Os filhos de santo correm de um lado pro outro concentrados nos enfeites que ornamentarão a festa da noite. O amarelo é predominante e o tom dourado faz as faixas de seda, que cruzam o teto de um lado a outro, vibrarem. No centro do barracão um adorno envolto em tecido amarelo sustenta uma cesta com folhas de trigo. A festa é de Oxum, deusa da beleza, do amor, orixá do ouro. Os preparativos acontecem no Ilê Asé Ode Inle, casa de candomblé fundada há mais de 40 anos por Mãe Izolina Gruber no bairro Pinheirinho.

Hoje a casa é bem estruturada. As paredes na cor salmão e o chão de granito refletem os anos de trabalho duro de Mãe Izolina. As coisas, porém, eram muito diferentes há quatro décadas, quando o Ilê foi fundado. No barraco de pau a pique, sobre o chão de terra batido, ela iniciava sua jornada como mãe de santo aos 24 anos de idade, era a mais jovem entre as ialorixas de Curitiba. Natural da cidade da Lapa, se mudou para a capital ainda menina. Aos 11 anos começou a frequentar um terreiro de umbanda. Logo no inicio descobriu a mediunidade e passou a trabalhar com uma preta velha chamada Maria Conga. Depois de anos na religião sentia-se confortável na condição de médium e nem lhe passava pela cabeça a ideia de ser mãe de santo. No entanto, os planos do mundo espiritual eram outros. “Eu não me imaginava uma mãe de santo, sabia que essa responsabilidade era grande e por isso não a queria. Mas, meu pai de santo acabou se afastando e os demais médiuns me procuraram para que eu assumisse a orientação espiritual de todos. Assim, acabei abrindo essa casa e muitos dos que me conheceram naquela época continuam aqui até hoje”, conta Izolina que na época era chamada de “Mãezinha de Ososy”.

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Depois de assumir a responsabilidade como líder espiritual resolveu procurar um pai de santo e iniciar-se também no candomblé. Conheceu então Pai Antônio Ogan, precursor da religião em Curitiba. “Ele foi o primeiro pai de santo de Curitiba. Formou muita gente importante como o Pai Veco, por exemplo. Alguns anos depois me transferi para o barracão do Pai Valdomiro de Sango do Rio de Janeiro que era filho de Mãe Menininha do Gantois. Fiquei 25 anos com ele. Uma pessoa maravilhosa que me ajudou e me ensinou muito, mas que infelizmente já cumpriu sua jornada aqui na terra”, conta.

Tempos difíceis

Como mãe de santo Izolina Gruber soma 60 anos, de vida já foram 72. Perdeu as contas de quantos filhos iniciou no candomblé. Estes criaram sete casas da religião nas quais surgiram muitos outros filhos, incluindo alguns em Buenos Airies, na capital argentina, cidade onde um de seus discípulos mantém um Ilê Asé. Assim, por meio do barracão de Mãe Izolina, gerações vêm perpetuando a prática dos ritos africanos no Brasil e no exterior.

Construir essa história, no entanto, não foi nada fácil. Aos 24 anos, logo depois de dar vida à casa de pau a pique onde cultuava seus orixás, Izolina e o esposo se separaram. Ficaram ela e cinco filhos biológicos. Além deles, começaram a fazer parte da família os agregados. “Eles chegavam pedindo algum tipo de ajuda e como não tinham para onde ir acabavam ficando”, lembra. Em pouco tempo, além de sua prole, haviam mais 14 morando sob o mesmo teto da família. O sustento vinha do trabalho como empregada doméstica. Mas logo as coisas começariam a melhorar, a custa de muito esforço. “Resolvemos criar uma empresa de limpeza. Como a maioria não tinha muito estudo, essa era uma área que poderia empregar a todos”, e assim aconteceu, por meio da empresa de limpeza conseguiu criar os filhos e melhorar as coisas no barracão. Além de trabalhar, a mãe de santo incentivou os filhos e os agregados a estudarem e hoje sua descendência conta com policiais, jornalista, delegado, funcionários públicos.

Assim a família crescia. Vidas se renovavam e vidas começavam no Ilê Asé Ode Inle. O exemplo mais marcante é Maria Patrícia Silva. Sua mãe chegou no barracão de Izolina grávida e dias depois começou a sentir contrações. A criança veio ao mundo pelas mãos da preta velha Maria Conga que fez o parto no Roncó (local sagrado onde ficam recolhidos os iniciados no candomblé). Hoje, Maria Patrícia (que leva no primeiro nome aquela que lhe ajudou a nascer) ainda faz parte da casa de Mãe Izolina, assim como sua filha e sua pequena neta.

Quando se instalou no Pinheirinho, além de vencer as dificuldades financeiras, Mãe Izolina e seu Ilê Asé precisaram lidar com a intolerância religiosa. “Naquele tempo o candomblé era feito escondido, a Polícia entrava a cavalo nos terreiros, havia muita intolerância”. Mas, a mãe de santo que havia se instalado em uma das regiões mais carentes de Curitiba, não se deixava intimidar e, ao invés de criar inimizades no bairro por conta de seus cultos, passou a exercer um papel de líder comunitária. “Nossa casa começou a receber pessoas influentes que vinham em busca de trabalhos espirituais. Entre eles estavam muitos políticos e, por meio deles, consegui ligações de água e luz para muitas residências da região, além de diversas ajudas com cestas básicas que eu distribuí para nossos vizinhos mais carentes durante mais de 20 anos”, conta a líder religiosa.

