Em frente a minha casa há um bar onde pessoas bebem e gritam, gritam e bebem. Os pastéis são murchos e vazios, o kibe com muito trigo e recheio de carne, outros lanches não tenho coragem de comer.  Com uns trocados a mais come-se um lanche, toma-se uma coca e consome-se drogas, deve ser este o motivo de se comer nesta lanchonete. Geralmente fico de pé no balcão, o banheiro pegajoso e úmido, com putaria nas paredes e sem acento na privada, imagino bundas sentadas nas cadeiras e no vaso, prefiro o balcão, encostam da cintura pra cima. Pago a conta, apresso em atravessar a rua, o lanche não caiu bem.

Perdi o horário da consulta, tive de limpar a casa antes de sair, comi o lanche correndo, o médico disse “você tem que controlar os excessos”, em meses de tratamento cheguei poucas vezes na hora, talvez deva mudar o dia, conheci uma pessoa ontem. Tenho 27 anos, moro sozinho, no centro, entre a Barão do Cerro Azul esquina com a 13 de maio, no nrº. 254, no 4° andar. A lanchonete tem fachada vermelha, você deve ter passado algumas vezes por ali a bebida é barata e a comida tragável, os atendentes chineses, tem uns caras perdidos na rua com garrafas e copos plásticos, uns caras encostados sentados e outros fazendo sinal na 13 de maio.

Quantas pessoas passam suas mãos na maçaneta de um prédio durante o dia? Não há obstáculos para a rua, elas comem, vão ao banheiro, cumprimentam e abrem portas, é um ciclo, aceno para o porteiro, a entrada se destrava. Carrego um frasco de álcool gel na mochila, mas acho que não adianta, sem lavar as mãos com sabão não esta tudo quase limpo.Não encosto na maçaneta da portaria.

O porteiro assiste a programas de namoro, fala sobre as prestações, do tempo e os resultados dos jogos de futebol, o nome dele é Jair. Já casou duas vezes. Hoje frequenta a terapia do amor, das 10h ás 15h, deseja “aprender a desenvolver o bom relacionamento, ser um excelente companheiro e alcançar a plenitude”. Tenho quase certeza que ele acredita no que diz, às vezes, até convence. Elogiou a moça que esteve comigo ontem. “Acho que dessa vez vai, encontrou a pessoa certa, que moça bonita! Um bom casamento começa com uma mulher dedicada ao marido, esta vai dar certo”.  Ele trabalha no período noturno até parte da manhã, nos viu chegando do Mafalda, ela saiu logo cedo.

Esfrego a maçaneta com álcool antes de entrar em casa, no banheiro limpo as torneiras, o botão da descarga o acento, os azulejos, ela pode ter encostado também, há alguns fios de cabelos na cama, pelas roupas, passo o aspirador, troco os lençóis, coloco na máquina com Vanish, sabão em pó, amaciante, água quente. Duas gotas de desinfetante pinho Coala, dois copos e meio de Quiboa, um pouco de água no balde, uso pares de luva de PVC amarelas, mascara, avental, apenas de cueca para não manchar, depois de limpo, vou para o banho. As luvas impedem a sujeira de entrar debaixo das unhas.

As mãos ressecadas apresentam desgaste porque se machucaram um pouco pela fricção contra a parede. Sabonete Phebo pelo baixo Ph e por ser de glicerina, sabonete deve limpar, há fios logos e escuros presos no ralo, enxuto, abro o Box e retiro os fios, acho melhor limpar o ralo com Quiboa, termino. Outro banho. Não vou ligar para ela hoje.

Uma pessoa estranha entra na sua casa, deixa pedaços de pele, cabelos, usa seu banheiro, marcas de batom na xícara, impregna o cheiro nos lençóis, sai pela manhã. Tenho que controlar os excessos. Os motéis do Largo, as banheiras colônias de bactérias, os chuveiros queimados, poucos tem chinelos, quantas pessoas devem passar por noite, transando sobre a mesma cama? Os lençóis são lavados, mas e as camas? Não, realmente, não devem estar limpos. Tive que trazê-la pra cá.

