Foto: João Júlio Melo/Divulgação

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Os grunhidos, vocalizações, estalos e estampidos de corpos em movimento soavam por detrás do pano preto. O negrume cessava em pequenos focos de luz que compunham o cenário com gaiolas, caranguejos, aquários cheios de lama e uma caixa de areia. O palco do mangue, cadeia sustentável de matéria orgânica em decomposição, rica em nutrientes, serve de ambiente, é moradia e alimento para os atores, que de lá formam a carne da sua própria carne, dando vida aos personagens neste ciclo de criação. Nasce caranguejo – no habitat lodoso, salgado e úmido – os homens que vivem da sua caça, caçadores que justificam a fome, como motivo para a violência. Por motivos desconhecidos um dia fui homem hoje sou Caranguejo, Overdrive.

O solilóquio de abertura ao som de Quilombo Groove (Chico Science e Nação Zumbi, Afrociberdelia – 1996), enquanto retorce na caixa de areia, Cosme, Matheus Macena, ex-combatente da guerra do Paraguai acometido por uma crise no campo de batalha, transforma-se. O personagem representa os horrores vividos no combate da Tríplice Aliança e as mazelas sociais na tentativa de reinserção, esquálido, desacreditado pelo governo, vende-se ao trabalho de exploração por um prato de comida. O ator, em processo de mutação, com os braços arcados e pequenos estalos de boca faz a respiração abafada em terra do animal do mangue, soa angustiante.

Segundo o diretor Marco André Nunes o caranguejo está no espetáculo a todo o momento, inclusive no trabalho corporal dos atores. Nos processos de transição, o ator Fellipe Marques, transmuta em cena com argila, num rito quase tribal e antropofágico, num caranguejo que permanece estático observando o público, um artrópode humano. A cadeia do animal dos manguezais está presente no cientifico, morfológico, léxico, desmembra as patas, a carapaça e come a carne. “Há o caranguejo vivo em gaiolas, o alegórico, o físico cheio de barro e aquele que percorre o ciclo: sai da terra, virá homem e volta a ser caranguejo. Do subterrâneo do mangue para cima da terra, para o mangue novamente” explica.

A peça Caranguejo Overdrive, encenada pela d’Aquela Cia. De Teatro, baseia-se no livro do cientista político Josué de Castro, Homens e Caranguejos, obra que introduz o ‘homem-caranguejo’, termo criado para descrever o habitante dos mangues do Recife, que figura o modo de vida subjacente compelido a eles. Escrito por Pedro Kosovski o enredo circunda três pilares: a Guerra do Paraguai, as obras do Canal do Mangue no Rio de Janeiro interligando ao mesmo habitat em Recife. Na história, o catador dos manguezais fica recluso por seis anos, neste período, em que está na guerra, obras de drenagem acontecem na Bacia do Canal do Mangue, no Rio de Janeiro, cortando raízes e o sustento do personagem, provocando um deslocamento social e temporal.

A reinserção na sociedade, no retorno da batalha, acontece no encontro com a Prostituta Paraguaia (Carolina Virguez), sequestrada por um soldado brasileiro teve a família morta no conflito e reconta a história mais honesta possível do Brasil, o amor pelo algoz numa espécie de Síndrome de Estocolmo. O panorama, com toques de ironia, passa pelas diretas já, os movimentos de impeachment passados e atuais, a estruturação da economia, momentos importantes, que causam muitas risadas e identificação da plateia. A história também é um ciclo do mangue.

Foto: João Júlio Melo/Divulgação

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De acordo com Carolina Virguez nas primeiras leituras, na formação do trabalho, aberto a improvisações, houve uma mistura de discursos que acontecem ao longo da trama, que na contemporaneidade, fica entre uma peça e quadros performáticos. Porque, tudo se mistura dança, música, movimentos corporais, “são muitos discursos ao mesmo tempo sobre a fome, o momento que estamos vivendo, pontos pessoais do Cosme, que sofre um mimetismo, ou da Prostituta” conclui. O trabalho vai se moldando, adequando, evoluindo, transformando-se.

A autofagia no enredo esta presente também na sonoridade do espetáculo que agrega elementos do movimento Manguebeat ou Manguebit, dos “caranguejos com cérebro”. Alimentam-se na metáfora de Chico Science da “parabólica na lama”, do que o habitat produz estão antenados no mundo. Absorvendo, deglutindo e regurgitando, bem como na obra de Josué de Castro.

A peça Caranguejo Overdrive que teve duas sessões em 30/03/2016, às 18h00 e, finalizando a temporada, às 21h00, na Casa Hoffmann, pelo Festival de Curitiba, foi premiada com as estatuetas de melhor autor (Pedro Kosovski), direção (Marco André Nunes) e melhor atriz (Carolina Virguez) no 28º prêmio Shell de Teatro Rio. Saindo de Curitiba o trabalho d’Aquela Cia de Teatro retorna para o Rio de Janeiro e permanece em cartaz até o final de maio.

 Ficha técnica

Direção: Marco André Nunes.

Texto: Pedro Kosovski.

Elenco: Carolina Virguez, Alex Nader, Eduardo Speroni, Fellipe Marques e Matheus Macena. Músicos em cena: Felipe Storino, Maurício Chiari e Samuel Vieira. Direção Musical: Felipe Storino.

Iluminação: Renato Machado.

Instalação Cênica: Marco André Nunes.

Ideia Original: Maurício Chiari.

Realização: Aquela Cia. De Teatro.

 

 

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Mario Luiz Costa Junior

Iniciante, recém chegado do jornalismo moleque. Estilo namoradinho da verdade. Charmoso e dengoso nas letras. Deambulante da desinversão da pirâmide invertida. Ativo e passivo no lead e sub-lead. Não dispensa ‘A história da minha vida’ com Renato Gaúcho.

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