista em potencial, que só necessita da aquisição das ferramentas e elementos cognitivos básicos para que se estabeleça enquanto tal no processo de produção do conhecimento. Assim sendo, a popularização do fazer científico é fundamental se quisermos efetivar qualquer transformação social. Enquanto fazer ciência for um dom exclusivo dado à meia dúzia de deuses iluminados, o estado atual das coisas que se repetem como se fossem as mais belas novidades permanecerá. A ciência só servirá ao povo quando deixar de sê-lo.

 

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Kauê Avanzi é mestrando em Geografia pela USP, educador no Ensino Básico, poeta e músico. Gosta de escrever, se divertir e confraternizar.

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