Coluna Pão e Pedras: Amenidades e Poesia

Hoje eu conheci Deus. Hoje eu conheci o Diabo. Apresentaram-se assim, juntos, num lugar que está entre o tudo e o nada, entre o cheio e o vazio.

Eram como irmãos gêmeos, se é que seres de divina origem apresentam, com qualquer ser, algum parentesco. O fato é que eram idênticos em aparência, de idênticas feições e gestos. Tinham ausentes todos os pelos do corpo, de nariz fino e comprido; a fala lenta e a voz de uma grave agudeza. Era impossível distinguir-lhes o sexo ou o gênero, uma vez que misturavam traços masculinos e femininos; de macho e de fêmea. Eram de uma androgenia sem igual no mundo. A cor da pele era de um tom entre o róseo e o marrom escuro, de aspecto semelhante aos mais nobres metais. Apresentavam, ao mesmo tempo, uma força imensa e uma delicada fragilidade.

 Só era possível distingui-los um do outro pelas vestes e pelos olhos. Vestiam, os dois, um manto curto que lhes chegava, no máximo, ao meio das coxas, dotando-os de intensa sensualidade. Eram idênticas as mantas, justas na cintura e deixando, por vezes, o seio à mostra. Variavam apenas na cor. Deus vinha de rosa, enquanto o Diabo vestia um verde claro, próximo ao que vemos em roupas de hospital. Os olhos de Deus eram singulares, assim como os do Diabo. Deus tinha azul o olho direito e castanho o olho esquerdo. O Diabo era o exato oposto; castanho o direito e azul o esquerdo. De resto eram inteiramente idênticos um do outro, como se fossem a réplica de um mesmo ser.

 Longe de serem opostos um ao outro, Deus e o Diabo completam um ao outro e simultaneamente se contradizem. Os poderes de um aumentam na exata medida em que os do outro, sem variação alguma. Portanto, o Diabo, para cumprir seu papel histórico no mundo, colabora com Deus na medida em que esse pretende-se aumentar a si mesmo enquanto totalidade. Se um cresce, o outro o acompanha, da mesma forma que quando um deles resolve diminuir-se de tamanho.

Nesta longuíssima conversa com Deus e com o Diabo, soube eu de tudo o que acontece neste mundo; tudo o que já aconteceu e tudo o que acontecerá. Eu vi a mesma serpente que adornava o império dos Faraós tentar Eva nos Jardins do Éden e matar Cleópatra após uma noite de embriaguez. Vi Abel, que era agricultor, matar Caim, pastor de muitos animais, mudando totalmente o modo como homens e mulheres viviam até então. Vi Malaquías partir para a guerra ao lado de Judas – não àquele que traiu um certo homem e  que depois se enforcou – enfrentando o exército romano, morrendo na guerra e levando consigo o inocente José, crucificado. Vi Sócrates – aquele da Maiêutica – ser condenado à morte por envenenamento por persuadir a juventude contra os Deuses. Vi Maria Madalena vender seu corpo pelo alimento de cada dia ser santificada, ao contrário de todas as suas colegas de profissão que existiram antes e depois: essas foram amaldiçoadas pela moral vigente. Vi rios e rios de sangue em nome de sabe-se lá o que. Conheci Antônio Conselheiro, Thomas Morus, Barnabé de Chipre, Catarina de Alexandria, Cucufate de Barcelona, os Gêmeos Gervásio e Protássio, Januário de Nápoles, Che Guevara, Pancho Villa, Pantaleão de Nicomedia, Virgulino Ferreira da Silva, Martin Luther King, Mahatma Gandhi, Zumbi dos Palmares, Carlos Marighella, Olga Benário, Galdino Jesus dos Santos, Maria Ângela Ribeiro, Iara Iavelberg, Arno Preis, Aurora Maria do Nascimento Furtado, Al Hajj Malik Al-Habazz, Dorothy Stang, e muitos outros.

Conheci cada homem e cada mulher, e mesmo outros seres que virão a habitar esse planeta, vi Deus e o Diabo em cada um deles e em todos, simultaneamente. Vi pessoas ganhando o mundo em troca de sua alma; gente de todo o tipo trocar suas vidas pelos mitos mais diversos; vi matar e morrer por uns tantos quinhões de moedas; irmão matar irmão; o egoísmo matar de fome; coberturas e favelas; palácios e cortiços. Vi morrer de velhice aos 30 anos; boas ideias serem sufocadas; banho de sangue contra indígenas e camponeses de todo o mundo.

Vi também, e foi o que mais me impressionou, um grande monstro, que faz matar e faz morrer. Uma quimera das mais horrendas, daquelas que tem diversas cabeças, armas e números, aprisionando e enlouquecendo uns tantos, transformando tantos outros em pedra. Se alimentando de carne humana, possui uma fome de tal modo insaciável que, por falta de comida passa a alimentar-se de partes de si mesmo. Essa atitude autofágica, apesar de lhe prolongar a vida, o consome pouco a pouco, até chegar ao ponto onde não há mais o que comer. Nem há mais monstro, pois este já não passa de uma pilha de ossos.

Aos que sobreviveram – pois esconderam-se muito bem atrás de suas ideias e de suas armas – coube juntar Deus e o Diabo em um único ser, rompendo com toda a lógica e a proporção então existente, contrariando todas as leis e botando fim a todo o mundo até então conhecido. Por fim, depois de milhares e milhares de anos vivendo na pré-história, finalmente poderão abrir suas cabeças e, daí pra diante, realizar a verdadeira História humana.

 

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Kauê Avanzi é mestrando em Geografia pela USP, educador no Ensino Básico, poeta e músico. Gosta de escrever, se divertir e confraternizar.

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