Zeladora em tempo integral

Mais de 60 anos da vida de Mãe Izolina foram dedicadas às religiões de matiz africana. A filha de Ososy vive em tempo integral como zeladora dos orixás. Para transmitir um pouco do conhecimento que adquiriu ao longo de todos esses anos montou a Associação Izolina de Lima Gruber (http://ailg.com.br/index2.html) por meio da qual dá aulas de candomblé e promove eventos ligados à religião, como uma missa rezada em Iorubá (idioma de origem africana por meio do qual são proclamadas as rezas e cantos do candomblé) que realizou ao lado de um padre na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (Puc). Além disso, a mãe de santo terminou de escrever um livro sobre fundamentos da umbanda, do candomblé, além da importância de algumas ervas e os tratamentos que podem ser feitos por meio delas. “ O candomblé é feito pelas energias da natureza: terra, água, ar e fogo. Cada um desses quatro elementos se divide em quatro formando assim o panteão dos orixás. A nossa religião é intimamente ligada com a natureza e, consequentemente com as ervas que são um suporte do nosso trabalho. Os candomblecistas, além de tudo, são conservadores da natureza porque nos nossos trabalhos nunca sujamos a mata, os rios ou o mar”, esclarece sobre alguns dos pilares de sua religião.

A criança veio ao mundo pelas mãos da preta velha Maria Conga que fez o parto no Roncó (local sagrado onde ficam recolhidos os iniciados no candomblé). Hoje, Maria Patrícia (que leva no primeiro nome aquela que lhe ajudou a nascer) ainda faz parte da casa de Mãe Izolina, assim como sua filha e sua pequena neta.

Casa do Gantois

Mãe Izolina hoje faz parte do Terreiro do Gantois ou Ilê Asé Iyá Omin Iyamassê que é o mais famoso e um dos mais importantes terreiros do País. A casa de candomblé, situada na cidade de Salvador, teve como comandante Maria Escolástica da Conceição Nazaré, mais conhecida como Mãe Menininha do Gantois. Izolina hoje é filha de santo de Mãe Carmem de Oxalá, filha caçula de Mãe Menininha e que comanda o Ilê Asé há mais de uma década. “Tenho a honra de hoje fazer parte de Gantois. Uma das casas mais tradicionais do país”, diz.

Com a Casa de Gantois vieram as responsabilidades e entre elas está a de zelar pela imagem dos orixás. Por isso, em todas as paredes da casa de Mãe Izolina, há um aviso que deixa claro: “É proibido filmar ou fotografar”. Assim, as fotos tiradas para nossa reportagem foram uma exceção e não há nelas orixás “em terra”.

Além de seguir os preceitos passados pela Casa de Mãe Menininha, Mãe Izolina tem seus próprios valores, dos quais não abre mão. “Na minha casa ninguém consome bebidas alcóolicas, drogas ou alimenta qualquer vício. Tenho isso como regra e aqui todos respeitam”, destaca. Agnes Jordão, Ìyáláse do barracão e filha biológica de Izolina, ressalta que a mãe é realmente muito firme em suas convicções. “Ela é religião, vive disso e para isso. Renunciou toda sua vida lá fora para se dedicar à religião. Mas ela não perdoa deslizes, todos que são da casa precisam estar de corpo e mente limpa. Além disso ela sempre pregou e viveu o respeito absoluto ao candomblé”, conta a filha.

A festa

A noite do último sábado (23) era de festa no Ilê Asé Ode Inle. Oxum era a homenageada e não faltaram filhos de santo e convidados para lhe prestar homenagens. Todos muito bem aparamentados com ojás na cabeça, colares de conta das mais variadas cores. Meninas de saia branca lembravam pequenas baianinhas. Os três atabaques (lé, rumpi e run) ditavam o ritmo das danças da roda que formava uma espiral. Brados saldando os orixás ecoavam de quando em quando. Cada grito de orixá saldava sua chegada a terra.  Em meio às danças batas coloridas, boinas e saias com o dourado de oxum ganhavam vida. E atrás da roda, sentada em uma cadeira estava Mãe Izolina de Ososi, a mais importante peça de todo o espetáculo, vestida com uma simples saia amarela, uma blusinha de renda branca e um ojá da mesma cor. Com olhar sereno fitava sua obra, mais de 60 anos de Kêtu, quatro décadas à frente do Ilê, centenas de filhos de santo e com uma contribuição ímpar para a consolidação do candomblé na capital do Paraná e em outras tantas cidades. Izolina é uma memória viva dos cultos africanos no sul do país, zela pelos orixás, zela pelos filhos, zela pelo candomblé e principalmente por seu pai Ososy.

 

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