De origem italiana, libanês-francesa, do interior de São Paulo, Cibele parece ter muito da sua Vó Ivete Deffune, uma pessoa perseverante, insistente e dedicada ao próximo. Após a sua aposentadoria, como professora, trabalhou no Hospital Pequeno Príncipe, Lar dos Idosos, instituições de caridade e fazia trabalhos para Deus. Dona Ivete queria ter muitos filhos, mas de classe trabalhadora, não conseguiu, preenchia este espaço com ações beneficentes à comunidade, preocupada com seu entorno.

“Minha Vó era daquelas professoras enérgicas tanto que os alunos expulsos de três, quatro escolas, na época 50, 60, iam parar na sala dela, depois de tempos uns caras barbudos encontravam agente na rua ‘Ahhh!! Dona Iveteee’, ainda tinham um carinho […] lembro com cinco anos, na Riachuelo, de ela me por numa cadeira ‘Cibele fica ai!’ nessas lojas de segunda mão, a vovó vai fazer um trabalho para Deus. Falava com todo mundo, evangélicos, católicos, arrecadando doações para o Lar dos leprosos, nem vem, nem vem Dona Ivete, mas o Senhor não é cristão? ela ia e conseguia, fogão, geladeira, sofá, cama, um monte de coisas”, relembra.

A professora de escola pública, enérgica, incutiu o sonho de morar na Europa no seu filho Geraldo que estudou francês, inglês, judô, futebol e formou-se Engenheiro Agrônomo. Em 1985, casado e com duas filhas, o pai de Cibele fazia investidas no programa Ciências sem Fronteiras/CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), e após várias tentativas, na quarta, conseguiu uma bolsa para a França. “Meu pai toca super bem, fez música nessas escolinhas, mas a música nele veio natural”, ressalta a cantora.

Neste período a família morava em Agudos do Sul, interior do Paraná, e vinha aos finais de semana, com muitas dificuldades, para Curitiba estudar na Aliança Francesa. “Meu pai falava francês, minha mãe falava francês, todo mundo falava francês e, de última hora, não tem vaga. Fomos para a Inglaterra, ”, diz.

“A única pessoa que falava inglês era meu pai, male mal, foi primeiro para ajeitar tudo, porque o estudante do CNPq não pode trabalhar. O Brasil é o único país que faz isto até hoje, você recebe um mês, não recebe dois meses, recebe outro mês, mais três sem receber. Levamos onze malas, minha mãe com um lenço dourado na cabeça tipo indiano, batom vermelho, nunca tinha viajado, parecia uma muambeira, no aeroporto ela – Alguém fala português aqui, por favor ? – uma alemã ‘eu fala português’ (duro e rústico) ”.

Depois de uma hora seu pai chegou foi para o aeroporto errado, soava o alarme de bombas, estavam no meio da Guerra do Golfo e Londres estava sendo ameaçada, “mas, foi daí a vida começou, era outro mundo pra mim” ressalta Deffune.

Cibele estudou na escola antroposófica Michael Hall Steiner Waldorf School, em Forest Row, norte de Londres. Teve aulas de francês, inglês, alemão, sapateado, balé, dança, violino, piano, canto livre, artes plásticas e todas as outras matérias curriculares. “Um lugar bonito, mas tenebroso, de dia bonito, à noite tenebroso, tenebroso e bonito, tenebroso e bonito, […] foi desta cidade que vieram as histórias do ursinho Pooh onde os troncos são da grossura de uma sala e foram queimadas as últimas bruxas,” diz.

A cantora conseguia destacar-se apenas nas aulas de música, no restante, ia sem saber aonde estava indo, parecia um manicômio. “Não sei ao certo se Cibele sabe o que esta passando ao seu redor, mas esta indo muito bem nas aulas de canto, era a única matéria que estava bem”, reforça. As crianças eram educadas sem violência verbal e nem física, porém eram mal-educadas aos extremos. Por um lado tinha a palmatória que foi até o final da década de 80 e no outro as crianças queriam matar os professores, as mudanças educacionais ainda eram muito recentes, num período de adaptação.

