Uma garota, uma menina de 16 anos foi estuprada por 33 homens. Isso por si só já seria aterrador, mas o que mais mexeu comigo foi o fato dela ter ido dormir na casa do namorado e acordar sendo violada por outras 32 pessoas além dele.
Isso me tira o sono e quando durmo me dá pesadelos! Me deixa paranoica e em pânico, me deixa em estado de alerta constante até quando durmo e isso é simplesmente enlouquecedor! ISSO NÃO É VIDA!
Excluem-nos do espaço público e nos confinam no espaço privado sob a ilusão de uma falsa segurança. Sair de casa exige coragem, exige valentia para enfrentar um mundo de invasões diárias, para enfrentar olhares que atravessam nossas roupas, palavras que nos invadem o espírito e desrespeitam nossa sexualidade e nossas escolhas, desrespeitam nosso direito de ir e vir. Fazem piadas sobre nossas aspirações, impõem sobre os nossos sonhos regras sociais, enfiam na nossa goela o casamento e a maternidade, fecham nossas pernas quando sentamos e quando fechamos nos violam e abrem-nas à força.
E aí? E aí a culpa é nossa! Foi a abertura do nosso decote, foi o tamanho da nossa saia, foi o jeito como dançávamos, foi escolher aquela rua para voltar para casa, foi estar sozinha naquele bar, foi aquela quantidade de álcool no sangue, quem mandou?
Todo dia, TODO DIA sofrendo pequenas violações. Quando não no nosso corpo com a mão boba do chefe ou pela esfragadela no ônibus, violam nosso espírito. Nos tiram a autoridade, nos jogam à margem das promoções da empresa e quando somos promovidas somos mal vistas e sugerem que transamos com o chefe. E então nos vemos exaustas!
No fim do dia voltamos para casa, o único espaço de segurança que nos resta, choramos, abraçamos nossas mães, tomamos remédios. Aí no seu espaço de segurança o seu tio te abraça demorado demais, seu vô te olha estranho, comentam sobre nossas curvas quando entramos na adolescência, nossas “azeitoninhas”, nossas cinturas afinando, nossas ancas se delineando. “Vai dar trabalho, essa…” diz o amigo do pai que te avalia como se fosse você uma cabra. Seu ex expõe suas fotos, os amigos dele o defendem, seu pai te bate por se expor e se comportar como uma vagabunda, te jogam ovos na escola, te odeiam por expor A ALGUÉM QUE VOCÊ CONFIAVA a sua sexualidade.
Cansada, exausta, você vai para casa do seu namorado, o abraça e dorme. Acorda ao som de risos de 33 homens, inclusive daquele por quem você é apaixonada. Aquele que deveria zelar por ti se vinga, porque você cometeu erros, porque feriu o ego viril dele. E ele, como foi ensinado que o mundo gira em torno do seu falo, é através dele (e do falo dos outros) que vai impor sobre ti a dominância, vai te deixar claro o que você é e a quem você pertence. O homem em quem você confiou…
Não há espaço de segurança, não há nenhum lugar do mundo em que estejamos de fato protegidas. Quando se nasce mulher, se nasce sozinha. Não é difícil entender porque nos chamam de histéricas, porque nos chamam de loucas, não é difícil perder o controle e enlouquecer vivendo assim todos os dias…
Não é pelo que vestimos, é pelo que somos. Mulheres.
Precisamos falar sobre relações de confiança…

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Andy Jankowski é mestranda em Multimeios pelo Instituto de Artes da UNICAMP, formada de Cinema e Vídeo na UNESPAR/FAP, cursou filosofia na UFPR. Dedica seus estudos à Teoria, História e Linguagem do Cinema, sobretudo na representação da mulher. É membro da Associação Paranaense de Imprensa, foi Diretora Cultural e co-fundadora da Organização Universo Racionalista e atriz profissional.

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