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Era só mais um dia, como todos os outros. O expediente tinha corrido bem e agora ela só queria um drink, um flerte e talvez até um sexo casual para fechar aquela sexta-feira bem. Ela sabia que era disso que precisava para apagar momentaneamente a saudade. Afinal era linda, independente, bem sucedida, quase a nega 1100 da música da Ana Carolina, com a diferença de ser loura e morar numa cobertura.

Cumprimentou a faxineira com um beijo estalado, e recomendou que ela não ficasse até tarde trabalhando, só tirasse o lixo do escritório e fosse pra casa. Afinal era sexta-feira e ela adorava a Dona Rosa. Saiu para o estacionamento desfilando e arrancando olhares gulosos dos funcionários que sempre babavam quando a chefe passava. Definitivamente ela era um espetáculo de mulher, linda, inteligente, educada, querida por todos. O tipo que você apresenta pra sua mãe como a mulher da sua vida. E realmente ela seria a mulher da vida de qualquer um.

Mas ela era a nega da música e não dava mole pra qualquer um, e também tinha a suas preferencias, resumindo a opera; os branquelos do escritório não tinham a menor chance. Ela gostava do seu avesso, sempre gostou. Era a patricinha que sempre se encantava por caras de renda menor, mas caráter inigualável. Gostava de negros e não tinha vergonha de dizer, não tinha vergonha de sentir saudade.

Sentia falta do cara com jeitão de moleque, barba por fazer, sorriso fácil e nem um pouco de interesse nos bens que ela tinha. Mas ele não era pra ela, pensar assim a confortava. Ele dizia que não podia mudar, que gostava de ser daquele jeito simples, que usar uma gravata quando necessário pra acompanha-la a algum coquetel era aceitável, mas que não podia mudar a vida toda, e usar roupas que não lhe faziam sentir-se bem só pra agrada-la. Que se ele mudasse, ela o deixaria por não ser mais o cara por quem ela se apaixonou.

Entrou no carro e respirou fundo. Viu a foto dele quase caindo do porta-luvas junto a um maço de cigarros que ele nunca chegou a fumar, mas que ela conservava caso ele retornasse ao vicio. Aqueles dias sem ele tinham se tornado um inferno, e pra piorar sabia que ele iria fazer o que pudesse pra não ligar, que iria voltar fumar, escrever feito um louco, e como ele escrevia bem, se afundar ao som das bandas de rock do pub que ele amava e ela odiava. Ele iria se virar, como sempre, mesmo sofrendo o diabo não permitiria que ela o visse de cima. Sempre foi orgulhoso e ela então nem se fala.

Ligou o carro, beijou a foto e dirigiu-se para o bar, as amigas já estavam lá, essa noite teria blood-mary e samba, quem sabe era disso que ela precisava.

O bar estava movimentado como se era de esperar, e as amigas já deveriam estar lá pela terceira rodada de cerveja e na segunda dose de tequila, ela nunca foi de baladas, mas as amigas eram outra história, alias estava ali por conta de muita insistência delas. Disseram que a noite seria especial, épica, que ficaria na memória para sempre, que ela não se arrependeria. Foram tantos argumentos, aliados a maldita saudade que ela não teve como inventar uma desculpa plausível para não ir, elas falaram que seria inesquecível, que ela não se arrependeria, e elas nunca estiveram tão certas.

 Não demorou muito para achar a mesa das meninas, sentou-se e fez sinal para o garçom se aproximar, queria um blood-mary caprichado na vodca. As amigas esperaram a sua bebida chegar e fizeram um brinde a qualquer coisa que ela não se interessou em ouvir, apenas ergueu o copo desejando saúde. Elas estavam aprontando alguma coisa, podia sentir no ar o cheiro de armação, mas fosse o que fosse não daria certo. Ao dar o primeiro gole percebeu que a parte do caprichado na vodca foi muito bem entendida. Exatamente como ela queria.

As meninas resolveram que era hora de ir pra pista, que era hora de dançar, de tirar aquela cara azeda dela por algum tempo. Meio a contra gosto as acompanhou, e começou a dançar, gostava de dançar, se sentia em outro universo, era puro instinto, uma nova espécie que não poderia ser decifrada. Não era da bebida que ela precisava, ela precisava dançar, cair no samba, e exorcizar todos os seus demônios internos.

E ela dançou, como se o mundo fosse acabar depois da ultima canção, afinal se acabasse ela estaria feliz. Lá pela décima musica já estava mais leve que o éter, já estava sorrindo, já estava leve, nem sentia mais os pés tocando o solo. Mas ao fim da música algo veio para lhe jogar no chão, lhe tirar a paz. Não saberia dizer se era a voz, a imagem, o cheiro ou tudo isso junto.

O cantor disse que tinha uma participação especial, um amigo que era de outra tribo, que era de outro ritmo, mas que hoje ia mudar até o próprio nome se preciso fosse, as meninas estavam sorrindo, como se soubessem o que iria acontecer depois. Foram as palavras do cantor que a seguraram pela perna, e as do convidado as puxaram, não sabe se pro chão ou pro colo, tudo que ela pode lembrar depois foi:

– Bem, esse não é o meu ritmo, não é a minha tribo, e muito menos o meu lugar. Mas longe dela também não é. E pra ficar com ela, nela e ser dela, eu mudo o meu nome, Amor muito prazer, essa noite eu sou o samba, o seu samba.

Ela não sabe se estava com a boca na dele, antes ou depois da música acabar. Na verdade pouco importava, a música acabou, mas a noite pra ela estava apenas começando, a vida estava apenas começando, e desta vez ela não deixaria de ter o seu final feliz.

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Biólogo com especialidade em toxicologia alucinógena por formação, toca contra-baixo por teimosia, escreve por necessidade, mas a sua real vocação é almoçar. Escreve no seu blog acamadepregos mas nem sempre.

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