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“Fogo na Bomba, Paz na Quebrada” o mote da Marcha da Maconha em 2016

Coluna Pão e Pedras: Amenidades e Poesia

Caminhar pelas ruas no entorno da Avenida Paulista, em São Paulo, neste último 14 de Maio pode ter causado surpresas a muitos desavisados. Uma multidão de jovens, adultos, idosos se deslocava, tomando as ruas e o espaço público seguido por uma neblina tênue. Não fazia frio na cidade neste dia: consumia-se maconha, coletivamente.

 Há muito tempo as drogas são consumidas pelas sociedades humanas. Substâncias que alteram os sentidos e a percepção são cotidianas na história e amplamente consumidas, ainda hoje, pelas famílias – tradicionais – no Brasil e no mundo. Quando se pensa no uso de drogas, em um discurso que é explicitamente propagandeado pelos meios de comunicação em horário nobre, pensamos em pessoas largados nas ruas, que perderam os laços e vínculos familiares e que cometem crimes, os mais bizarros, para sustentar seu vício. Maconha, Crack, Cocaína, entre outras são frequentemente levantadas como substâncias que desestabilizam a vida dos que as consomem. Mas será que é esta a melhor abordagem para tratar a questão das drogas e de seu consumo? Será que não podemos tratar este problema de uma forma mais profunda e madura?

 Hoje, no Brasil, o tráfico de drogas é, de longe, o crime que mais encarcera pessoas. Desde 2006, com o endurecimento da lei sobre o tráfico de Drogas no Brasil previsto pela lei 11.343, o número de prisões por tráfico de drogas subiu 339%. O Estado de São Paulo lidera o ranking, com 54 891 pessoas presas por este crime. Em sua maioria jovens, negros e provenientes de bairros periféricos das grandes cidades, os presos por tráfico de drogas alimentam um mecanismo perverso de encarceramento da pobreza, que parece ser, pra nossas elites conservadoras, o melhor modo de lidar com o problema das desigualdades históricas de nosso país. O primeiro agravante é que a grande maior parte das prisões por tráfico de drogas têm, como única e exclusiva prova, a palavra do policial que efetuou a prisão. A palavra do policial tem fé pública, do jovem negro e periférico é, constantemente calada.

A Fanfarra do M.A.L. (Movimento Autônomo Libertário)

A Fanfarra do M.A.L. (Movimento Autônomo Libertário)

A experiência do Uruguai, neste sentido, tem muito a nos ensinar. Desde a liberação do uso de maconha, cerca de 3 000 pessoas passaram a cultivar a sua própria maconha, deixando de alimentar o tráfico ilegal de drogas. Com isso, as prisões por tráfico reduziram-se a números mínimos e a violência nos bairros pobres referentes à venda e consumo de drogas praticamente zerou. A grande questão do uso de drogas não necessariamente está ligada ao uso e aos efeitos das substâncias, mas à situação social de vulnerabilidade que muitas pessoas se encontram no capitalismo. Grandes nomes, como o historiador Sérgio Buarque de Holanda, o humorista Gregório Duvivier e até o ator Arnold Schwarzenegger já fumaram um baseado. A questão é que eles têm dinheiro, assistência jurídica e psicológica para lidar com suas frustrações pessoais, ao contrário da maior parte da população brasileira que é estigmatizada e criminalizada pelo simples fato de serem pobres.

Banda tocando em cima de uma Kombi, acompanhada por uma batucada de mulheres.

Banda tocando em cima de uma Kombi, acompanhada por uma batucada de mulheres.

É neste sentido que a marcha da maconha procura questionar os atuais rumos das políticas proibicionistas no Brasil. Visivelmente, os que estavam presentes na marcha eram, em grande parte, negros, periféricos e que, no caso de algumas pessoas com quem conversei, estavam no primeiro ato político de sua vida. A pluralidade de concepções políticas era imensa, e no ato estavam presentes professores, advogados, pesquisadores, grupos de bairros, artistas, etc. Segundo um dos rapazes do ato, até um grupo do PSDB, ligado ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (que se posiciona a favor da legalização das drogas), estava presente.

 Naquela noite de Sábado uma outra São Paulo se fez possível. A politização da discussão ao redor do uso e consumo de drogas passa pelos âmbitos de saúde pública, segurança social, educação, distribuição de renda, favelização das cidades entre vários outros campos do conhecimento e da vida em sociedade. O que não dá pra entender é como ainda hoje se debata a questão como meramente um problema de polícia. Deve ser porque seja mesmo interessante para os governantes – inda mais em tempos de avanço do conservadorismo – alimentar o mercado de armas, a privatização dos presídios, a segurança privada, as milícias nas favelas e o extermínio da juventude negra e periférica. E nós, temos como nos opor a este quadro lamentável da política proibicionista no Brasil. O próprio mote da marcha já nos dá a pista: “FOGO NA BOMBA E PAZ NA QUEBRADA.”

Marcha da Maconha descendo a Rua Augusta

Marcha da Maconha descendo a Rua Augusta

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Kauê Avanzi é mestrando em Geografia pela USP, educador no Ensino Básico, poeta e músico. Gosta de escrever, se divertir e confraternizar.

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