Esfrego a maçaneta com álcool antes de entrar em casa, no banheiro limpo as torneiras, o botão da descarga o acento, os azulejos, ela pode ter encostado também, há alguns fios de cabelos na cama, pelas roupas, passo o aspirador, troco os lençóis, coloco na máquina com Vanish, sabão em pó, amaciante, água quente

Após o sexo tomei um banho, senti a sensação estranha de formigamento no corpo, ela tentou me abraçar, repeli com um beijo inclinado. O gosto da bebida exala pelos poros, no suor, na saliva, estava um tempo frio e cinza, ponha pelo menos a camisa, podia ter saído já, o seu cheiro vai ficar nos lençóis, tenho que por na máquina pela manhã. Ligar para manutenção a máquina anda rasgando e desgastando, trocar a roupa de cama, passar talco para tirar o suor, bicarbonato também ajuda. Ás vezes passo no tanque as roupas com luvas verdes, esfrego na tábua, ponho na máquina. A casa não esta limpa, espirro Bom Ar pelos cômodos, passo o pano no chão.

As bactérias ficam suspensas no ar, mas abrir a janela seria pior, viveria no vácuo, mas os Tardígrados sobrevivem no vácuo, a altas e baixas temperaturas, ainda ficariam vivos, mas não são bactérias, enfim. As pessoas são irresponsáveis há germes por aí, nos banheiros, nas portas, convivem na sujeira, estão no banheiro…. Urrrrgh! O lanche não cai bem. Vomito, aplico força demais na gengiva que sangra, os dentes estão sensíveis e boca machucada, mas limpos. Sinto dores na barriga frequentes, deve ser o lanche.

É um processo delicado começo por onde a visita passou por último, à entrada, os banheiros, a cozinha, o quarto. Na sala, ficam apenas alguns pertences coloco na mesma poltrona de sempre, não a uso para nada, esta coberta por uma capa de plástico, passo um pano com álcool. Minha mãe dizia “a água limpa tudo”, uso álcool também, pois tudo não é bem limpo, mesmo depois de lavar.

Os olhos rasgados, cabelos pretos, fuma, não fumou nenhum, estranha não se preocupa muito, tudo vai bem, esperei durante a consulta uma mensagem, parecia que o celular vibrava a cada segundo no bolso, mas não era nada, uma sensação de tremor na perna, desconforto na barriga, o médico receitou um medicamento para ansiedade, foram dois para dormir, um para manter a concentração, na última consulta.

Troco alguns benzodiazepínicos no bar por bebida, Coca-Cola, ou lanche, são ansiolíticos que tem efeito de moderador leve de humor, com álcool da certa calmaria e ajuda a dormir. Uma balança, termogênicos a base de cafeína 420mg, Coca-cola, doses de Vodka ou qualquer outro destilado, para animar, ansiolíticos, cigarros, chás, para acalmar. Tudo legal e compra-se em qualquer farmácia ou loja de suplementos. Doses pequenas e quase desnecessárias, paliativos, apenas para manter os excessos.

Durmo por volta da 01h00 da manhã, as pálpebras dos olhos ficam trêmulas, sem sono, passo os canais, desligo a TV, pego um livro, vou ao banheiro, as fezes saem esbranquiçadas, as dores. Passo a vassoura na casa incrível o acúmulo de poeira. Gritos do bar em frente, a esta altura a bebida subiu pra cabeça, ela não me ligou, é como não estar limpo o suficiente, há fios de cabelos perdidos, o cheiro já saiu, devo friccionar mais as roupas, trocar os produtos, com o tempo às bactérias se acostumam com formula, à eficiência da limpeza reduz.

Ela disse estar fazendo trabalhos, escrevendo, submetendo artigos para avaliação, mas será que não pode me ligar? Não devia ter deixado dormir aqui, quanto mais tempo fica mais coisas ficam, chinelos, brincos, calcinhas, dessa vez não ficou nada, não vai voltar, fiz uma caixinha de visitas onde ficam guardados os pertences, é como achados e perdidos, prefiro que não voltem, limpar tudo de novo e sempre fica algo para trás, às vezes pertences, outro pertencimento.