“Na segunda semana de aula a turma foi para uma floresta dentro da escola. O professor tinha um cachecol feito à mão nas cores do arco íris e de repente alguém grita – CABO DE GUERRA !!!! – seis alunos seguram de um lado e seis do outro puxam o cachecol até o professor ficar vermelho, ajoelhado, quase caí no riacho, pedia por favor crianças não façam isto (numa voz calma),   largam quando percebem que iriam matá-lo, quando soltaram a veia estava saltada no pescoço, o professor chamou um dos alunos, Toby, que fugiu e escorregou nas pedras com limbo, batendo a cabeça. Pensei, que escola de gente louca”, conta Deffune. A escola particular tinha o custo entre 300 e 500 libras, Cibele entende que a educaçõa até que era boa, ajudou em algumas coisas.

Por um tempo a família teve que sair da Inglaterra e foi morar em Portugal. Por problemas financeiros, permaneceram na “terrinha” durante oito meses até estabelecer as contas e para seu pai não perder a bolsa de estudos. “Fomos morar numa quinta, tinha uma mega floresta e até uma senzala, bizarro, e ainda ficava no meio da cidade”. Foi um período de respiro em relação a realidade cruel e ao clima pesado do país inglês.

No retorno a Inglaterra à família foi morar no condado de Kent. O casamento não ia bem, os pais não brigavam na nossa frente, percebia a situação, somatizava, mas não conseguia saber o que era aquilo. Deffune passava pelas transformações e dificuldades da adolescência, a aceitação de um ser em desenvolvimento na puberdade, porém nas entrelinhas a vida parecia correr bem.

Cibele em entrevista ao jornalista Mario Junior- Foto: Reprodução do Facebook

Cibele em entrevista ao jornalista Mario Junior- Foto: Reprodução do Facebook

“Adoro minha mãe, mas eu parecia àquelas crianças que os pais não dão muita atenção pros problemas, um dente cresce mais que outro, os braços, ficam grandes, não sabia se escondia aquelas formas ou mostrava. Continuávamos escutando música, indo nos teatros, líamos de tudo da literatura brasileira e inglesa, meu pai incentivava em tudo, menos em ser músico, ele dizia – artista é pra quem tem condições de ser e pra quem tem talento natural – aquilo me matava na unha, sabe?”, enfatiza.

Cibele voltou para o Brasil em 1992, o processo de separação dos seus pais já havia ocorrido. Mas permaneceu por pouco tempo, pois não conseguiu adaptar-se nos estudos e teria um retrocesso de quatro anos na formação. Logo, ao final de 1994, voltou para Inglaterra para finalizar os estudos, com sua irmã e o pai casado novamente.

A primeira vez no palco veio aos 14 anos, no Internacional Evening Festival das Culturas pela Universidade de Londres, cantando Garota de Ipanema. “Você quer que eu cante Garota de Ipanema? Você vestido de gaúcho? Escrevo no papel você vai lá e canta – mas eu quero cantar outra música pai!    – vai cantar Garota de Ipanema (imitando) – Uma amiga chamada Liane cantou comigo, pensei ia ser uma vergonha, mas depois de outros artistas, meio desconcertada, cantei super mal e todo mundo aplaudiu”, diz Deffune.

Após episódios complicados em casa Cibele resolveu morar sozinha, aos 16 anos, cuidando de uma senhora idosa e ainda trabalhando num Pub à noite. Fez de tudo, arquiteta Junior, recepcionista, limpeza, gerente de limpeza, fazendo traduções simultâneas, redatora em revistas, em fim. “Nas escolas de Londres você é obrigado a trabalhar, para algumas formações conta pontos, põe um cartaz na escola e você vai e se inscreve”, explica.

Deffune participou do primeiro Pop Idol 2000 – 2001, cantou U2 Still Haven’t Found What I’m Looking For (traduzido: Eu não achei o que estou procurando), bem conveniente, não acha? Destacou-se das outras participantes por sua espontaneidade, o biótipo exótico de nariz libanês e, claro, por seu talento. “Estava na fila: quem quer contar uma piada? Eu. Quem quer fazer uma sessão de fotos? Eu. Quem quer não sei o que? Eu. Estava desde as 6h00 na fila, pra ficar ali? Eu não quero eu não! Diziam que eu tinha o jeito de uma negra, mas eu sou negra, só encarnei na cor errada, deram risada”.

