‘’Ocupar e resistir!’’

‘’Ocupar e resistir!’’

‘’Ocupar e resistir!’’

É o que se escuta, desde o dia 13 de Maio, na rua José de Alencar.

As hastes dos portões de ferro não possuem lanças. Mas são uteis para a luta. Servem para furar pequenos rasgos em tecidos frageis. Ali estão presas faixas com frases como ‘’Temer golpista!’’‘’o MinC é nosso’’ e ‘’Luto pela cultura!’’.

Palavras escritas, com spray, pelos próprios manifestantes.

Em um varal improvisado (com uma ponta amarrada em um dos portões e a outra ponta no que sobrou de uma placa de transito) estão penduradas cartolinas que, entre outras coisas, estampam os avisos ‘’Cuidado!Mulher lutando’’ e ‘’Defendemos politicas para cultura’’ .

Em uma lata de lixo da prefeitura, estão colados os famosos lambe lambe com a imagem do presidente em exercício Michel Temer. Embaixo da ilustração pode-se ler a hashtag ‘’#Temernão’’.

Olhares mais atentos podem perceber que variações desse poster estão espalhadas por todo aquele pedaço de rua.

Por toda a rua cartazes fazem alusão à ocupação

Por toda a rua cartazes fazem alusão à ocupação

Os cartazes, as faixas e um estandarte com a o aforismo ‘’A arte existe porque a vida não basta.’’ Do poeta maranhense Ferreira Gullar, são os cartões de visita da Casa Domingos Nascimento durante essa semana.Se encontram no local, do lado de dentro, no amplo quintal, entre três contêineres brancos,  sobre a pedra brita e sobre o gramado judiado pelo confuso clima Curitibano, lonas, tendas e 12 barracas onde dormem já a seis dias alguns dos artistas, professores, estudantes, produtores culturais e fazedores de cultura do país.

Carros passam em frente da ocupação o tempo todo. Alguns buzinam, a maioria parece ser em apoio. Mas um ou outro provoca com berros de ‘’vagabundos!’’.

Em frente aos lambrequins e aos pés da escadinha de madeira da velha casa em estilo polonês que abriga o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, conversam Guilherme Daldin do audiovisual e a atriz Claudete Pereira Jorge. Com voz baixa e em tom de tristeza, Claudete  fala sobre o rancor e o ódio que tomaram conta do país, do que espera do pós-Dilma e da situação que a trouxe até ali.

No dia 12 de maio de 2016 o até então presidente interino Michel Temer declarava, por meio de uma edição extra no Diário Oficial da União, a extinção do Ministério da Cultura. Sem consulta ao senado, sem consulta aos artistas, sem consulta a sociedade civil.  ‘’Convocamos uma reunião no dia em que acabou a votação do Impeachment no senado. No outro dia a reunião aconteceu com a presença de várias pessoas da cultura. Apresentamos a idéia de ocupar o Iphan, que não foi muito bem recebida. Muitas pessoas acharam que seria uma coisa muito radical, outras que não iria dar em nada. Nessa reunião tinha quase 40 pessoas. Mas ao fim da reunião, mesmo saindo ‘’derrotados’’, viemos de madrugada para o Iphan, colocamos umas faixas, fizemos uma ação e ocupamos de manhã cedo’’, relata Daldin, um dos 7 primeiros membros da ocupação que pede o retorno do Ministério da cultura como pasta independente.

Guilherme era filmado enquanto conversava com Claudete. Aquele era um papo valioso. Claudete Pereira Jorge é uma importante atriz da cena paranaense e que se solidarizou com a atitude dos manifestantes, seu depoimento poderia ser útil para ser postado na pagina MinCresiste no Facebook, que começou a ser alimentada em 2015 por Thiago Moreira, ainda no governo Dilma  Rousseff, quando cogitou-se a hipótese de fusão do Ministério da cultura com o ministério da educação, o que se concretizou no governo Temer, ocasionando a extinção da pasta.