Depois de algumas semanas de relacionamento é como a gordura escura que fica entre os ladrilhos do Box, para limpar usa-se detergente líquido, aquele mesmo de lavar louça, água quente e Quiboa, deixa agir por um tempo quase sai tudo, ainda é preciso esfregar com a escova. Da última vez usei a Vap a pressão arrancou o que ficou impregnado, estava encardido. O corpo solta gordura fica os vidros do Box, nas paredes, com aspecto viscoso de banha quando esfria, da pra sentir a gordura se passar um papel seco no rosto, parece  pastel escorrido da lanchonete da esquina.

Estima-se que a mulher perca mil fios de cabelos por dia, fora as marcas de batom, o perfume que prende no ambiente, pedaços de unha e a sensação desconfortante de ausência na noite seguinte, vira-se como uma centrifuga cheia nos cobertores. Parece que a casa não é mais sua, uma pessoa que vai e volta, sem a preocupação de voltar, desligo o celular, deixo sem créditos, acendo luz a procura de mensagens, mas ela não dorme tão tarde. Não vai ligar.

O telefone dela esta anotado num pedaço de papel amassado na escrivaninha, bebi a demais com a soma dos ansiolíticos, pouco tonto, escrevi errado ou não, vai responder, não vai. Situações de estresse causam esquecimento e confusões, não tomar alguns medicamentos faz isto.

Os olhos rasgados, cabelos pretos, fuma, não fumou nenhum, estranha não se preocupa muito, tudo vai bem, esperei durante a consulta uma mensagem, parecia que o celular vibrava a cada segundo no bolso, mas não era nada, uma sensação de tremor na perna, desconforto na barriga, o médico receitou um medicamento para ansiedade, foram dois para dormir, um para manter a concentração, na última consulta.

Edito vídeos durante o período da noite, o Jair encaminha e recebe as entregas ganha R$ 5,00 reias por encomenda, deixo os produtos na portaria, o pagamento é feito por cartão, evito filas de banco, ônibus, pessoas. O porteiro usa o Très Marchand sinto de longe o cheiro de bordel com classe, dá pra beber, fazer labareda e perfumar, as camisas fechadas no colarinho, calça social, óculos de armação escura, 10x vezes na Ótica Diniz, legítimo segunda mão da Armani, está procurando o amor a uma quadra da Riachuelo e do Graxaim, desperdício de tempo. Uma boa pessoa.

Não consigo dormir mesmo com os remédios, posso ouvir os gorjear dos pássaros, o cheiro parece impregnado pela casa, troquei comprimidos por cerveja no bar que já está fechado, deixei o celular na cozinha longe do quarto, andei descalço para ver as horas, olhar a rua, verificar se as janelas e portas estão trancadas, o chão não esta limpo? É não esta. Vou esfregar. Os dedos inchados impõem força, gotas de suor, vão escorrendo pelos braços, a mão tremulas, a cabeça zonza, algumas dores na barriga por algum motivo não as sinto, o piso fica com aspecto de riscado. Exauri o corpo limpando, batendo a poeira, parece que isto não sai, as dores persistem, deve ser o pastel. Desmaio.

Acordo pela manhã no hospital. Desenvolvi uma bactéria na barriga e perdi a proteção natural, excesso de limpeza. O quarto movia-se para os lados, o médico disse que logo iria para casa e foi sorte o Jair me encontrar pelo chão, o quadro de desidratação e cansaço poderia agravar a situação. A porta não estava fechada, verifiquei três vezes. Contei a história da menina, da limpeza, o que fazia, os medicamentos, no final o médico disse: “tem coisas que não se limpam, é uma coisa interna, lembre-se de tomar seus remédios”. Em casa, tomei os comprimidos, senti um estupor de felicidade e, logo, depois engoli, escorrendo pelos lábios, uma garrafa de álcool, até perder a consciência. Pois, geralmente, não estamos quase limpos ou quase felizes. Haviam três ligações perdidas no celular.

 

 

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Mario Luiz Costa Junior

Iniciante, recém chegado do jornalismo moleque. Estilo namoradinho da verdade. Charmoso e dengoso nas letras. Deambulante da desinversão da pirâmide invertida. Ativo e passivo no lead e sub-lead. Não dispensa ‘A história da minha vida’ com Renato Gaúcho.

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