A cantora passou nas audições, mas por tratar-se de um programa direcionado para o Pop, acabou não ficando. “Cibele aqui você tem que cantar Cristina Aguilera, Britney Spears –  mas eu não quero-  mas só está cantando Jazz, Blues, música negra, você vai cantar o que eu te mandar cantar”. Mas, perseverante conseguiu participar do mesmo programa na rádio com a mesma música, tudo ao vivo, porém por ser brasileira não ficou novamente.

“Estava com uma calça cheia de purpurina espalhava por tudo por onde passava, meu noivo estava vestido de couro imitando pele de cobra, super crazy, as pessoas perguntavam quem é este? Esse é meu namorado, o Dancan”, descreve. Infelizmente, apesar de passar, não ficou por ser brasileira, “aqui é Pop Idol não Brazilian Idol”. Participou também do Model Behavior no Channel 4, mas por ter formas bem definida não ficou. Também teve um dia de rockstar pela promoção da Axé Out of the Blue, seja tratado como um Superstar.

Nas idas e vindas entre Inglaterra e Brasil, trabalhou num centro de eventos, bar e club, gerido por uma francesa. Morava com o ex-namorado Billie, grande amigo hoje. Depois de sair de um restaurante francês, ofensivo e desgastante, recebeu uma ligação de uma mulher falando com sotaque carregado, ficou um pouco receosa. A fachada do lugar era vermelha com dourado, todo chique, mas “pensava que era um prostíbulo o lugar, todo vermelho, o que eu vou fazer? Receber os clientes. Como assim? (desconfiada) Organizando o mapeamento as mesas. Helen, usava uma saia mostrando os fundilhos e fumando um cigarro, disse – você não deve se vestir assim, é inapropriado. Eu estava com um terno rosa, ela parecia uma dona de Bordel, com uma saia que parecia um cinto mostrando as pernas e a polpa da bunda”.

O lugar não era um bordel, Uffa!! Entretanto o tratamento entre as pessoas era bem parecido. “As pessoas se xingavam a toda hora, falavam palavrão, você é uma putinha francesa, o cozinheiro jogava panelas na gerente (Helen) e dizia – I’m gonna kill you bitch –  toda recatada, mas era na amizade. Era um bordel, mas só que chique”, reflete. As brigas apaziguaram um pouco após um puxão de orelha nas gerentes, que pareciam duas crianças de jardim, porém parou de cantar, era um serviço desgastante onde fazia de tudo.

Por intermédio de Amélia, uma amiga que sonhava em ser cantora, conseguiu um novo emprego, bem mais na sua praia no Gear Box Sound and Vision que prestava serviço pra Abbey Road, BBC Studio, 21 St. FOX dentre outras.

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Às vezes, parece que Deffune sofre de distração. No estúdio Gear Box Sound And Vision trabalhou com Michael Price, atendia Robert Smith (The Cure), conheceu o produtor das trilhas sonoras de Batman o Cavaleiro das Trevas e Watchmen, Tony Sheridan (descobridor dos Beatles) e Róisín Murphy (Moloko).

Mas, com tantos problemas, namorado internado, assediada e perseguida por um motorista da empresa, só percebeu onde estava depois de um ano. Apesar de cantar escondida do namorado, teve vergonha de soltar uma nota para o descobridor dos Beatles. Ensinou vários artistas famosos a usar o estúdio móvel e ainda não entendeu qual a empresa o Sr. Robert Smith fala “T H E CURE, my Love. Que empresa estranha esta? Todos riam” conclui.

Acredito que Cibele tem ótimas histórias foram três horas de entrevista com muitas risadas e uma verve que apenas ela tem. Participou da corrente cultural com o projeto Cibele & The Acoustic Waves, esteve no Paço da liberdade, aqui e ali, teve um episódio de plágio de setlist, dá aulas de inglês, cantou em cruzeiros, se apaixonou, só revelou a família querer ser cantora em 2009, perdeu, ganhou, teve figurinos vivos indo pra Boston e agora da mais uma passo importante na sua carreira.

