Estava andando na rua passeando com minha cachorra, uma linda Shit zuh malhada chamada Lana, até então normal. Como todo cachorro que eu tive, ela não é diferente, ou seja, mimada pra cacete. Mas ela tem um diferencial. Ela é muito dada, vai com todo mundo, não aguenta ouvir a palavra correios ser gritada no portão, sim, ela gosta de carteiros, vai entender.

 O caso é que estava passeando com ela, e me deparei com uma cena um tanto incomum. Um moleque, desses que a vida foi mais filha da puta com ele do que com a gente, uma criança de rua (odeio esse termo), estava no caminho, parado em frente a padaria com um semblante triste. E a minha Lana, mais sensível que eu, e atrevo-me a dizer que nós, foi fazer festa com o moleque. O rosto dessa criança se transformou, foi tomado por um sorriso profundo como se o mundo finalmente tivesse percebido que ele existia… Hey man, i’m live… Já dizia Bon Jovi… Apesar de perceber a mudança de humor da criança, estava com pressa, sempre estamos cuidando dos nossos negócios, deixei ela brincar um pouco, sorri para o garoto e segui meu caminho com a cachorrinha toda dada.

 Talvez alguns ou todos estejam pensando, e aí Kaká, o que mudou na vida do moleque sua cachorrinha ter brincado com ele? E a resposta é: na vida dele, exatamente nada, na minha um turbilhão de coisas. Quando voltei pra casa, fiquei pensando sobre o moleque, sobre todos esses moleques, e na nossa hipocrisia tão escancarada, se a Lana não tivesse brincado com ele eu não teria percebido esse guri lá. O que aconteceu com 90% dos transeuntes daquele local, ninguém notou.

Deitado em minha cama, percebi que estamos tão apressados com nossos compromissos que não vemos os “invisíveis”, que não vemos as crianças, que muitas vezes são exploradas por seus responsáveis, tratadas como o lixo da sociedade.  Percebi também porque é tão fácil ver um mendigo acompanhado de um cão.

 Os cães não se importam se você está no topo da sociedade, eles se importam se você pode dar um pouco de atenção a eles. Então eu percebi que minha pequena e mimada cadelinha teve mais a ensinar sobre humanidade em dois minutos do que eu em vinte e oito anos.

 Eu peço aos que estão lendo esse texto que não sejam como eu. Que não passem mais apressados, com o rei na barriga e que aprendam com os cães que dão carinho a meninos sem lar, que não esperam nada além de um sorriso. Que comecem a fazer como a Lana, notem as crianças invisíveis, vocês podem descobrir que mesmo em cidades tão cinzas quanto as nossas existem sorrisos que colorem o dia.

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Biólogo com especialidade em toxicologia alucinógena por formação, toca contra-baixo por teimosia, escreve por necessidade, mas a sua real vocação é almoçar. Escreve no seu blog acamadepregos mas nem sempre.

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