Uma bela imagem, um som atraente. O canto da sereia nos ilude e atrai para caminhos obscuros, perversos. Mas não se trata de morte ou sofrimento individual. O canto, na medida em que ouvido e seguido, causa e justifica a morte de milhares de pessoas, comunidades tradicionais, favelas, do povo nas ruas. A sereia é o próprio demônio vestido de terno, gravata ou com um vestido sensual, com pernas e seios a mostra, que seduz e beija, na mesma medida em que nos envenena. Enquanto isso, definhamos aos poucos, cotidianamente torturados e revigorados logo em seguida para suportar mais um dia de intensa tortura.
A mídia burguesa funciona assim, como o canto da sereia. Mas ao contrário da lenda indígena da Iara, que afogava pescadores que ouviam sua bela voz, a mídia é real e concreta, politicamente intencionada, e com uma posição de classe definida, mesmo que vista-se, constantemente, com o véu da neutralidade.
Em um caso particular, podemos notar a perversidade da qual falamos há pouco. Recentemente, redes de TV têm sido inundadas com propagandas que positivam o latifúndio, a concentração de terras e o caráter ambientalmente sustentável destes. Em horário nobre, quando famílias inteiras se reúnem em torno da televisão para um dos últimos espaços de sociabilização que lhes resta, eis o momento do bote, do ataque final. Comerciais como os da linha “Sou Agro”, que transmite a ideia de que cada um tem uma fazenda em sua geladeira; ou quando Pelé e Ronaldo, grandes ídolos do futebol nacional, formam o “Time Agro”, mostrando que o Brasil é campeão nos “campos” do futebol e da agricultura; ou ainda, quando astros de novelas, filmes e comerciais param seu carro nos postos de combustíveis para convencê-lo de que o Etanol é o combustível “Completão”, por ser mais barato, econômico e preservar o meio ambiente, são cada vez mais constantes. Ao mesmo tempo, jornalistas e formadores de opinião – o nome já diz muito sobre suas funções – constantemente referem-se a indígenas e sem-terra como invasores de terras produtivas e desenvolvidas que melhoram a vida de toda a nação, justificando uma série de massacres e expulsões que ocorrem no campo brasileiro.
Tais propagandas, comerciais e discursos tentam ocultar ou desviar a atenção de contradições evidentes de uma sociedade de classe que, cada vez mais elimina os trabalhadores mais pobres que, devido ao desenvolvimento das forças produtivas, se tornam desnecessários para o desenvolvimento do capitalismo. Mas como isso acontece? Como essa ideologia se impõe sobre tantas pessoas quase sem nenhuma resistência?
A mídia, (redes de TV e rádio, jornais, revistas, etc.) no geral é financiada, evidentemente, pelas classes dominantes. A TV, cuja programação chega à sua casa sem qualquer custo, é financiada pelos anunciantes de produtos diversos para os quais você é um consumidor potencial. Esses anunciantes, grandes empresários, odiariam que, por exemplo, o telejornal da rede de TV que eles pagam para funcionar anunciasse que seus produtos são frutos de trabalho escravo, ou que uma comunidade indígena foi exterminada para que em seu lugar fosse possível plantar os produtos agrícolas ali publicizados. Aqui, como em qualquer lugar, o conhecido ditado popular se faz verdadeiro: “quem paga a banda, escolhe a música”.
Neste sentido, a classe que possui os meios materiais, sociais e coercitivos para a produção e difusão de ideias, concepções, visões de mundo, tem também o poder de difusão desta não só pelos canais midiáticos, mas também por meio das escolas, universidades, pesquisas científicas, discursos de agentes do Estado, etc. A esta produção de uma consciência coletivamente elaborada e assimilada, chamamos ideologia. Esta ideologia, ao contrário do que se pode suspeitar, não é algo totalmente abstrato, ou seja, que permanece no plano das ideias sem dele sair. Ela é real e concreta, e submete milhares de pessoas a um estado de entorpecimento confortável diante de sua própria situação, onde um individualismo exacerbado extermina qualquer solidariedade com o seu semelhante.
Não se trata de mentir, mas de reconectar fragmentos da realidade perceptível de maneira que estes apareçam de maneira assimilável e lógica, além de dotados de uma neutralidade supostamente inquestionável.
Tal estratégia se torna demasiado eficiente para uma classe trabalhadora que não tem acesso facilitado a outros veículos de informação e debate, onde outras perspectivas podem ser postas em confronto. Tendo-se isto em vista, ativistas e movimentos sociais têm buscado produzir seus próprios materiais, para difundi-los entre a população para que esta tenha acesso e, de alguma maneira, produza seus próprios materiais de difusão de informações.
Um ponto marcante na elaboração de ferramentas de mídia alternativa que se propagou a nível global se desenrola a partir da conferência da OMC (Organização Mundial do Comércio) na cidade de Seatle, nos Estados Unidos. Organizações de todo o planeta se reuniram nesta cidade para protestar e propor alternativas de diversas matizes às políticas neoliberais desenvolvidas por grandes corporações do mundo todo em nome de uma “globalização” excludente e que visa o lucro de grandes cartéis internacionais no lugar da soberania de comunidades locais e tradicionais, em especial, nos países ditos “subdesenvolvidos”.
O resultado – previsto – foi uma forte onda repressiva sobre os ativistas, com bombas de gás lacrimogêneo, cassetetes, prisões arbitrárias e uma porção de outras graves violações aos direitos daqueles que só queriam ter voz na política institucional. Alguns dos diversos grupos presentes iniciam um movimento articulado globalmente de mídia independente: o Indymedia, que por meio de uma rede global de ativistas que se articulam e trocam conhecimentos e informações, produzem uma mídia contra-hegemônica, que possa confrontar-se aos desmandes do capital sobre populações inteiras.
Logo, com a apropriação de ferramentas tecnológicas pela população, a criação de mídias independentes que possibilita denunciar fatos e desmantelar o discurso dominante, parece-nos essencial desenvolver materiais que possam, de alguma maneira, dialogar com a população sobre sua própria condição através de materiais que não estão cotidianamente nos telejornais. Trata-se de desfazer os mitos criados pelas grandes corporações que nos fazem crer que tudo o que existe é natural e imutável, sem possibilidade alguma de transformação, restando-nos apenas nos conformar com o que está posto, sem reclamar, é claro!
Logo, neste primeiro ano da experiência do Paragrafo 2, acho pertinente lembrar que as experiências de mídia alternativa e livre – como nós próprios nos propomos a ser – são uma ferramenta potentíssima na contraposição do discurso hegemônico, no empoderamento de parcelas oprimidas da população e no fortalecimento e aprofundamento da democracia, pressionando nos sentidos de mecanismos de democracia direta. A concentração da difusão de ideias pelos mesmos canais hegemônicos deve ter seu fim decretado por uma apropriação da voz pelos setores historicamente oprimidos de nossa sociedade. Pelo fim do latifúndio da informação, comemoramos

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Kauê Avanzi é mestrando em Geografia pela USP, educador no Ensino Básico, poeta e músico. Gosta de escrever, se divertir e confraternizar.

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