Contudo, numa síntese resumida: Miss Deffune tem o talento natural de agregar apenas as boas notas com carisma e dedicação, é capricorniana, batalhadora, figurinista, fotografa, escritora, compositora, reforma sofá, estudou cinema, …, …, …,… Ah!!! E, também, ótima cantora e sente preguiça às vezes. Tudo nela contém e nada esta contido. Faz jus ao que disse Alexander Supertramp “a felicidade só existe se compartilhada”, obrigado.

Paço da Liberdade recebe Cibele Deffune e convidados nas ondas suaves do amor que nos inspira

Cibele Deffune retorna ao Sesc Paço da Liberdade, com apresentações no dia 05, às 19h, e 12 de maio, às 20h acompanhada pelo violonista João Borth, o pianista Bernardo Manita, com participações de Flávia Dias, Gerson Bientinez e outros. O show composto por releituras e músicas próprias, com influências do Pop, Jazz e R&B Britânico, intitulado “Cibele Deffune & Only the Good Notes”, dá nome ao primeiro EP com seis canções autorais, com a proposta de promover a alegria, o sorriso e o amor ao próximo mais próximo.

O Ep surgiu de um amor platônico por um cantor francês de Soul, por meio do drama pessoal com a separação da esposa. Segundo Cibele “salvou sem ao menos saber que estava salvando, e inspirou de todas as formas que um ser pode fazer”. Quando percebeu dormia e acordava pensamento no cantor e aos poucos as melodias surgiam no ouvido, apenas as boas notas, ou, traduzindo, Only The Good Notes.

O trabalho inspirado pelo platônico está acima do físico, desafia as leis da distância entre o corpo e a alma, expressa contemplação, agradecimento e, porque não, louvação ao amor. Cada canção exprime este sentimento. A longa jornada pretende ser finalizada em Paris e Londres com a gravação do álbum contendo 14 faixas, que contam um pouco da história de Cibele Deffune e deste amor.

Segundo Deffune o seu estilo está em concordância com Etta James e Ella Fitzgerald. “A música é tudo, faz parte do mundo, bem como todas as suas vertentes e, querer fazer uma separação, entre boas e ruins, é totalmente desnecessário”. Logo, espere uma apresentação com boas surpresas no repertorio, para todos os públicos.

O show que acontece no Paço da Liberdade dia 05 de maio de 2016 é o primeiro da série de quatro apresentações, duas em maio, uma em junho e outra em julho para divulgação do trabalho e arrecadação de verbas para dar continuidade ao processo, até a gravação do álbum. Atualmente, Deffune está na busca por patrocínio através de leis de incentivo, investidores e pessoas interessadas, se houver disposição não hesite em procurá-la.

Na busca por quem é este amor platônico me levou a conhecer a sua setlist e após um trabalho de garimpo encontrei Otis Redding, Nat King Cole & Louis Amstrong, Jamie Cullum, Aretha Franklin, Ella Fitzgerald e tantos outros, mas infelizmente não descobri quem possa ser a fonte. Fiquei entre Opé Smith e Benjamin Clementine, mas Miss Deffune insistiu em não dizer, fica o suspense.

Escrever sobre uma cantora de Jazz que trás em si a dicotomia da música a maravilha e a destruição, é muito difícil. Quando conheci Miss Deffune estava indo para aula de inglês no Paço, aos e olhos e ouvidos, uma cantora estranha, com corte de cabelo Cleópatra (baseado Cladette Colbert que foi a primeira Cleópatra do cinema mudo), vestido anos 60, acompanhada de piano e voz, me prendia a laços invisíveis. É difícil distanciar o artista da pessoa, o escritor do amante, porém, Cibele Deffune encanta talvez sem querer, por pura distração, ou, certamente, de caso pensado, portanto, cuidado, você pode gostar.

 

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Mario Luiz Costa Junior

Iniciante, recém chegado do jornalismo moleque. Estilo namoradinho da verdade. Charmoso e dengoso nas letras. Deambulante da desinversão da pirâmide invertida. Ativo e passivo no lead e sub-lead. Não dispensa ‘A história da minha vida’ com Renato Gaúcho.

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