A ocupação não tem data para terminar

Dezenas de barracas mostram que a ocupação não tem data para acabar

A pagina MinCresiste é administrada pelo pessoal designado propriamente para isso, que é o mesmo responsável a orientar a imprensa. Eles estão próximos a entrada, sentam-se em volta de uma mesa branca e raramente saem daquele lugar. Por ali passa de mão em mão uma garrafa térmica com café, a diversão parece ser falar das noticias geradas pelas ações do atual governo ‘’Temer está em forte concorrência com o sansacionalista. A gente nunca sabe o que é piada e o que é real’’, diz um dos rapazes.  Às 16 horas houve uma oficina de luta para mulheres, onde sobre uma lona colocada no chão, com alguns tecidos de nylon, poliéster e sacos de dormir, as mulheres presentes aprenderam alguns fundamentos de defesa pessoal. Ao final dos exercícios elas quebraram pedaços de madeira no qual escreveram coisas que detestavam, entre elas ‘’preconceito’’ e ‘’conservadorismo’’.

A atriz Claudete Jorge é uma das lideranças do movimento/ Apresentações artísticas acontecem com frequência no Iphan durante a ocupação

A atriz Claudete Jorge / Apresentações artísticas acontecem com frequência no Iphan durante a ocupação

 Após instalarem um microfone embaixo de uma das lonas foi lido, em uníssono, por duas mulheres, Rafa (que durante dia foi uma espécie de ‘’mestre de cerimonias’’ se valendo do microfone para falar por várias vezes) e Fabi (que ministrou a oficina de luta) o seguinte manifesto:

‘’Ocupamos o prédio do Iphan – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, localizado na Rua José de Alencar nº. 1808, em Curitiba, único órgão de representação do Ministério da Cultura, em nossa cidade. Não reconhecemos a extinção do Ministério da Cultura – área que é central e estratégica para o desenvolvimento da sociedade brasileira – porque não reconhecemos o governo ilegítimo de Michel Temer.

A extinção do Ministério da Cultura é uma perda, um retrocesso, no acúmulo de 30 anos de desenvolvimento de políticas públicas nesta área. A envergadura de importância do campo da cultura para o país necessita de uma coordenação própria que dê conta das suas especificidades e desenvolvimento. Defendemos um entendimento sistematizado, estruturado e técnico das políticas públicas culturais.

A intersetorialidade, ou seja, a interação das políticas públicas de cultura e de educação é definitivamente almejada. Entretanto deve ser realizada em critério de igualdade institucional, garantindo, respeitando e zelando pelas particularidades e importância de cada uma das áreas sob o status e importância de ministério.

O argumento do ajuste financeiro não se sustenta, pois o Ministério da Cultura sempre teve um dos menores orçamentos do Governo Federal. Em verdade, é o arrolamento dos juros sobre a dívida pública o principal responsável por sangrar o orçamento público. Defendemos a auditoria cidadã da dívida pública como um real ajuste das contas do Estado. O Governo ilegítimo de Michel Temer se submete a atender os interesses irresponsáveis do mercado financeiro e do grande empresariado não comprometidos com o país e penaliza o povo, os agentes culturais, o desenvolvimento econômico e estratégico da cultura do Brasil.

Lutamos pela total implementação do Sistema Nacional de Cultura, execução do Plano Nacional de Cultura, destinação de royalties da exploração do pré-sal e de 2% do orçamento federal ao Fundo Nacional da Cultura.

Submeter as políticas públicas de cultura ao Ministério da Educação, como quer o governo ilegítimo, é um ataque direto ao já parco orçamento reservado à cultura. Relega todas suas demandas a uma mendicância junto ao, também insuficiente, orçamento da educação. Se dois cobertores já eram curtos, dividir apenas um será o decreto da hipotermia tanto da cultura quanto da educação.

O plano de governo golpista “Ponte para o futuro” já anunciou a vergonhosa desvinculação da receita do orçamento destinado à educação. Essa medida significa menos recursos para o Ministério. O governo golpista não só quer que a cultura mendigue recursos junto à educação, como vai encolher o montante total destinado aos dois campos de políticas públicas.

Não bastando, o já anunciado, espúrio, Ministro de Educação e Cultura, Mendonça Filho (DEM, ex-ARENA, ex-PDS, ex-PFL), citado na investigação policial denominada “Castelo de Areia”, é acusado de receber contribuições da empreiteira Camargo Corrêa (condenada na operação Lava-Jato), assim como, seu nome aparece na lista da Odebrecht de propinas para campanhas políticas deflagrada nas recentes investigações da Lava-Jato. Somado a isto, Mendonça Filho foi líder da associação avícola de Pernambuco, ligado ao agronegócio e ao coronelato local. Mendonça Filho voa longe, não dispõe de qualificação, expertise e histórico de atuação nem no campo da educação nem no da Cultura. Tais informações públicas e notórias apenas atestam a ausência de qualquer legitimidade para que coordene e gerencie campos tão importantes e estratégicos para o desenvolvimento social, econômico e cultural do país.

O plano de governo “Ponte para o Futuro” insere os ataques que faz às políticas públicas da cultura nas demais ações de sua agenda entreguista e antipatriótica promovendo a flexibilização das leis trabalhistas, o aumento da terceirização, aumento da idade para aposentadoria, liberalização do comércio favorecendo as grandes empresas e um forte plano de privatização e desnacionalização da economia.

Por fim, nos preocupa a forma como a grande mídia tem narrado e abordado a crise política com seu discurso de deslegitimação do campo politico progressista através de eufemismo que buscam justificar a retirada de direitos sociais, além dos ataques aos movimentos sociais, estudantes e sindicatos.

O Ministério da Cultura é uma conquista da sociedade brasileira e não pode ser descartado ao desejos de gestores, aliadas políticos através de uma governança torpe e mafiosa.

Governo que não é eleito pelo voto direto é ilegítimo!

Contra o golpe!

Contra a extinção do Ministério da Cultura!

Em defesa das políticas públicas de cultura!’’

FotorCreated

Rafa e Fabi: Manifesto contra o fim do MinC

 ‘’Isso aqui não é uma ocupação artística. É uma ocupação de fazedores de cultura que querem dialogar com a sociedade como um todo. Nós já estamos em diálogo com o movimento dos trabalhadores sem teto, do povo sem medo e das lideranças indígenas. A cultura surpreendeu o governo Temer como um dos maiores focos de resistência’’, diz Guilherme Daldin.

Após leitura do manifesto, um dos rapazes responsáveis pela comunicação da ocupação foi até o microfone e leu uma carta de repudio a um texto publicado no dia 16/05/2016, assinado pela jornalista Ângela Corrêa, para o Caderno G do Jornal Gazeta do Povo. Na carta criticava-se o fato de que o texto de Ângela Corrêa reduziu o movimento a apenas uma petição no site Avaaz. Ao final da fala a ocupação convidava o jornal a publicar a carta na integra.

A ocupação é democrática.Constituída, em sua maioria, por pessoas jovens, mas também com pessoas das mais variadas idades, cores, sexos e áreas de atuação. Os funcionários do Iphan continuam indo trabalhar normalmente, pode-se ver pela janela da casa que também segue intocada.

Anoiteceu, e enquanto as caixas de som ecoavam a discotecagem de música étnica de Tiago Oliva, a maioria das pessoas, no estacionamento ou no quintal do Iphan, conversavam sobre a atual situação politica. Apreensivos e preocupados.Entretanto o clima foi quebrado com a apresentação de Claudete Pereira Jorge que disse um trecho do canto 1  do épico Iliada, do grego Homero que versa sobre 50 dias do ultimo ano da guerra de Troia. A parte lida referia-se o momento em que o ancião Nestor  tenta botar panos quentes e fazer os gregos pararem de brigar entre si e foquem no problema, que  eram os troianos, descacostumada aos microfones, em determinado momento ela desistiu do auxilio e declamou a capela causando grande impacto nos presentes pela força da apresentação.

Ao final todos aplaudiram.

O Iphan em Curitiba foi a primeira sede cultural a ser ocupada como manifestação pelo fim do Ministério da Cultura. Atualmente sabe-se que pelo menos 16 sedes culturais estão ocupadas pelo país. As ocupações fizeram os movimentos culturais renascerem como movimentos de resistencia a quebra de direitos conquistados e desencaderam reações que ultrapassaram as barreiras da capital paranaense e do Brasil.  

Os artistas que ocupam o Iphan precisam de doações que podem ser entregues no próprio local: 

FotorCreated I

Página do movimento MinC Resiste no Facebook: https://www.facebook.com/MinCResiste/?fref=ts

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Rhangel é estudante de jornalismo. Apaixonado por Jornalismo Literário, vê neste estilo a oportunidade para fugir da escrita convencional onde “tudo” precisa estar no primeiro parágrafo.

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